talvez o mundo não seja pequeno nem seja a vida um fato consumado

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efeito borboleta

Pode um minuto que seja mudar o rumo das coisas todas? Os desfechos estão escritos ou a vida vai sendo tecida conforme correm os anos em seus meses e os meses em seus dias e respectivas noites? Somos marcados para protagonizar esta ou aquela experiência ou as cenas se constroem conforme instrução divina?

Pensávamos nisso diante da tragédia anunciada pela emissora de televisão: 71 dos 77 passageiros do Avro Regional Jet 85 colombiano estavam mortos, um time inteiro de futebol dizimado a uma hora de seu destino, às vésperas da final do campeonato.

Perguntávamos de nós para nós mesmos o que teria havido se o chute defendido pelo pé direito do goleiro no último minuto do último jogo tivesse desfecho oposto. O que teria havido se aquele gol fosse consumado? A resposta evidente mexia mais com o nosso fígado do que as doses de Jim Bean sem gelo que acompanhavam a conversa. Outro time jogaria a final, outro time estaria no avião, outro time que não aquele, inteiro dizimado a uma hora de seu destino, às vésperas de vocês sabem.

A teoria do matemático Edward Lorenz voltava oficialmente a nos assombrar.

Em 1963, nenhum de nós havia ainda nascido. O pesquisador norte-americano, por sua vez, já trabalhava com previsões meteorológicas nos laboratórios do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. A certa altura, Lorenz concluiu que o bater de asas de uma borboleta seria capaz de influenciar o curso natural das coisas e provocar um tufão do outro lado do mundo. O termo passou a explicar a dependência sensível que existe entre qualquer acontecimento e as condições iniciais em que ele se dá.

Quatro décadas mais tarde, fizeram um filme ligeiramente ruim, mas muitíssimo inquietante a respeito do Efeito Borboleta descoberto por Edward Lorenz enquanto trabalhava com previsões meteorológicas no MIT. O personagem principal, um menino de infância conturbada, descobre ser capaz de alterar o passado e percebe, de maneira pouco ortodoxa, que pode salvar os que ama de problemas e tragédias. Acontece que, conforme altera o passado e conserta antigos desvios, novos desfechos surgem, e nem todos têm resultados melhores que os anteriores.

Sabíamos desde então, e ainda hoje, que escolhas têm causa e consequência, estômago, amores, caminhos, espíritos e encontros condicionados um pouco ao acaso e outro à matemática, um pouco à prudência e outro à permanência, um pouco ao improviso e outro ao ensaio, num sistema mais ou menos descontrolado de impulso e produto.

Sabemos ainda hoje, e desde então, que escolhas têm causa e consequência, verdade, comédia, miopia, diálogos e madrugadas condicionados um pouco ao momento e outro à história, um pouco à solidez e outro ao movimento, um pouco à intimidade e outro ao desconhecido, num sistema mais ou menos descontrolado de realização e resultado.

Sabíamos desde então, ainda hoje e cada vez mais, que somos só um pouco donos de nós mesmos, e nem sempre é o bastante.

entusiasmo

A palavra era entusiasmo. Havíamos sido desafiados a eleger substantivos, adjetivos, advérbios ou verbos que de algum modo representassem aquele momento em que a realidade implacavelmente postada diante de nós exigia concentração, equilíbrio, bom senso e uma dose extra de fé no futuro. Em um dos papéis, a caligrafia bem-feita de professor anunciava a escolha certeira:

ENTUSIASMO. Substantivo masculino. Ato ou efeito de entusiasmar (-se). Nas religiões não cristãs da Antiguidade, estado de exaltação do espírito, de comoção profunda da sensibilidade de quem recebe, por inspiração divina, o dom da profecia ou da adivinhação. Estado de fervor, de emoção religiosa intensa, que leva à intuição das verdades religiosas ou sobrenaturais. Estado de exaltação da alma que vivencia o poeta ou o artista, inspiração.

O estado de espírito da maioria de nós era justo o oposto. Estávamos desanimados com o cenário econômico e entristecidos com as perspectivas coletivas, conscientes das imensas dificuldades e dos inúmeros desafios erguidos ao redor, distantes em quase tudo das condições de exaltação, fervor ou emoção intensa registradas no dicionário como significados do verbete de dez letras encadeadas em sílabas milimetricamente divididas por cinco.

Tínhamos esperança em temporadas melhores e crença na ideia segundo a qual não se deve julgar cada dia pelas colheitas e sim pelas sementes. Mas não eram estes, em especial, os sentimentos que dominavam aquela manhã.

Ao contrário: havia mais tristeza que alegria e talvez até um pouco de preguiça, mais descrença que confiança, mais medo que coragem, mais cansaço que a palavra que felizmente se anunciou na caligrafia bem-feita de professor quando fomos desafiados a eleger substantivos, adjetivos, advérbios ou verbos que representassem aquele momento.

Entusiasmo lembra dedicação, interesse, encanto, felicidade e afeto. Remete diretamente ao desejo e às vontades. Põe cores vivas em certos encontros, em determinadas conversas e até em alguns silêncios. Ilumina algumas dúvidas, certas faltas e até determinadas partidas. Tem a ver com o essencial, seguir as verdadeiras intenções, a ideia central, a razão principal, o mais alto grau de importância, apesar das decepções, das dissimulações e das expectativas desfeitas.

[É aquela história, sem tirar nem pôr: o essencial tem a ver com ter foco, escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém].

Entusiasmo pressupõe vencer o desânimo, ultrapassar a aridez dos corpos sem alma, superar o peso dos tempos difíceis. Em sua jurisprudência, o desalento não tem vez, nem o cansaço, o vazio, os encontros suspensos até segunda ordem. Entusiasmo exige amor pelo momento, entrega, dedicação. Sua ausência pinta de cinza a casa inteira, enche a vida de descrédito, aumenta o ângulo pelo qual vemos as perdas, as partidas, os adeuses.

Entusiasmo é exatamente como no poema.

– Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.

dylan e os recomeços

bob-dylan-2016-nobelUm texto antigo, por ocasião do anúncio de que Bob Dylan venceu o Prêmio Nobel de Literatura neste dia de vento frio.

Aquele homem foi um caso típico na minha vida. Antes até de sua música, estive interessada no que dizia, no que fazia, no que não dizia, no que não fazia, nas inúmeras reinvenções de si mesmo. Há uns seis ou sete anos, passei as noites de uma semana inteira lendo uma das suas biografias desautorizadas e ouvindo sem parar canções que nem sempre entendia, e ainda hoje. Tempos depois me encantei com “I’m not There”, o filme que Todd Haynes fez sobre Bob Dylan ou com Bob Dylan ou para Bob Dylan.

[Não sei direito].

Gosto das inúmeras reinvenções de Dylan, porque ensinam que é preciso e possível, mesmo que no momento não pareça. Gosto das contradições dele, talvez porque aproximem o gênio do homem, e “I’m not There” tem um monte delas. Seis personagens representam os vários Dylans que existem dentro do estranho Dylan: Jude Quinn (Cate Blanchett), Billy the Kid (Richard Gere), Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin), Jack Rollins (Christian Bale), Robbie (Heath Ledger) e Arthur Rimbaud (Ben Whishaw).

Quinn é a cara dele, de cabelo emaranhado e olhar perdido no tempo. Ele, Rollins e Robbie encarnam o tormento do artista. Rimbaud, angustiado igual, defende diante de um tribunal opressor que a criação deve ser evitada. Por quê? Porque, fatalmente, haverá interpretações dissonantes e um processo eterno de falta de relação entre aquilo que o artista imagina e a maneira como o público vê o que resulta desta imaginação.

Guthrie homenageia o guru do músico, ativista social sobre quem ele diz que “podia escutar suas canções e de fato aprender a viver”, como alguns de nós aprendemos a viver com Chico, com John, com o Tom ou com o tango – e alguém disse certa vez que devemos ter, todos, alguém com quem aprender coisas, no trabalho e na vida. O de Dylan canta os vagabundos, cruza o país de carona, vive de bebida e sonho.

“I’m not There” é um filme de ficção, mas podia ser uma conversa daquela madrugada ou a própria vida, feita de andanças, mudanças, recomeços, regressos e reinvenções. Como as muitas de Dylan nas últimas quatro décadas. Como as que nos encontram em determinados momentos, esperadas ou não. Como a curiosa história do escocês de séculos atrás chamado Thomas Carlyle, que compartilho antes de encerrar o expediente.

O sujeito, durante anos, trabalhou intensamente num amplo registro da Revolução Francesa. Era pobre e contava com a ajuda, em livros e dinheiro, do filósofo John Stuart Mill. Quando acabou o extenso primeiro volume, emprestou o manuscrito a Mill. Por uma dessas coisas que ninguém explica, o texto pegou fogo, acidentalmente. Carlyle não acreditava em Deus; não podia, portanto, reclamar da tragédia com Ele. Então sentou, respirou fundo e começou do zero, palavra por palavra, linha por linha, página por página.

Talvez tenha entendido que a resposta, meu amigo, sopra com o vento.