considerações poéticas sobre a terra vista de cima

TimPeake

Durante os 186 dias que passou numa missão espacial, o astronauta britânico Tim Peake completou exatas 2.720 voltas ao redor da Terra. Ao olhar o universo do alto, a uma velocidade de mais ou menos 30 mil quilômetros por hora, o homem do espaço ficou impressionado com a beleza frágil do nosso planeta e com a pequena espessura da atmosfera, uma fina camada que sustenta um milhão de formas de vida, ou mais.

É impossível olhar para a Terra a partir do espaço e não ficar aturdido, ele diz.

De dia – palavras dele também – quase não se notam ocupações humanas. À noite, a história é outra. Ao ver do espaço as luzes das cidades, das estradas e das estruturas construídas pelo homem, dá para traçar o padrão das migrações, dos assentamentos e até da exploração dos recursos naturais, como aquela feita pelos barcos de pesca da Tailândia ou a promovida pelas máquinas de extração de petróleo no Oriente Médio.

Peake fotografou o que enxergava. Registrou a madrugada iluminada de Dubai, o pôr do sol no Pacífico, os tons de azul das Bahamas, a beleza tortuosa do Alasca. Guardou as formas do canal do Panamá, os contornos de Ipanema e Copacabana, a Ponte Rio-Niterói e a Baía de Guanabara. Catalogou o Himalaia e seus picos nevados, as areias do deserto do Saara, as pirâmides do Egito. Sentiu através da câmera a floresta amazônica e o correr de seu rio.

As conclusões não poderiam ser mais poéticas: de cima, ao que tudo indica, nada separa lugares distintos além das divisões produzidas pela mãe natureza, ao longo de 4,5 bilhões de anos. Em vez disso, o planeta que aqui embaixo vemos completamente repartido se revela um imenso quebra-cabeça geológico, com características que se repetem por continentes inteiros, harmonicamente.

O mundo visto do alto não é fragmentado como o conhecemos por aqui. Vistas de outra perspectiva, as fronteiras literais ou simbólicas criadas pela mão do homem são, no espaço, reduzidas a quase nada. Vistas de outra perspectiva, as batalhas que importam parecem ser não aquelas movidas pela ganância, pela má política e pela falta de cuidado com os semelhantes, suas casas e o meio ambiente.

Vistas de outra perspectiva, as transformações mais relevantes são como deviam ser as minhas, as suas, as de todos nós: aquelas esculpidas especialmente pela força da natureza e pela passagem do tempo, aquelas que realmente importam.

da série notícias inspiradoras: beethoven e o câncer

Células tumorais expostas à Quinta Sinfonia
de Beethoven perderam tamanho ou morreram

Mesmo quem não costuma escutar música clássica já ouviu, numerosas vezes, o primeiro movimento da “Quinta Sinfonia” de Ludwig van Beethoven. O “pam-pam-pam-pam” que abre uma das mais famosas composições da História, descobriu-se agora, seria capaz de matar células tumorais – em testes de laboratório. Uma pesquisa do Programa de Oncobiologia da UFRJ expôs uma cultura de células MCF-7, ligadas ao câncer de mama, à meia hora da obra. Um em cada cinco delas morreu, numa experiência que abre um nova frente contra a doença, por meio de timbres e frequências.

A estratégia, que parece estranha à primeira vista, busca encontrar formas mais eficientes e menos tóxicas de combater o câncer: em vez de radioterapia, um dia seria possível pensar no uso de frequências sonoras. O estudo inovou ao usar a musicoterapia fora do tratamento de distúrbios emocionais.

– Esta terapia costuma ser adotada em doenças ligadas a problemas psicológicos, situações que envolvam um componente emocional. Mostramos que, além disso, a música produz um efeito direto sobre as células do nosso organismo – ressalta Márcia Capella, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, coordenadora do estudo.

Como as MCF-7 duplicam-se a cada 30 horas, Márcia esperou dois dias entre a sessão musical e o teste dos seus efeitos. Neste prazo, 20% da amostragem morreu. Entre as células sobreviventes, muitas perderam tamanho e granulosidade.

O resultado da pesquisa é enigmático até mesmo para Márcia. A composição “Atmosphères”, do húngaro György Ligeti, provocou efeitos semelhantes àqueles registrados com Beethoven. Mas a “Sonata para 2 pianos em ré maior”, de Wolfgang Amadeus Mozart, uma das mais populares em musicoterapia, não teve efeito.

– Foi estranho, porque esta sonata provoca algo conhecido como o “efeito Mozart”, um aumento temporário do raciocínio espaço-temporal – pondera a pesquisadora. – Mas ficamos felizes com o resultado. Acreditávamos que as sinfonias provocariam apenas alterações metabólicas, não a morte de células cancerígenas.

“Atmosphères”, diferentemente da “Quinta Sinfonia”, é uma composição contemporânea, caracterizada pela ausência de uma linha melódica. Por que, então, duas músicas tão diferentes provocaram o mesmo efeito?

Aliada a uma equipe que inclui um professor da Escola de Música Villa-Lobos, Márcia, agora, procura esta resposta dividindo as músicas em partes. Pode ser que o efeito tenha vindo não do conjunto da obra, mas especificamente de um ritmo, um timbre ou intensidade.

Quando conseguir identificar o que matou as células, o passo seguinte será a construção de uma sequência sonora especial para o tratamento de tumores. O caminho até esta melodia passará por outros gêneros musicais. A partir do mês que vem, os pesquisadores testarão o efeito do samba e do funk sobre as células tumorais.

– Ainda não sabemos que música e qual compositor vamos usar. A quantidade de combinações sonoras que podemos estudar é imensa – diz a pesquisadora.

Outra via de pesquisa é investigar se as sinfonias provocaram outro tipo de efeito no organismo. Por enquanto, apenas células renais e tumorais foram expostas à música. Só no segundo grupo foi registrada alguma alteração.

A pesquisa também possibilitou uma conclusão alheia às culturas de células. Como ficou provado que o efeito das músicas extrapola o componente emocional, é possível que haja uma diferença entre ouví-la com som ambiente ou fone de ouvido.

– Os resultados parciais sugerem que, com o fone de ouvido, estamos nos beneficiando dos efeitos emocionais e desprezando as consequências diretas, como estas observadas com o experimento – revela Márcia.

Fonte: Jornal O Globo
29/03/2017