a vida e seu ofício

“Nesta vida morrer não é difícil.
O difícil é a vida e seu ofício”.

Os versos do poeta russo não me saiam da cabeça quando a moça dos olhos de amêndoa contou a respeito daquele sábado de chuva forte, calor opressivo e velhas saudades. Mais uma vez, uma silenciosa ausência roía o fundo do seu estômago. Buscava lacunas, caminhos, respostas, mas sabia que era cedo para encontrar qualquer vestígio do que pudesse ter havido. Não chorava, ao contrário das muitas noites anteriores de desalinho. Parecia anestesiada pela repetição do ato, como se simplesmente estivesse morta e enterrada a Patti Smith que um dia morou dentro dela, aquela Patti Smith à espera de Robert Mapplethorpe quando ele desaparecia nos labirintos de seu mundo de michês.

Para você que se ressente da falta de fatos:

Os versos sobre viver e morrer que não me saíam da cabeça haviam sido escritos por Vladimir Maiakovski em memória do amigo Serguei Iessienin, no longínquo ano de 1926.

A moça dos olhos de amêndoa era uma velha amiga, afastada do equilíbrio pelas próprias escolhas, cada vez mais distante de si mesma, atormentada pelas ausências prolongadas e inexplicadas de um homem repleto de dissonâncias e bemóis. O sujeito que roubava seus beijos, seu pensamento e seus peitos subtraia também, de formas boas e más, seu sono e seu sossego. Ela o amava em absoluta simbiose e frequente turbulência, como Patti Smith amava Robert Mapplethorpe desde o verão de 1967, o verão em que perdemos John Coltrane, mas ganhamos Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

[Esperamos que gostem do show.]

Robert Mapplethorpe não vive mais entre nós, abatido pelo vírus da AIDS em 1989. Serguei Iessienin também não, desde que decidiu partir de si mesmo, três dias depois do Natal de 1925. Maiakovski escolheu destino semelhante ao atirar contra o próprio peito, em 14 de abril de 1930, aos 36 anos.

Nas palavras dedicadas a Iessienin, Maiakovski dizia que era preciso transformar a vida para cantá-la em seguida. Também sentenciava, entre profeta, filósofo e boêmio ligeiramente alterado pelo álcool: era melhor morrer de vodca do que de tédio. Cinco anos depois, ao escrever a própria despedida, soou bastante menos esperançoso – por motivos óbvios.

– De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso. Os poemas inacabados entreguem aos Brik, eles saberão o que fazer. Como dizem: caso encerrado, o barco do amor espatifou-se na rotina. Acertei as contas com a vida. Inútil a lista de dores, desgraças e mágoas mútuas. Felicidade para quem fica.

Maiakovski se foi, trágico e jovem. Seus versos, ao contrário, atravessaram o século intocados pelos estragos do tempo. Porque sou avessa à matemática, não contei quantos anos se passaram desde então até aquele sábado de chuva forte, calor opressivo e velhas saudades.

O que contei, apenas: que os versos feitos para Serguei Iessienin não me saiam da cabeça, que uma silenciosa ausência roía o fundo do estômago da moça dos olhos de amêndoa e que ela não chorava, como se estivesse morta e enterrada a Patti Smith que um dia morou dentro dela, aquela Patti Smith – vocês sabem – à espera de Robert Mapplethorpe quando ele sumia nos labirintos de seu mundo de michês.

O que contei, também, a despeito de ser avessa à matemática: que nenhum passar de anos seria capaz de abalar a doída, mas reveladora verdade guardada nos versos de Maiakovski para o amigo que decidiu partir de si mesmo três dias depois do Natal de 1925. Morrer não era difícil. O difícil era a vida e seu ofício.

sororidade, substantivo feminino

A palavra sororidade ainda não faz parte da maioria dos dicionários da língua portuguesa. Seu imenso significado, no entanto, ecoa todos os dias, em lugares diversos, nas atitudes de mulheres que protegem, apoiam, encorajam, fortalecem e incentivam outras mulheres.

Sororidade é a união entre mulheres, calcada na empatia, na defesa e no companheirismo de quem enfrenta problemas comuns e busca objetivos parecidos. É a aliança de iguais com diferentes, solidificada pela solidariedade e pela sensibilidade de quem conhece as dificuldades impostas quase sempre pelo mundo dos homens.

Sororidade tem a ver com não realizar julgamentos prévios, pois, muitas vezes, juízos precipitados com relação a mulheres refletem estereótipos machistas e patriarcais. Tem a ver com apoiar outras mulheres para buscarmos, juntas, a liberdade a que temos direito – ou deveríamos ter. Tem a ver com banir as palavras vagabunda e vadia do nosso vocabulário e parar de responsabilizar as mulheres pelas escolhas de um homem comprometido.

[Quem nunca?]

Sororidade simboliza o laço que convida as mulheres a lutar por direitos iguais, a raiz comum que convoca a combater os preconceitos de gênero. O prefixo soror vem do latim e significa irmã. Seu uso aponta para a irmandade entre mulheres, para a prática de ensinar que meninas não precisam odiar outras meninas, não precisam rivalizar com elas, não precisam se vestir para elas e nem considerá-las como concorrentes.

Pode parecer óbvio, mas a verdade é que fomos criadas, com raras exceções, para colaborar com os homens e competir com as mulheres. Lutamos para alcançar postos mais altos na carreira profissional, custe o que custar. Mas esquecemos que, quanto mais progredirmos, maiores as chances de levarmos outras mulheres conosco e maiores as possibilidades de implantarmos políticas de inclusão e igualdade nas empresas.

Vivemos em estado de alerta contra as vacas que flertam com nossos santos namorados, ex-namorados, maridos e ex-maridos [assim mesmo: como se fossem elas as vacas e eles os santos]. Investimos em vestidos, sapatos e maquiagens para brilhar na comparação com os vestidos, sapatos e maquiagens de outras mulheres. Mas perdemos em bom senso, deixamos a falta de empatia engolir qualquer sinal de compreensão e comunicação.

Praticar a sororidade exige que nos coloquemos umas no lugar das outras. Por mais difícil que pareça. Por mais novo que seja. Por mais que nem todas façam. Por mais que culturalmente sejamos treinadas para o contrário. De outra forma, seguiremos criticando, competindo e desprezando aquelas que deviam ser parceiras de batalha, ao mesmo tempo em que reforçamos o machismo, nutrimos a desigualdade e enfraquecemos a nós mesmas.

Sororidade é uma revolução feita de dentro para fora.

um olhar sobre a felicidade

Nem sempre é fácil. O ritmo alucinado e alucinante da vida nos induz a acumular bagagens, competir com os semelhantes, desprezar os diferentes, ouvir pouco, falar muito, correr por correr, quase sempre sem pensar no que verdadeiramente nos move. Temos visto e vivido dias e respectivas noites repletos de tretas para os mais variados gostos, desencontros, angústia, sombras, solidão, falta aguda de perspectivas animadoras.

Nem sempre é fácil. O modo como muitos de nós estamos vivendo afasta mais do que aproxima, destaca as discordâncias mais do que os elos, fortalece o ego em oposição à partilha, naturaliza o preconceito, amplifica a intolerância, estimula a violência.

Definitivamente, nem sempre é fácil.

Mas um sujeito de rosto banal, óculos de aros finos, nariz adunco e sorriso contido chamado Tal Ben-Shahar parece ter vislumbrado um caminho. Na primeira vez que ele ministrou seu curso na Universidade de Harvard, Estados Unidos, em 2008, oito alunos se inscreveram. Dez anos depois, o número era ligeiramente maior: passavam de 1.000 os interessados naquele que se tornaria o curso mais conhecido da faculdade mais celebrada do mundo.

Felicidade, não Direito, Medicina ou Engenharia, era o programa que os estudantes buscavam com o professor israelense de rosto banal e óculos de aros finos.

O que realmente interfere no quanto somos felizes, ele ensina, é o tempo que passamos, por inteiro, com pessoas, em lugares e em atividades que são importantes para nós. Além disso, entender o estresse e o fracasso como partes do que também somos ajuda muito, e é um aprendizado e tanto. Para evitar o desânimo, a frustração e a tristeza, precisamos vivenciar todas as emoções, sejam elas boas ou justo o oposto, como a raiva, o arrependimento e a decepção. Caso contrário, ele aposta, elas se intensificam.

Sentimentos dolorosos não são de todo mau, defende o professor israelense de nariz adunco e sorriso contido. Eles significam que estamos vivos e que, salvo engano e uma ou outra exceção, não somos psicopatas.

[Ufa].

Há, evidentemente, um componente genético na felicidade nossa de cada dia. Mas a maior parte dela, garante Ben-Shahar, depende da forma como decidimos encarar as quedas, interpretar as derrotas e fazer escolhas, das grandes às menores.

Há também as condições materiais, e é certo que elas importam, porque temos contas a pagar, supermercado, remédio controlado, o conserto da bicicleta, os impostos todos, as prestações combinadas, a pia que precisa ser trocada, o condomínio implacável no quinto dia do mês, a vida real repleta de boletos, extratos e faturas impiedosos a bater na porta.

O que fazer, então, quando as contas não fecham? Como ser feliz em meio a tantas obrigações e diante dos tropeços? Como ter tranquilidade e alegria apesar do que pesa? Como caminhar rumo a um futuro próspero a despeito do que falta? Como seguir em frente depois de uma grande decepção ou de um tombo daqueles?

Resumindo a ópera, a resposta ensinada em Harvard aponta para equilíbrio e propósito, para o tempo passado com aqueles que são importantes para nós, a capacidade de entender o fracasso como parte do que somos e a força interior que herdamos dos momentos difíceis.

Nem sempre é fácil [não mesmo], mas quem disse que seria?

da série começos inesquecíveis: moby dick, 1851

aspasMe chamem de Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. Sempre que me pego ficando amargo, mandíbula tensa; sempre que em minha alma se faz um novembro chuvoso e cinzento; sempre que me vejo detendo involuntariamente o passo diante de agências funerárias e seguindo a cauda de todo cortejo fúnebre que encontro; e especialmente sempre que minha hipocondria leva a melhor sobre mim de tal forma que só um forte princípio moral me impede de sair à rua e, deliberadamente e com método, aplicar murros na cara dos passantes – nesses momentos, sei que está na hora de me fazer ao mar o mais depressa possível.

Moby Dick
Herman Melville
1851

considerações poéticas sobre a terra vista de cima

TimPeake

Durante os 186 dias que passou numa missão espacial, o astronauta britânico Tim Peake completou exatas 2.720 voltas ao redor da Terra. Ao olhar o universo do alto, a uma velocidade de mais ou menos 30 mil quilômetros por hora, o homem do espaço ficou impressionado com a beleza frágil do nosso planeta e com a pequena espessura da atmosfera, uma fina camada que sustenta um milhão de formas de vida, ou mais.

É impossível olhar para a Terra a partir do espaço e não ficar aturdido, ele diz.

De dia – palavras dele também – quase não se notam ocupações humanas. À noite, a história é outra. Ao ver do espaço as luzes das cidades, das estradas e das estruturas construídas pelo homem, dá para traçar o padrão das migrações, dos assentamentos e até da exploração dos recursos naturais, como aquela feita pelos barcos de pesca da Tailândia ou a promovida pelas máquinas de extração de petróleo no Oriente Médio.

Peake fotografou o que enxergava. Registrou a madrugada iluminada de Dubai, o pôr do sol no Pacífico, os tons de azul das Bahamas, a beleza tortuosa do Alasca. Guardou as formas do canal do Panamá, os contornos de Ipanema e Copacabana, a Ponte Rio-Niterói e a Baía de Guanabara. Catalogou o Himalaia e seus picos nevados, as areias do deserto do Saara, as pirâmides do Egito. Sentiu através da câmera a floresta amazônica e o correr de seu rio.

As conclusões não poderiam ser mais poéticas: de cima, ao que tudo indica, nada separa lugares distintos além das divisões produzidas pela mãe natureza, ao longo de 4,5 bilhões de anos. Em vez disso, o planeta que aqui embaixo vemos completamente repartido se revela um imenso quebra-cabeça geológico, com características que se repetem por continentes inteiros, harmonicamente.

O mundo visto do alto não é fragmentado como o conhecemos por aqui. Vistas de outra perspectiva, as fronteiras literais ou simbólicas criadas pela mão do homem são, no espaço, reduzidas a quase nada. Vistas de outra perspectiva, as batalhas que importam parecem ser não aquelas movidas pela ganância, pela má política e pela falta de cuidado com os semelhantes, suas casas e o meio ambiente.

Vistas de outra perspectiva, as transformações mais relevantes são como deviam ser as minhas, as suas, as de todos nós: aquelas esculpidas especialmente pela força da natureza e pela passagem do tempo, aquelas que realmente importam.

pequeno dicionário para o ano que começou

A
Agradecer, apesar das dificuldades ou por causa delas
Alongar os músculos, todos os dias, todos os meses, todos os anos
Amar com zelo, lealdade e desapego, apesar das provas e dos tropeços

B
Blog, ano 15: que seja fértil como os melhores solos
Bicicleta: que sejam agradáveis, estáveis e seguros os caminhos
Brasil: que as coisas terminem bem

C
Cuidar da vida [mais da própria, menos da dos outros]
Cuidar do corpo, todos os dias, todos os meses, todos os anos
Cuidar dos sonhos

D
Destemer, apesar do desconhecido
Dançar, apesar das dores
Decidir, apesar do medo, exatamente como a escritora sugeriu que fosse

[Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir].

E
Evitar a fadiga
Encontrar a saída
Escolher o que compensa, dispensar o resto e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém

F
Faça amor, não faça chapinha
Faça amor, não faça guerra
Faça amor, não faça merda

[Palavrões, no geral, também é melhor evitar]

G
Guarde as críticas mais ácidas para depois
Guarde um pouco de energia [mas não toda] para amanhã
Guarde as melhores lembranças para sempre

H
Há de ser mais claro
Há de ser mais simples
Há de ser mais tranquilo

I
Inspirar
Inspirar
Inspirar

J
Justiça, espero que você de fato exista

K
Kit Kat para os dias amargos
Kind of Blue para as madrugadas
Keep calm, sempre que for o caso

L
Lealdade aos seus
Liberdade a si mesmo
Laços no lugar de nós

M
Mínimas, semínimas, fusas e semifusas
Mãos à obra
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo [mantra]

N
Nina Simone em 1964 [Don’t Let me Be Misunderstood]
Nina Simone em 1965 [Feeling Good]
Nina Simone em 1966 [Lilac Wine]

[Pus meu coração nessa receita].

O
O que disse o romancista: “O que nos muda também nos aumenta”
O que disse o compositor: “Palavras dizem sim, os fatos dizem não…”
O que disse o poeta: “Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir”.

[Hei de aprender com ele a partir de uma vez – sem medo, sem remorso, sem saudade].

P
Pernas para que te quero
Perdão para seguir em frente
Plumas, para que a leveza seja lei

Q
Que parte de mim que eu desconheço é que me guia?

R
Respirar
Respirar
Respirar

[E recomeçar, sempre que necessário].

S
Ser humilde
Ser justo
Ser constante

T
Tom maior, sempre que possível
Telescópio, o peixe que me acalma
Tchau e ponto final

U
Um desejo para os tempos que virão: harmonia, sabedoria e alegria
Um dia de cada vez, os pensamentos a seu tempo
Upgrades

V
Vesícula eu não tenho mais
Vitrola ainda tenho
Vestidos felizmente também

W
White, E.B., como em anos anteriores: “Esperança é o que nos resta nos tempos difíceis”.

X
Xícaras de chá e o ritual que elas encerram

Y
Yin e Yang, em nome do equilíbrio das coisas

Z
Zerar as dívidas, reais e metafísicas
Zelar pelos afetos mais fundos
Zarpar quando for preciso, como antes.

agradecer

Alguém já disse, com toda razão, que a gratidão transforma o caos em ordem, a negação em aceitação, a confusão em clareza. O oposto é um perigo. Quando estamos tomados de insatisfação, sentimos que nossas escolhas não acrescentam, nossos empregos não satisfazem, nossas roupas não cabem, nossa casa não acolhe, o sal não tempera, os amigos não ligam ou então são outros os desagrados.

Em meio ao turbilhão de faltas, esquecemos dos braços, pernas, pés e mãos que funcionam bem, do teto que nos acolhe, da possibilidade de enxergar, das pequenas vitórias, das canções e dos afetos, de gente próxima com quem realmente podemos contar, do amor em estado puro a despeito das dificuldades. Em meio ao turbilhão de faltas, esquecemos do que nos é essencial e que nos serve, bem ou mal, dia e noite, faça chuva ou faça sol.

[O essencial é entender o que nos move, estar próximo do que nos emociona, investir no que importa e dispensar o resto. O essencial é aquela história: escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém].

Não deve ter sido coincidência. Às vésperas do Natal, uma época em que tradicionalmente somos [ou deveríamos ser] tomados pelo hábito de dizer obrigado, fui internada às pressas para uma cirurgia de emergência na vesícula. A dor era imensa, a maior que lembro ter sentido. A operação não foi das mais simples, mas saí de lá quase inteira.

Dois dias depois, recebi alta e, apesar da recuperação dolorida e do susto, por todo o lado havia motivos para dizer obrigado. Eu estava viva, antes de mais nada. Caminhava com dificuldade, mas caminhava. A família inteira estava sintonizada, os de perto e os de longe, e as alianças permaneciam firmes e fortes. Felizmente tínhamos condições de comprar os medicamentos prescritos pelo médico, a dieta completa, o conforto todo.

Quando fomos para casa, Melodia esperava na porta. Os enormes olhos amarelos do meu gato de estimação contrastavam com seu pêlo preto brilhante. O balanço do rabo indicava felicidade. Os discos acumulados ao longo da caminhada e os livros cuidadosamente enfileirados nas prateleiras estavam exatamente do jeito que eu havia deixado.

Era bom voltar.

Quando olhei em torno, lembrei daqueles dias em que tradicionalmente somos [ou deveríamos ser] tomados pelo hábito de agradecer, apesar de todo o peso que o ano acumula. Dezembro havia começado com chuva. Meu estado de espírito não andava muito diferente. Eu precisava serenar a pele, organizar a casa e, mais urgente que tudo, cuidar para que meus pensamentos voltassem a ser leves. O coração batia pesado. Apesar disso, eu sabia: precisava pensar profundamente no lado bom da vida.

O tempo, uma vez mais, desempenhava com maestria seu papel de santo remédio, e eu não tinha escolha mais indicada a fazer do que simplesmente agradecer.