ubuntu

Ubuntu. Filosofia africana que trata da importância das alianças e do relacionamento entre os iguais, consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade, confiança, generosidade, compartilhamento e desprendimento.

O sonoro da palavra e a simetria que as vogais guardavam com as consoantes em mesmo número me fizeram suspeitar de imediato: havia algo de bom escondido nas letras milimetricamente colocadas no canto da página.

U-b-u-n-t-u.

O batuque da noite anterior ainda ecoava, estampas, tambores e redondilhas a respeito da força do povo preto e de sua longa batalha por respeito e igualdade.

Busquei ajuda na velha estante de madeira montada rente ao sofá e descobri que Ubuntu podia ser entendido como um sistema filosófico de crenças bonitamente sustentadas pelo afetuoso alicerce da colaboração.

Sua essência é como devia ser a minha, a sua, a de todos nós: um modo de viver em tudo contrário ao narcisismo e ao individualismo, uma maneira de ser em que a partilha, a empatia e a gentileza ocupam o lugar da opressão, da vaidade e do egoísmo.

Na ética Ubuntu, o bem-estar do grupo tem maior importância que as vantagens individuais, a alegria coletiva interessa mais que os benefícios particulares, o valor da humanidade guarda ligação direta com o compromisso de uns com os outros. Na ética Ubuntu, “eu sou porque nós somos”, aqui também incluídos os que já partiram, seus ancestrais e os que ainda virão.

“Umuntu ngumuntu ngabantu”. A máxima proferida no idioma zulu, uma das 11 línguas oficiais da África do Sul, resume e reforça a ideia: “Uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”.

Um professor de antropologia estudava os costumes de uma tribo na África e, ao final da temporada de pesquisas, propôs uma brincadeira para as crianças do lugar. Uma cesta de doces foi colocada debaixo de uma árvore. Ao sinal combinado, as crianças deveriam correr na direção da cesta. A primeira a chegar ganharia todos os doces.

Posicionadas sobre a linha de partida desenhada no chão, as crianças esperaram pelo sinal. Quando o pesquisador gritou o um-dois-três-e-já que autorizava o início do jogo, os pequenos se deram as mãos e, de mãos dadas, correram em direção à árvore. Diante da cesta, repartiram os doces entre todos, em toda a sua doçura, até o último torrão.

Ubuntu.

o equilibrista

– Por que você fez isso?, alguém perguntou ao equilibrista, tão logo ele terminou de atravessar as torres gêmeas do World Trade Center, em um cabo de aço estendido, sem proteção e sem autorização, a 417 metros de altura.
– Faço algo magnífico e misterioso e tudo o que consigo é um prático por quê? O belo é que não há porquê, ele respondeu.

Pensei comigo: sabe que às vezes faz bem não saber?

Quando a gente não sabe, pensei, a cabeça deve doer menos a tristeza dos dias turbulentos, o abdome deve sustentar mais o peso das vértebras retorcidas. A gente, quando não sabe, investe com mais pureza nos encontros, nos diálogos, no prazer e na arte. Protegidas pela graça da ignorância, acolhidas pelo benefício do desconhecimento, mimadas pela dádiva da inocência, as madrugadas passam quietas e a ansiedade respira no compasso certo – ou o mais perto possível.

As horas tendem a pesar menos quando a gente não sabe.

Ao contrário das estações em que chove dentro da gente, mesmo que lá fora faça sol, quando não sabe a gente experimenta a liberdade de se dedicar com menos peso à busca de respostas, sejam elas metafísicas ou prosaicas, sejam elas a respeito dos rumos do jornalismo, dos versos de Bob Dylan ou do sentido da vida, sejam elas sobre o teor alcoólico do gim ou sobre as razões daquele equilibrista.

O equilibrista, a propósito:

Às 7 da manhã do dia 7 de agosto de 1974, um francesinho chamado Philippe Petit estendeu um cabo de aço entre as torres gêmeas do World Trade Center e atravessou, sem proteção e sem autorização, o espaço entre os prédios que Osama Bin Laden mandaria pelos ares em 11 de setembro de 2001. Petit tinha 24 anos, vestia preto e cruzou o vão entre as edificações a 417 metros de altura, por oito vezes, durante pouco mais de 40 minutos. Acabou na delegacia, feliz da vida.

A traquinagem foi exaustivamente planejada. Petit alugou um helicóptero para fotografar o topo das torres, convenceu um executivo do 82º andar a ajudá-lo, fingiu ser repórter de uma revista inventada para entrevistar o síndico.

Enquanto fazia malabarismos na rua para se manter, observou, fotografou. Tomou notas. Subiu e desceu do complexo que ainda passaria por um incêndio em 13 de fevereiro de 1975, um atentado a bomba em 26 de fevereiro de 1993 e um assalto em 14 de janeiro de 1998. Acompanhou a rotina de funcionários e frequentadores e até decifrou a combinação que abria uma das portas: 7-7-4-3-5.

Como a maioria absoluta dos sonhares, Philippe Petit ignorou os riscos, os ventos, a umidade do ar e as exigências da polícia e fez – palavras dele – aquilo que tinha de fazer. Andar sobre fios era paixão antiga, daquelas como na canção.

[Basta um encontro por acaso e pronto: começa tudo outra vez].

Petit já havia passeado suspenso entre as duas torres da Catedral de Notre Dame e pela ponte que atravessa a baía de Sidney, na Austrália. Para atravessar as torres gêmeas, contou com a ajuda de um amigo e da namorada. Também teve alguma sorte, declarou em entrevistas que viriam depois da façanha. Pensou em tudo, minúcia por minúcia, desde o transporte até o modo como faria um cabo de 200 quilos atravessar de um ponto ao outro – no fim das contas decidiu usar um arco e uma flecha para, então, caminhar sobre a corda bamba, deitar e dançar um pouco.

O nome da coisa é funambulismo.

A vara de equilíbrio pesava aproximadamente 25 quilos. Por toda a extensão da linha, havia cabos pendendo em direção ao chão. A função deles era reduzir as vibrações na superfície da corda bamba e, também, amenizar a sensação de vazio que dá olhar para baixo quando não há nada para ver, nem paisagem nem um rosto conhecido, nem formas nem perspectivas; nada.

– Por que você fez isso?, alguém obviamente perguntou.
– Faço algo magnífico e misterioso e tudo o que consigo é um prático por quê? O belo é que não há porquê, ele respondeu.

Pensei comigo – vocês já sabem: sabe que às vezes faz bem não saber?

pequeno dicionário para o ano que começou

A
A pé, sempre que possível
Amor, todos os dias
Arte [faz parte]

B
Batata doce
Brecha na agenda
Blog, ano 13

C
Celular em modo offline
Cozinha afetiva
Camarão não pode

D
Desapego
Dores sob controle
Drummond, Carmélia, Clarice, Borges, Cortázar

E
Equilíbrio
Escrito à mão
Em paz com a vida e o que ela me traz

F
Forno e fogão
Filtro 40
Fé [que a fé não costuma faiá]

G
Grafite 1.9
Gangorra eu não gosto
Gil, Caetano, Chico, Tom, Sampaio, Melodia, Aldir

H
Há folhas no meu coração [é o tempo]

I
Inspiração
Inspiração
Inspiração

J
Justo o oposto
Janelas abertas
Jazz, uma vez mais

K
Kind of

L
Leveza, sempre que possível
Livro novo, quem sabe
Leituras

M
Menos é mais
Madrugada
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo

N
Nina Simone, um ano mais
Nada contra
Nada consta

O
Óculos
Oração
Ouvir, de fato

P
Pedalar
Praticar
Produzir

Q
Quereres
Quitanda
Quotes

R
Recomeços
Reencontros
Releituras

S
Semente
Simplicidade
Ser livre é poder escolher ao que se prender

T
Todo dia é dia de viver
Tradição, nas ocasiões em que sim [nas outras: revolução]
Then you can star to make it better

U
Uma coisa de cada vez
Unidade, união
Umbigo não é o centro do mundo

V
Violão
Vestido, ainda sempre que possível
Verde em volta

W
White, E.B.: Esperança é o que nos resta nos tempos difíceis
Waffle
Wave [porque fundamental é mesmo o amor]

X
X nas boas escolhas

Y
Yin
Yang
Yin-Yang

Z
Zelo
Zoom, para ver de perto
Zarpar quando for preciso, como antes.

efeito borboleta

Pode um minuto que seja mudar o rumo das coisas todas? Os desfechos estão escritos ou a vida vai sendo tecida conforme correm os anos em seus meses e os meses em seus dias e respectivas noites? Somos marcados para protagonizar esta ou aquela experiência ou as cenas se constroem conforme instrução divina?

Pensávamos nisso diante da tragédia anunciada pela emissora de televisão: 71 dos 77 passageiros do Avro Regional Jet 85 colombiano estavam mortos, um time inteiro de futebol dizimado a uma hora de seu destino, às vésperas da final do campeonato.

Perguntávamos de nós para nós mesmos o que teria havido se o chute defendido pelo pé direito do goleiro no último minuto do último jogo tivesse desfecho oposto. O que teria havido se aquele gol fosse consumado? A resposta evidente mexia mais com o nosso fígado do que as doses de Jim Bean sem gelo que acompanhavam a conversa. Outro time jogaria a final, outro time estaria no avião, outro time que não aquele, inteiro dizimado a uma hora de seu destino, às vésperas de vocês sabem.

A teoria do matemático Edward Lorenz voltava oficialmente a nos assombrar.

Em 1963, nenhum de nós havia ainda nascido. O pesquisador norte-americano, por sua vez, já trabalhava com previsões meteorológicas nos laboratórios do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. A certa altura, Lorenz concluiu que o bater de asas de uma borboleta seria capaz de influenciar o curso natural das coisas e provocar um tufão do outro lado do mundo. O termo passou a explicar a dependência sensível que existe entre qualquer acontecimento e as condições iniciais em que ele se dá.

Quatro décadas mais tarde, fizeram um filme ligeiramente ruim, mas muitíssimo inquietante a respeito do Efeito Borboleta descoberto por Edward Lorenz enquanto trabalhava com previsões meteorológicas no MIT. O personagem principal, um menino de infância conturbada, descobre ser capaz de alterar o passado e percebe, de maneira pouco ortodoxa, que pode salvar os que ama de problemas e tragédias. Acontece que, conforme altera o passado e conserta antigos desvios, novos desfechos surgem, e nem todos têm resultados melhores que os anteriores.

Sabíamos desde então, e ainda hoje, que escolhas têm causa e consequência, estômago, amores, caminhos, espíritos e encontros condicionados um pouco ao acaso e outro à matemática, um pouco à prudência e outro à permanência, um pouco ao improviso e outro ao ensaio, num sistema mais ou menos descontrolado de impulso e produto.

Sabemos ainda hoje, e desde então, que escolhas têm causa e consequência, verdade, comédia, miopia, diálogos e madrugadas condicionados um pouco ao momento e outro à história, um pouco à solidez e outro ao movimento, um pouco à intimidade e outro ao desconhecido, num sistema mais ou menos descontrolado de realização e resultado.

Sabíamos desde então, ainda hoje e cada vez mais, que somos só um pouco donos de nós mesmos, e nem sempre é o bastante.

entusiasmo

A palavra era entusiasmo. Havíamos sido desafiados a eleger substantivos, adjetivos, advérbios ou verbos que de algum modo representassem aquele momento em que a realidade implacavelmente postada diante de nós exigia concentração, equilíbrio, bom senso e uma dose extra de fé no futuro. Em um dos papéis, a caligrafia bem-feita de professor anunciava a escolha certeira:

ENTUSIASMO. Substantivo masculino. Ato ou efeito de entusiasmar (-se). Nas religiões não cristãs da Antiguidade, estado de exaltação do espírito, de comoção profunda da sensibilidade de quem recebe, por inspiração divina, o dom da profecia ou da adivinhação. Estado de fervor, de emoção religiosa intensa, que leva à intuição das verdades religiosas ou sobrenaturais. Estado de exaltação da alma que vivencia o poeta ou o artista, inspiração.

O estado de espírito da maioria de nós era justo o oposto. Estávamos desanimados com o cenário econômico e entristecidos com as perspectivas coletivas, conscientes das imensas dificuldades e dos inúmeros desafios erguidos ao redor, distantes em quase tudo das condições de exaltação, fervor ou emoção intensa registradas no dicionário como significados do verbete de dez letras encadeadas em sílabas milimetricamente divididas por cinco.

Tínhamos esperança em temporadas melhores e crença na ideia segundo a qual não se deve julgar cada dia pelas colheitas e sim pelas sementes. Mas não eram estes, em especial, os sentimentos que dominavam aquela manhã.

Ao contrário: havia mais tristeza que alegria e talvez até um pouco de preguiça, mais descrença que confiança, mais medo que coragem, mais cansaço que a palavra que felizmente se anunciou na caligrafia bem-feita de professor quando fomos desafiados a eleger substantivos, adjetivos, advérbios ou verbos que representassem aquele momento.

Entusiasmo lembra dedicação, interesse, encanto, felicidade e afeto. Remete diretamente ao desejo e às vontades. Põe cores vivas em certos encontros, em determinadas conversas e até em alguns silêncios. Ilumina algumas dúvidas, certas faltas e até determinadas partidas. Tem a ver com o essencial, seguir as verdadeiras intenções, a ideia central, a razão principal, o mais alto grau de importância, apesar das decepções, das dissimulações e das expectativas desfeitas.

[É aquela história, sem tirar nem pôr: o essencial tem a ver com ter foco, escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém].

Entusiasmo pressupõe vencer o desânimo, ultrapassar a aridez dos corpos sem alma, superar o peso dos tempos difíceis. Em sua jurisprudência, o desalento não tem vez, nem o cansaço, o vazio, os encontros suspensos até segunda ordem. Entusiasmo exige amor pelo momento, entrega, dedicação. Sua ausência pinta de cinza a casa inteira, enche a vida de descrédito, aumenta o ângulo pelo qual vemos as perdas, as partidas, os adeuses.

Entusiasmo é exatamente como no poema.

– Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.

dylan e os recomeços

bob-dylan-2016-nobelUm texto antigo, por ocasião do anúncio de que Bob Dylan venceu o Prêmio Nobel de Literatura neste dia de vento frio.

Aquele homem foi um caso típico na minha vida. Antes até de sua música, estive interessada no que dizia, no que fazia, no que não dizia, no que não fazia, nas inúmeras reinvenções de si mesmo. Há uns seis ou sete anos, passei as noites de uma semana inteira lendo uma das suas biografias desautorizadas e ouvindo sem parar canções que nem sempre entendia, e ainda hoje. Tempos depois me encantei com “I’m not There”, o filme que Todd Haynes fez sobre Bob Dylan ou com Bob Dylan ou para Bob Dylan.

[Não sei direito].

Gosto das inúmeras reinvenções de Dylan, porque ensinam que é preciso e possível, mesmo que no momento não pareça. Gosto das contradições dele, talvez porque aproximem o gênio do homem, e “I’m not There” tem um monte delas. Seis personagens representam os vários Dylans que existem dentro do estranho Dylan: Jude Quinn (Cate Blanchett), Billy the Kid (Richard Gere), Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin), Jack Rollins (Christian Bale), Robbie (Heath Ledger) e Arthur Rimbaud (Ben Whishaw).

Quinn é a cara dele, de cabelo emaranhado e olhar perdido no tempo. Ele, Rollins e Robbie encarnam o tormento do artista. Rimbaud, angustiado igual, defende diante de um tribunal opressor que a criação deve ser evitada. Por quê? Porque, fatalmente, haverá interpretações dissonantes e um processo eterno de falta de relação entre aquilo que o artista imagina e a maneira como o público vê o que resulta desta imaginação.

Guthrie homenageia o guru do músico, ativista social sobre quem ele diz que “podia escutar suas canções e de fato aprender a viver”, como alguns de nós aprendemos a viver com Chico, com John, com o Tom ou com o tango – e alguém disse certa vez que devemos ter, todos, alguém com quem aprender coisas, no trabalho e na vida. O de Dylan canta os vagabundos, cruza o país de carona, vive de bebida e sonho.

“I’m not There” é um filme de ficção, mas podia ser uma conversa daquela madrugada ou a própria vida, feita de andanças, mudanças, recomeços, regressos e reinvenções. Como as muitas de Dylan nas últimas quatro décadas. Como as que nos encontram em determinados momentos, esperadas ou não. Como a curiosa história do escocês de séculos atrás chamado Thomas Carlyle, que compartilho antes de encerrar o expediente.

O sujeito, durante anos, trabalhou intensamente num amplo registro da Revolução Francesa. Era pobre e contava com a ajuda, em livros e dinheiro, do filósofo John Stuart Mill. Quando acabou o extenso primeiro volume, emprestou o manuscrito a Mill. Por uma dessas coisas que ninguém explica, o texto pegou fogo, acidentalmente. Carlyle não acreditava em Deus; não podia, portanto, reclamar da tragédia com Ele. Então sentou, respirou fundo e começou do zero, palavra por palavra, linha por linha, página por página.

Talvez tenha entendido que a resposta, meu amigo, sopra com o vento.

do dia que encontrei carmélia

Apresentação
Por Milson Henriques

Prefácio do livro Quase um Segundo, 2013, Editora Cousa

quase_capaHá algum tempo, uma insônia braba me pegou e afagou meu ego, já que reza a lenda ela só ataca gente inteligente. Junto, uma necessidade woodyalleana de caminhar (procurar?) pela madrugada, como fazia habitualmente nos meados do recente século passado. Alguma força me arrastou para o centro da cidade, me deixei levar curiosa e corajosamente. Larguei o Fusca na Costa Pereira, segui pela Rua Sete e… não acreditei!! O Britz Bar reaberto?!? Impossível. Acabou creio que no final dos anos setenta!! Entorpecido de surpresa, caminhei com passos de mendigo medroso e… quem estava lá? Impossível!!! Carmélia?!? Mas ela mora naquela estrelinha azul que tanto desejou!! Não pode ser!! Claro que não!! Ela estava na mesa com apenas uma menina pequena, e a gorda nunca foi chegada a criança!

Minha curiosidade foi enorme. As duas estavam num papo que parecia sério, embora às vezes dessem gargalhadas. Cheguei por trás de mansinho para não ser visto, a menininha me olhou. Cúmplice, fingiu que não. Mas reconheci aquele olhar. De onde? Nunca havia visto aquela criança, principalmente naquele antro de jornalistas, comunistas, biriteiros, hippies, gays, viciados, cabeludos e outras espécies que a Tradicional Família teme e condena. Pensei numa hipótese louca: talvez eu conheça aquele olhar lá do meu tempo futuro… A danadinha tinha um olhar sapeca, doce e, como já disse, cúmplice, mas com uma pitada triste da lua minguante. Mas quando me aproximei as duas foram sumindo, com o Britz…

Tenho uma atração pelo começo e pelo fim (por acaso gosto da palavra ocaso), a largada e a chegada, a infância e a velhice. São as duas fases do ser humano que mais gosto de conversar. Mas conversar o quê, se em geral a criança ainda não sentiu a dor da perda, a reconquista da paz, nunca leu Pessoa, Florbela, Drummond, nunca ouviu Tom Jobim, Chet Baker, nunca chorou ouvindo o Adágio de Albinoni? E o idoso, que nem se digna a me responder, porque já enterrou todas as suas mágoas e dores, cobrindo tudo com a areia grossa da amargura?

Eu mesmo já estou sentindo a leve impressão de que já vou tarde…

Não sei se me apaixonei pelos textos por causa da autora ou se me apaixonei pela autora por causa dos seus textos. As duas possibilidades estão certas. O que importa é Ana Laura, que, adulta, possui a pureza sábia da criança e o desencanto do idoso, embora ainda conserve no peito um fio grosso de esperança. De quê já é outra história. Ninguém pode continuar insensível depois de ler isto: “Penso em como a gente devia, mais que tudo, saudar os que estão vivos, um sorriso, uma conversa, respeito, uma mão, gentileza, afeto, um pouco do tempo que anda cada vez mais escasso, para que, quando partirem, seja fácil comer, beber, colorir, receber, dançar, iluminar e cantar em homenagem a eles. Chorar também pode, mas de outro tipo de dor, conforto talvez, de saber que fez o melhor possível enquanto era tempo, e aí resta apenas celebrar”. E mais isto: “(…) aceitar que um mesmo olhar sobre uma mesmíssima coisa é um outro olhar sobre outra coisa, porque num dia o que era amor se torna só indiferença e depois mais nada, e o vazio se transforma em outro amor e depois ninguém sabe”.

Ao contrário de muitos poetas e escritores, a pessoa Ana Laura é exatamente igual ao que escreve. Porcelana. Cristal. Às vezes o tilintar alegre do encontro de taças, às vezes o badalar pesado e melancólico do sino da velha igreja. Gota de orvalho na teia, às vezes aranha devoradora, às vezes a mosca perdida, às vezes a própria teia. Com toda sua aparente leveza, ela também às vezes (sempre?) responde, questiona, discorda (consegue ser viciada em Coca Cola sem ferir nossa amizade!). Mas tudo com tanta doçura, tanto ternura sem pieguice, tanta verdade corajosa sem magoar. Ana Laura não tem contraindicação.

Quando a gente mastiga um suculento morango sente uma gastura capixaba lá no final dos dentes, uma pequena ardência refrigerada que nos faz salivar de prazer, saca? Ana Laura às vezes é exatamente assim. Ler Ana Laura é, como na madrugada, ouvir o canto de um galo perdido naquele distante imaginário lugar onde temos a impressão que o nosso ideal se encontra escondido. Conversar com Ana Laura é sentir em você um olhar danadinho, sapeca, doce, cúmplice, mas com uma pitada triste de lua minguante…

Epa! Então era ela!! Eu sabia que aquilo não foi um sonho!! Obrigado, Ana Laura, sempre tive certeza que um dia iria reencontrar você!

(Sempre defini felicidade como momentos. Por exemplo, o momento do telefonema me convidando para a honra – e responsa – de prefaciar este livro é minha mais nova definição).

E você, futuro leitor, que está com o livro nas mãos, parabéns. Se comprou, ganhou, roubou, pediu emprestado, seja lá como for que foi parar em seu poder, prepare corpo e alma para sentir o que senti. Mas prepare mesmo. Se não puder ler à tardinha, embaixo de uma árvore (daquelas antigas, cheia de pássaros e histórias para contar), numa praia distante, leia em sua casa, mas DE MADRUGADA, para ler com calma. Abra um bom vinho, vodca ou cachaça – a preferência é sua. Se não tiver, não tem importância, leia a seco mesmo, porque garanto que você vai tomar um porre de ternura, abandono gostoso, filosofia, amores, desamores, bares, butecos, doses, doces, doçuras. Garanto que antes do dia nascer irá encontrar um amor guardado dentro do pote de guardar amores.

Tome um porre de Ana Laura, não tem perigo de ressaca.
Ou tem, sei lá.