obrigada, 2014 | seja bem-vindo, 2015

Foi um ano de passos grandes, mudanças significativas, algumas ausências e algumas expectativas desfeitas. Causei também os meus desapontamentos, que espero corrigir na temporada que começa agora. Ouvi menos música do que gostaria, passei a entender melhor o que o corpo ensina, respirei com mais consciência que antes, vi meus amigos menos do que me faz bem, trabalhei um bocado pensando no bem da cidade em que vivo. Mudei de emprego. Coloquei no papel o casamento da prática. Testei inúmeras receitas novas na cozinha e felizmente a maioria deu certo. Aprendi um pouco mais sobre a vaidade dos homens e senti ainda mais forte minha convicção de que melhor que o poder é a potência, melhor que o acúmulo é a permanência, melhor que o exagero é o equilíbrio, melhor que a posse é o sentido. Dancei e cantei. Pedalei menos do que gostaria. Li Diários de Bicicleta e gostei do que David Byrne anotou. Optei sempre que possível pelos alimentos orgânicos, reaproveitei as sobras das panelas e separei o lixo seco do úmido, em pequenas tentativas diárias de fazer algo pela sobrevivência do planeta. Sei que posso fazer ainda um pouco mais. Acordei mais cedo que em anos anteriores. Continuei alérgica a camarões e amendoins. Sorri com os olhos. Sorri com os dentes. Sorri com o corpo todo. Chorei outro tanto. Consultei o dicionário, o horóscopo e o oráculo. Fiz acupuntura. Ganhei duas orquídeas. Cuidei das plantas com menos zelo do que devia. Concordei com o compositor, por fim: o lema do Brasil podia ser Amor, Ordem e Progresso.

leminski e o sentido da vida

Conversávamos sobre o sentido da vida, a pureza, a angústia, a injustiça do mundo e o modo como cada um de nós encarou, nos últimos anos, a busca por qualquer coisa que explicasse todo o resto. Meu amigo era quase sempre um filósofo e, às vezes, como naquela noite em que o mundo e nós parecíamos não estar com pressa, apelava para a Física, a Metafísica ou a Política. Quando não havia mais nada, invocou Paulo Leminski.

“Haverá um dia
Em que tudo o que eu disser
Será poesia”

Ao contrário de mim, ele alimentava esperanças na procura, achava a própria busca em si um sentido, via nas interrogações e nas inquietudes um projeto capaz de dar significado ao que, à primeira vista, parecia sem lógica. Eu de minha parte achava que não era possível ser de todo feliz sem antes entender os propósitos do mundo, o egoísmo alheio, as razões da dor que talvez seja um pouco de todo mundo, o tempo e suas transformações.

Ele argumentava que não, que havia sentido até na falta de sentido, que o despropósito da guerra, o desatino do trânsito e o destempero do amor se explicavam pelo simples fato de que não se explicavam, e que era de certo modo bonito ver um sujeito abatido por angústia crônica. Leminski, de novo, socorria aquela conversa que ia pela madrugada, porque como sempre era o tempo por trás de tudo, o mesmo tempo que andava faltando naquele final de inverno, que às vezes dói, noutras vezes conserta, que tem dias que ri, mas em outros desgasta, que machuca, cicatriza ou que vai, apenas.

“Um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto”

Era tempo, experiência, bola, sânscrito, pedra, vizinha, porrada, passo, endereço, assunto, amor e presença, era poesia, divagação e Existencialismo, era o filósofo que dizia que o homem estava sozinho no mundo, forçado, por um lado, a ter consciência de sua solidão e do vazio e absurdo da existência e, por outro, livre para se definir a si mesmo, para se reinventar todo o tempo.

Falta ler os existencialistas, eu pensava, com uma ponta de preguiça, porque a pilha dos não lidos não parava de crescer, porque havia capítulos intocados e páginas atrasadas e mensagens à espera de resposta, porque quase sempre os intelectuais aborrecidos me cansam antes da hora – e não é que às vezes é bom ter três ou quatro interrogações?

Meu amigo concordaria, acho, apesar da paciência dele com os intelectuais aborrecidos – lê, pensa senta, conversa, bebe junto, com toda a dedicação do mundo. A dedicação, aliás, é o que importa, ele diz. Diz que para encontrar o sentido da vida é preciso procurar com todo o popozão. Diz popozão quando quer dizer coração, fazendo graça, e eu digo Leminski de novo, desta vez no meu verso favorito, que há quem diga que tem toda a lógica do mundo [e que eu acho que tem mesmo].

“Acordei bemol
Tudo estava sustenido
Sol fazia
Só não fazia sentido”

idade

Há algum tempo, quando ainda frequentávamos o Bar do Simpson, meu amigo perguntou onde estariam as pessoas da nossa idade. Ouvíamos rock, mas talvez fossemos tão antigos e deslocados quanto o delicioso vinil de Frank Sinatra que embala as primeiras linhas deste texto; líamos Aldous Huxley, Herman Hesse e Charles Bukowski, mas tanto As Portas da Percepção quanto O Lobo da Estepe ou os contos de A Mulher Mais Linda da Cidade pareciam confinados a outra época, outro espaço, outro momento.

Queríamos aventura e estabilidade, endereço fixo e liberdade, vida de funcionário público e conta bancária com participação nos resultados, amor e desapego, segurança e frio na barriga, sol e brisa, risco e sono tranquilo, como se fosse possível ter um e outro e todos na mesma vida, no mesmo beijo, no mesmo endereço, no mesmo dia. Tínhamos mais de mil perguntas sem resposta, mais de 20 anos, mais de 20 muros, raízes na marquise, calma inventada, contas contadas, cores, colírios e delírios, exatamente como na canção.

Ontem de manhã quando acordei, olhei a vida e me espantei
Eu tenho mais de 20 anos.

Os amigos estavam de alguma maneira distantes. Dois ou três ainda faziam aviões de papel, usavam Havaianas em dias úteis, amavam como crianças, dormiam até o meio-dia e comiam pizza no café da manhã. Achávamos que eram felizes, porque talvez estivessem ainda no tempo em que era possível amar sem amarras, comer sem culpa, viver sem fígado e sem sapatos desde que houvesse vinho e violão, jogar sinuca como se não existisse mais nada, nem dor nem perigo nem luz pra pagar nem reunião de trabalho; nada.

Os outros estavam no supermercado ou na igreja, meu amigo dizia, aumentando as medidas da cintura e dos quadris, ou mudando pro leste, ouvindo A Arte da Fuga, cuidando dos filhos recém-nascidos ou dos maridos recém-fisgados, talvez, ou assistindo ao canal do tempo na televisão. Achávamos, com um bocado de pretensão, até, que eles viviam as mudanças sem pensar nas contradições, no fim de determinados ciclos, no início de outros, nas transformações de um mesmo olhar sobre uma mesmíssima coisa e ponto final.

Andávamos [ou, ao menos, pensávamos que sim] entre os dois ou três e os outros. Tínhamos trabalho e canções, divagações e necessidades, dispersões e obrigações, um pouco de tudo e um monte de nada, Havaianas no supermercado mas sapatos no resto dos lugares, fígado estragado duas vezes por semana mas agenda cheia no resto dos dias, pizza no café da manhã mas carro quebrado, luz queimada e IPTU atrasado na sobremesa.

Em noites como aquela, íamos ao Centro e perguntávamos, a certa altura de copos e garrafas, onde estariam as pessoas da nossa idade. Por alguma razão que não conseguíamos explicar, incomodava ter de um lado os meninos e meninas despreocupados e desapegados que um dia havíamos sido e, do outro, os homens e mulheres que seríamos dali a alguns anos, com três ou quatro fios de cabelos brancos e uma ruga entre os olhos um tanto mais tristes. Àquela época, as rugas que carregávamos eram outras.

o futebol e eu

Houve um tempo em que eu gostei de verdade de futebol. Em dias como estes, quando o verde e o amarelo tomavam conta das ruas, das roupas, das casas e das almas, assistia em bando aos jogos, com dedicação, fervor e alguma propriedade, até. Depois das partidas, andávamos até o bairro ao lado para celebrar as vitórias, afogar as derrotas e suavizar as mágoas, que àquela altura pareciam imensas, mesmo que não fossem: um escanteio diante do grande amor, um impedimento que fazia doer os cotovelos, um ataque difícil de engolir, uma bola fora qualquer.

Éramos menos complicados e mais leves, talvez menos endurecidos pelos dias e respectivas noites, mais capazes de perdoar sem restrições, mais dispostos a amar incondicionalmente, mais propensos a querer mesmo as coisas mais distantes – e conseguir, acho que de tanto que queríamos. Atravessávamos a ponte que margeia a praia no tom dos que acreditam ser o desapego a melhor ideia do mundo. Íamos sem tralha nem excesso, sem controle nem exigência, livres das predisposições e dos preconceitos que nos fazem ver mais do que há, dos desafetos que envenenam o corpo, do excesso de razão que atrapalha a visão; livres como no poema, livres.

Liberdade
Palavra que o sonho humano alimenta
Que não há ninguém que explique
Nem ninguém que não entenda.

Hoje aquelas tardes são apenas memórias meio desbotadas, e o futebol vagueia pela sala de televisão como um tema corriqueiro, mas distante. Gosto do momento do hino e dos pênaltis, quando há. Xingo o juiz, quando preciso. Torço segundo orientações, exatamente como a minha amiga. De resto, enquanto corre o jogo, folheio displicentemente as revistas da semana e deixo o pensamento solto, aqui e ali, na alegria, nas tarefas que exigem disciplina, na receita a ser testada, no movimento das coisas, no modo coletivo de construir as vitórias.

Às vezes penso naquele filme que é um pouco sobre futebol e talvez muito sobre a esperança, virtude que dizem dá o dom de suportar o mundo. Às vezes, porque os guerreiros não desistem apesar do ambiente hostil, as questões são outras, de tempos igualmente antigos: como saber sobre a hora de desistir? Até que ponto é preciso ir para se convencer de que melhor deixar pra lá, largar o osso, encerrar o expediente? Como, ao contrário, acreditar que ainda deve, pedir de novo apesar das recusas, sonhar de novo apesar das expectativas desfeitas, voar de novo apesar das quedas? Quando como onde por que a gente descobre que não pode mais?

Às vezes, diante da devoção a um time, penso nas causas que a gente alimenta, a filiação a uma ideia, uma ideologia ou então a um amor, que o escritor ensinou ser tão mais quanto mais aprende a rir diante de seus sonhos demasiado altos, de suas confusões e até de seus sucessos. Às vezes penso na própria alegria, rir de tudo, de fato, dançar quase sempre, levar ao pé da letra a lição gingada do mestre Jorge Ben, que ensinou que, quando a gente para de brincar e mexer o coração, ao invés de bater, padece.

Às vezes, enquanto corre o jogo, penso que é exatamente assim

autorretrato à moda de Gabo

Meu nome, senhoras e senhoras, é Ana Laura Nahas. Houve um tempo em que as cinco letras do meio incomodavam; hoje gosto. A escolha foi das minhas irmãs, inspiradas na canção de João de Barro que minha mãe cantava para embalar o sono delas e que ainda quero tatuar perto do cóccix. Nasci em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, há trinta e sete anos, e ainda não me arrependi. Meu signo é Aquário e meu marido inventa palavras. Estudei jornalismo, vivo em paz entre papéis e cresci ouvindo música brasileira de todo o tipo, a agulha do toca disco chiando enquanto eu existia ou brincava no quarto, e graças às conjunções permitidas por estas atividades tenho sido capaz de sobreviver escrevendo.

Minha verdadeira vocação é ser cozinheira, mas fico tão encabulada quando dizem que o quibe, a cafta, a pasta de grão de bico e a berinjela que fazemos na cozinha de casa são melhores que os dos restaurantes que achei melhor me refugiar na solidão da literatura. Tenho tido de me submeter a uma disciplina atroz para terminar meia página depois de duas horas de trabalho. Exatamente como Gabo, só que com resultado infinitamente menos arrebatador, luto fisicamente com cada palavra e é quase sempre a palavra que vence, mas sou tão dedicada que tenho este blog, uma coluna quinzenal e consegui publicar dois livros em quatros anos. O terceiro, que escrevo agora, progride mais devagar que os outros, porque, entre as tarefas do dia e as minhas dores de cabeça, tenho pouco tempo livre.

Falo sobre literatura talvez mais do que devia, porque palavras, frases e parágrafos me movem de modo mais agradável do que o excesso de exibicionismo destes tempos de tanto blá-blá-blá e tão pouca essência. Ao contrário de Gabo, não estou convencida de que o mundo seria o mesmo sem os livros. Por outro lado, acredito, como ele, que as coisas seriam diferentes sem a polícia. Apesar disto, terrorismo – sinto muito – não é comigo.

Escrevi este autorretrato à moda de Gabo três dias depois de sua morte, às vésperas de um feriado santo, aos 87 anos. A inspiração é este texto aqui, dele, de 1966. Quando soube da sua morte, foi como se tivesse perdido um parente próximo, um vô querido, um vizinho gentil, um professor remoto. O hábito de ler seus livros foi desde sempre uma lição e tanto, cada capítulo, cada entrevista rara, cada discurso, a maneira como ele acrescentava pessoas vivas aos mortos que atormentavam sua imaginação. Com seus modos de colombiano errante e nostálgico, Gabriel García Márquez criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], de quando, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo; e até os peixes do quarto em que costumo escrever têm um pouco dele: Aureliano, Arcádio, Amaranta, Rebeca e – meu ligeiro favorito, que também se foi recentemente – o Telescópio Melquíades.

lembranças de um dia sem assunto

Quase sete anos se passaram desde que aconteceu comigo. Àquela altura do campeonato, era nítida a impressão de que tudo já havia sido dito, do futebol aos mistérios da memória, da saudade às angústias do tempo, da arte à Física, da fé às palavras de Clarice, dos óculos de sol recém-comprados às dores de cabeça em excesso, da corrupção, da propaganda e do sobe-e-desce das Bolsas de Valores, de uma canção em particular ou aquele álbum inteiro de capa branca e só o nome assinado no meio, do amor ou justo o oposto; tudo.

Oficialmente eu passava a fazer parte do time dos autores sem assunto, portadora da chaga da obviedade latente, a cabeça inteira branca pelo lado de dentro, nenhuma ideia, nenhum tema, nenhum som, recado; nada. Pela primeira vez na minha vida de cronista, não havia afetos pra serem ditos, reencontros pra serem lembrados, ladrão filho da puta pra ser xingado, ponte, pano de prato, estante, apenas um dia abafado pela absoluta falta de criatividade, algumas horas antes do horror, o horror chamado prazo de entrega.

Não havia sentimentos pra serem digeridos, diálogos pra serem exaltados ou então os silêncios que seriam igualmente exaltados um dia, ou até havia, mas vai saber. Não havia matemática, poesia nem química naquela semana de absoluta falta de criatividade. Nem a chance de ser como dizem são os bons escritores – que passam a vida inteira escrevendo o mesmo livro, como um jardineiro que regasse suas flores de obsessão – havia, nada, só a tela vazia diante da testa, dos óculos, da ruga de expressão, da cara lavada.

A boa notícia é que eu estava bem acompanhada [e bota bem acompanhada nisto]. Podia recorrer a Drummond e dizer que estava constrangida a exercer a tristíssima profissão de encher linguiça ou então lembrar Vinicius, quando reconheceu que, em certos dias, escrever uma crônica que fosse bem-feita e divertisse os leitores era missão impossível.

Podia descrever o horizonte ou, como Cony, a cara que via no espelho, descer ao bar da esquina e descrever o samba ou então, como João Ubaldo, apelar para uma piada ruim e outra pior ainda. Podia, até, quem sabe, defender a classe evocando uma vez mais o velho Braga, que, até quando parecia estar sem assunto, carregava alguma coisa, que era o peso de sua alma.

E olhem lá que não era pouco.

Carregar o que corre dentro de fato, não é pouco, bem ao contrário, um fardo desajeitado como o do ator em crise existencial que decide contratar uma empresa que extrai a alma dos agoniados. Talvez não fosse também o caso do velho Braga, que alguém já disse escrevia até melhor quando não sabia sobre o que escrever. Certamente não era, do mesmo modo, o meu caso àquela altura do campeonato, só a página em branco e nenhum tema para ocupá-la de modo satisfatório, ou então uns e outros, inconsistentes ainda, à espera de decantação, coar, chacoalhar, peneirar e depois aqui.

simples como as crianças

Eles brincavam alheios às promessas dos novos prefeitos, ao destino dos royalties do petróleo, aos números da inflação, aos acidentes nas estradas federais, ao fim do casamento da atriz da novela, a quase tudo. O fim do mundo previsto, anunciado e garantido no calendário maia também não preocupava, nem as notícias policiais, os bastidores da política ou o novo salário mínimo.

Viviam levinhos como vivem os que estão à espera das descobertas, prontos para aprender o mundo inteiro, afeto, palavra, certeza e dúvida, a matemática do diabo e a química dos corpos, as canções dos Beatles e os livros de Herman Hesse, os filmes de Charles Chaplin e os quadrinhos da Marvel, os encontros que a gente não espera e enchem a vida de sorrisos, os desencontros que a gente igualmente não imagina e fazem exatamente o oposto.

Ainda não sabiam muito da saudade ou do sufoco, da descoberta de um amor novo ou da possibilidade de consertar o antigo. Igualmente desconheciam a amargura do tempo e o medo do futuro, o horror das guerras ou a tragédia que é ter dor de cotovelo.

[Dói do cóccix até o pescoço].

Disto eles sabiam: que rir é tão preciso quanto viver e navegar, tão necessário quanto entender, tão exato quanto as melhores composições. Ou nem sabiam, só riam. Felizmente não tinham – ou se tinham era bem pouco – as bagagens dos dias difíceis, dor de cabeça, excesso de tarefas, ciúme, apego, gangorra, o mês que sobra no fim do dinheiro, estômago, amores, espíritos e música sujeitos aos acréscimos monetários de quem empresta a quem paga, mais ou menos do mesmo modo que a Economia.

Acreditavam, como a garota que perguntava, na imensa possibilidade das perguntas, na capacidade de dançar que elas tinham, desregradas, disponíveis, desimpedidas e ilimitadas. A única urgência que alimentavam era aprender as regras do Uno, o joguinho inventado nos anos 70 por um barbeiro de Ohio que precisava distrair os filhos, vermelho, verde, amarelo e azul, uma frase que não lembro agora e tudo resolvido.

Eram cinco crianças, três, sete, oito, dez e 15 anos, sotaques diversos, endereços distantes, origens diferentes. Em comum tinham alguns parentes, o gosto pela brincadeira, planos para a praia e um bocado de disposição. Pureza também não faltava, nem simplicidade, imaginação e uma capacidade de resolver as coisas que os adultos, muitas vezes, não conseguimos ter e os pequenos, muitíssimo ao contrário, parecem nascer sabendo.

a memória de gabo


Um amigo próximo contou numa entrevista que Gabriel García Márquez está perdendo a memória. Disse que Gabo não fala mais ao telefone porque não reconhece seus interlocutores pela voz, que faz perguntas iguais repetidas vezes e que, quando não sabe com quem conversa, despeja um “o que tem feito?” ou um “quando volta de Paris?”, para tentar reencontrar o rumo e as lembranças que ficaram num lugar que vai saber. Coisas mais antigas, de acordo com o amigo, continuam intactas na cabeça mirabolante do menino pálido, subnutrido e atormentado pelos piolhos que se tornou um dos maiores escritores de seu tempo.

Estão lá – devem estar, como não? – o amor desde a infância até hoje e a velha residência dos avós em Aracataca repleta de mulheres religiosas e de homens que ou estavam indo ou tinham vindo da guerra, o jornalismo e o avô que tirou o neto do mundo feminino de premonições em que vivia e o levou ao mundo masculino da política. Estão lá – devem estar, como não? – a professora esperançosa, a leiteira descrente que disse que aquela criança não vingava e a saga das estirpes condenadas a cem anos de solidão, os personagens e as aventuras que ele viveu, ou vai ver inventou, há 30, 40, 50 anos, frescos como os legumes da feira de quarta à noite, à disposição das conversas, das perguntas e da imaginação.

Gabo criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], de quando, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. [O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo. Todos os anos, pelo mês de março, uma família de ciganos esfarrapados plantava a sua tenda perto da aldeia e, com um grande alvoroço de apitos e tambores, dava a conhecer os novos inventos].

Num autorretrato feito em 1966, contou que se tornou autor por causa da timidez: “Meu nome, senhor, é Gabriel García Márquez. Sinto muito: também não gosto do nome, porque é uma sequência de lugares-comuns cuja conexão nunca fui capaz de fazer. Nasci em Aracataca, Colômbia, há quarenta anos, e ainda não me arrependi. Meu signo é Peixes e minha esposa é Mercedes. Sou escritor por causa da timidez. Minha verdadeira vocação é ser mágico, mas fico tão encabulado tentando fazer os truques que tive de me refugiar na solidão da literatura. As duas atividades me conduziram à única coisa que me interessa desde criança: que meus amigos pudessem me amar mais”.

De lá para cá, talvez um pouco antes, adotou a estratégia de relatar versões diferentes de um mesmo fato para confundir seus ouvintes, flertou com diferentes lados do poder de um continente politicamente instável, alimentou relações quase tão contraditórias quanto seu guarda-roupa barroco. Bebeu óleo de fígado de bacalhau para fugir da tuberculose, comeu o pão que o diabo amassou antes de viver de seus livros, ganhou prêmios e admiradores, perdeu amigos e afetos e agora, segundo consta, simplesmente não lembra mais.

Gabo simplesmente não lembra mais, segundo consta, esqueceu, largou pra trás alguns rostos, algumas palavras, algumas vozes, quem sabe tristezas, quem sabe saudades, uma conversa com o filho mais velho, um encontro, as chegadas, as estadas e as partidas. Quem sabe exatamente qual parte?, se as melhores ou a ideia, defendida por ele mesmo durante tanto tempo, de que a vida não é a que a gente viveu, mas a que a gente recorda, e como recorda, para contar.

as memórias e as músicas

Ele esqueceu quase tudo na vida, menos a música.

Desde meados da década de 1980, por causa de uma infecção no cérebro, o maestro britânico Clive Wearing não consegue lembrar de nada por mais de 30 segundos. Ainda hoje, com 70 e tantos anos, ele desconhece o próprio passado, as brincadeiras da infância, os rompantes da adolescência, os encontros de um pouco depois. Ignora os livros que leu, os filmes que viu e talvez até os morangos com açúcar do café da manhã.

Um minuto depois de ouvir, às vezes menos, deixa para trás as histórias, um bilhete como aquele, um texto como este, as notícias da televisão, a imagem de sua própria casa, quase tudo. Wearing estranha até o piano que tem no quarto há três décadas, mas basta que alguém mostre o instrumento para ele e voilá! Sua habilidade de ler partituras e tocar a peça de Georg Friedrich Haendel que aprendeu quando criança permanece intacta.

– Quando a música para, ele volta a cair no abismo. Não sabe nada do que aconteceu com ele em toda sua vida, diz a esposa, Deborah Wearing, no documentário da televisão, a quem cabe a tarefa diária de mostrar o piano ao maestro, levá-lo de volta ao som que, pelo que entendi, ele sabe sem saber que sabe, lembra sem saber que sim.

O caso intriga a Ciência e estimula a imaginação. Para os cientistas, a resposta pode estar no fato de que as memórias musicais e as outras memórias ficam armazenadas em partes diferentes do cérebro: as primeiras encontram-se no giro temporal superior ou nos lobos frontais, enquanto as últimas instalam-se no lobo temporal médio.

Para o resto de nós, talvez seja de outro modo. A música, como determinadas memórias, embala o cansaço, a saudade, o apego ou então a liberdade, a vontade ou seu oposto, o ciúme ou o total desprendimento. Como determinadas memórias, a música ameniza as faltas, ampara as perdas, incentiva a fé na lei natural dos encontros, na madrugada silenciosa ou então a fé na festa. Vem dela a inspiração de determinadas histórias, a explicação de certos acasos, a felicidade das tardes de sábado, o embalo das faxinas, o começo de alguns diálogos, um livro todo e até declarações de amor.

“E se pensar a gente já queria tudo isso desde o início…”

As memórias, como a música, guardam o verdadeiro valor dos momentos, fazem a gente no dia seguinte entender a importância daquele abraço, no mês seguinte perceber o quanto gostou daquela noite, na estação seguinte assimilar as palavras do último outono. Às vezes incomodam, machucam, mas ainda assim são aquela coisa: viver de novo e com outro olhar a mesmíssima coisa, com outro peso ou sem peso, quando lembra do cheiro de baunilha, da cor, dos detalhes, ou então não lembra e ri do próprio esquecimento.

Vem das memórias, como também da música, o recheio das madrugadas vazias, o ar que a ansiedade às vezes não deixa respirar direito, a certeza de que vai dar certo ou então uma pausa necessária para ver, de perto ou de longe, pela perspectiva certa, ou sua tentativa. Vem delas boa parte do aprendizado dos dias difíceis, esforço, treino, fazer e refazer, tentar e de novo, batalhar pelo objeto do aprendizado, uma língua estrangeira, um cálculo matemático, um prato novo na cozinha, libertar o que a gente ama. Vem delas, das memórias e da música, e depois lembrar de novo, de um jeito ou de outro.

encontros e desencontros

Minha primeira reação foi apertar o passo pra alcançar o sujeito de blusa azul do outro lado do saguão do aeroporto. Era ele? Não nos víamos desde o dia 14 de janeiro de 2001, Cidade do Rock, Rio de Janeiro, pra ser mais exata, cerveja quente e cara, água gelada e igualmente cara, calor dos infernos, alegria, alegria, coro de umas cem mil vozes.

“It’s the end of the world as we know it
 and I feel fine…”
[E agora a banda acabou].

Estávamos mudados: ele e duas argolas na orelha esquerda, eu e os cabelos mais curtos, alguns quilos a menos e uma argola a mais, lápis no olho, a mesma falta de batom de sempre – embora as diferenças de fato fossem outras, e mais sutis. Assistimos ao show, olhamos o céu, sentamos no chão, falamos bobagem, umas poucas lembranças, um abraço polido que nem de longe lembrava a proximidade de um passado definitivamente encerrado.

Depois disso, nunca mais, nem um telefonema, uma mensagem de voz, um torpedo ou coisa que fosse, um “oi, como vão as coisas, saudade de você, arranquei o siso, troquei de carro, terminei de ler O Lobo da Estepe, Beatriz foi para Milão, sabia?, minha irmã roubou o macacão jeans que você gostava, lembra como a gente se divertiu em Porto Alegre?; nada. 

É a vida. Um dia juramos nunca esquecer, escrevemos cartões no dia do aniversário, gravamos uma fita bonita com canções que servem de recado, copiamos um verso mais bonito ainda que encontramos num livro velho. No outro, perdemos o telefone e o tempo fica curto para cartas, e nem sabemos se o endereço mudou e ficamos um pouco tristes.

Mas logo passa, fazemos outros amigos, ganhamos outros amores, anotamos outros números de telefone, escolhemos outros versos, outras canções, gravamos CDs no lugar de fitas e –viva a tecnologia – repassamos poemas que chegaram pela Internet. Só o tempo continua curto, e um tempo depois, com algumas exceções, não sabemos mais daqueles amigos, daqueles amores, daqueles números, daqueles versos, daquelas canções.

Por sorte [será?], os desencontros passam quase sempre despercebidos. Os encontros, num bar, na fila do banco ou no caixa do supermercado, não são muito diferentes, um “você está ótima, leio suas crônicas no jornal”, um “tem notícias da Carolina”, um “beijo grande” pra terminar e só, porque o mundo, exatamente como o Cartola cantou, é mesmo um moinho.

PS. O sujeito de blusa azul do outro lado do saguão do aeroporto? Desisti, sei lá, perdi de vista.