da série leituras

A Quinta História, por Clarice Lispector
Outubro, 1960

Esta história poderia chamar-se “As Estátuas”. Outro nome possível é “O Assassinato”. E também “Como Matar Baratas”. Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, “Como Matar Baratas”, começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. O remédio as atrairia como comida que também era. Morreriam. Assim fiz. Realmente morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se “O Assassinato”. Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só abstratamente me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam a quem era de direito, e escalavam os canos do edifício até nosso lar. Foi na hora de fazer a mistura que elas se individualizaram. Comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa; um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis, ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranquila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Fria, meticulosa, preparava o elixir da longa morte. Mêdo e rancor guiavam-me. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. A receita estava pronta. Tão bem espalhei o pó que nem se via, como para baratas espertas como eu. Horas depois, no silêncio da casa, da cama imaginei-as subindo uma a uma até a área de serviço, onde o escuro dormia – só as camisas alertas no varal. Acordei em sobressalto, era madrugada. E no chão da área lá estavam elas, duras. Durante a noite eu matara. Amanhecia. Um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a das “Estátuas”. Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Até o ponto em que, na madrugada seguinte, acordo. Ainda sonolenta, atravesso a cozinha. Mais sonolenta ainda está a área, na sua perspectiva de ladrilhos. E à luz primeira, num límpido arroxeado que que distancia tudo, vejo no chão sombras e brancuras. Dezenas de estátuas de baratas espalham-se rígidas. Endurecidas de dentro para fora. Testemunho o primeiro alvorecer de Pompéia. Revejo-lhes a última noite, na orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido aos poucos, e, com movimentos cada vez mais penosos, elas ainda tentam fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto. Outras, assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer a intuição de um molde interno que se petrifica — de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da bôca. Uma, azulada, terá sentido: “quem olhar para dentro, vira estátua”. De minha altura de gente olho a derrocada de um mundo. Começa a amanhecer. Uma ou outra antena escura freme sêca à brisa. Da história anterior, canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Até o ponto em que vejo os monumentos de gesso. Mas olho também para os canos, por onde à noite renovar-se-á uma povoação lenta e viva. Teria eu então que renovar tôdas as noites o açúcar letal? – como quem não dorme mais sem o ritmo de um narcóticos. E tôdas as madrugadas levantar-me-ia sonâmbula? – viciada na tortura de procurar no pavilhão as estátuas que minha noite cansada erguia. Senti um mau prazer na visão de uma dupla de feiticeira, e também o aviso do gêsso que seca. E é por isso que hoje, com orgulho da virtude, ostento secretamente no coração uma placa: “Esta casa foi dedetizada”.

A quinta história chama-se “Uma Alma Refeita”. Começa assim: queixei-me de baratas.

da série leituras: a feira

A Feira
Por Rubem Braga

Passa gente vindo da feira. Agora temos uma feira aqui perto de casa. Para mim apenas movimenta a esquina, com tantas empregadas e donas-de-casa carregadas de sacos e cestas de frutas, verduras e legumes. Ao poeta Drummond, que mora mais além, a feira deve incomodar, porque os grandes caminhões roncam sob a sua janela, e o vozerio dos mercadores e fregueses perturba o seu sono matinal.

O que não tem a menor importância: na atual situação do mundo é bom que os poetas estejam vigilantes. Quanto aos cronistas, que eles durmam em paz; é melhor que se recolham e se esqueçam de fazer a crônica destes dias, em que não há nenhum exemplo nem lição. O poeta é mais adequado para ouvir as exclamações patéticas [“os tomates estão pela hora da morte”] e tomar o pulso dos fatos concretos da mercancia local. Além disso deve subir até a sua janela a fragrância das verduras e de todas essas coisas nascidas na terra, ainda frescas e vivas, coloridas. É bom que ele veja as quinquilharias ingênuas, as ervas misteriosas, as pequenas inúteis e preciosas coisas do mar e do sertão, os cavalos-marinhos e as sementes escuras. Só ele poderá entender as coisas de barro e de palha, a glória dos tomates, o espanto de pedra no olho dos peixes eviscerados, e o constrangimento amarelo desses abacaxis sem sabor que amadurecem no meio do inverno.

Passa um homem careca, sério; deve um velho funcionário, e tem o ar de quem discute muito nas feiras, capaz de citar o preço dos pepinos em 1921 e de lamentar, como prova de decadência espiritual do Ocidente, o atual tamanho das bananas. Sim, eram maiores as bananas de antanho. A acreditar nele as bananas-da-terra dos tempos coloniais mediam toesas. Em todo caso, não parece ir muito triste; carrega dois sacos verdes e de um deles sai o pedaço de uma abóbora. Gosta de abóboras, o birbante.

“Não, senhora; só em doce, assim mesmo misturado com doce de coco” – respondeu aquele menino àquela dramática pergunta de sua velha tia sobre se gostava de abóbora. Essa resposta foi, na época, muito comentada como grave prova de insolência e talvez desagregação moral. Não era. Era uma prova de tolerância, boa vontade, anseio de compreensão; porque a vida é terrível é que o menino não gostava mesmo de abóbora e achava que o único defeito do doce de coco era conter, às vezes, por costume de família, um pouco de abóbora. Estava, entretanto, disposto a superar as próprias convicções em benefício do bem-estar geral. Tinha pudor de que pensassem que ele odiava abóbora; era uma criança no fundo delicada, embora tenha resultado em um homem com freqüência estúpido.

A feira, não sei por quê, me leva a essas divagações infantis; vagueio com suave emoção entre cebolas de brilho metálico e couves e alfaces líricas.

Há uma grata surpresa. A mais bela, esquiva e elegante senhora da rua está pessoalmente na feira. Veio sem pintura, um vestido leve, sandálias coloridas. Demoro-me em ver sua pele, seus cabelos, seus olhos, sobre um fundo de couves e beterrabas. Sua pele tem uma frescura vegetal. Suas mãos finas seguram os legumes com um experiente carinho. Quando vai para casa, um menino conduz suas compras. Ela, porém, fez questão de levar nas mãos, como sinal de alegria e de simplicidade, uma grande couve-flor.

biblioteca básica emocional

Há alguns anos fiz um trato comigo e, desde então, só quando termino de ler um livro ganho de mim mesma o direito de comprar outro. Os objetivos são cinco: contribuir para o equilíbrio do mundo, serenar a ansiedade da vida, aplacar o excesso das estantes, suavizar a poeira da casa e, feitas as contas finais, reduzir as cifras do cartão de crédito. Ao mesmo tempo, antes que recomece a temporada das chuvas, passo os olhos pelas prateleiras para reiterar minhas devoções ou – justo o oposto – descartar autores, volumes e ideias que simplesmente não cabem mais.

A sensação é das melhores e a escolha [que maravilha!], menos e menos difícil a cada vez.

Se o autor daquele texto sobre livros, desapego, obsessões e a vida errante de Walter Benjamin em 1931 tem razão, e acho que de fato tem, em cada título de uma biblioteca particular existem uma cidade e um momento – e provavelmente também muitos afetos. O velho exemplar de O Lobo da Estepe, por exemplo, remete a uns 15 anos atrás, Vitória, vento, lagoa, tardes infinitas como o nome do programa do rádio, o mundo inteiro pretensiosamente à espera de descoberta enquanto Harry Haller desperdiçava as horas com sua maneira arredia de ser.

[Ele havia aprendido quase tudo que pessoas de bom entendimento podiam aprender, menos estar contente com a própria vida.]

As Crônicas Parisienses de Rubem Braga, ao contrário, são agorinha mesmo, exatos cem anos depois do nascimento do homem que evitava ouvir tangos porque acreditava que um tango, a certa altura, podia ser fatal. Vejo Londres na biografia amarga de Charles Chaplin, cinza e implacavelmente necessária, Londres e a loucura, Londres e o riso, Londres e a revolução. Vejo a Cidade Alta, e não a Colômbia, no ir e vir do caralho que Florentino Ariza e Fermina Daza protagonizam durante cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites.

Vejo o Ensaio Sobre a Cegueira e penso naquele dia em que eu tinha o sol na cara e a alegria de estar na estrada como se não houvesse mais nada além de ir, e era como se o escritor de terno, gravata e olhos distantes estivesse certo quando determinou que o Brasil é uma república federativa cheia de árvores e pessoas dizendo adeus. Vejo, um pouco mais além, O Retrato do Artista Quando Jovem e outra viagem, de quando voltar voltou a ser bom, ponte, escada, praça, parede, quarto, estante, os discos displicentes à espera das madrugadas, as madrugadas em si e os silêncios que a gente exalta, abraça, investe, porque são, de fato, ótimos investimentos.

Deles não tem desapego que me faça abrir mão, nem deles nem de Drummond, Hemingway, Clarice, Carmélia e Carlinhos Oliveira, As Palavras e as Coisas, A Insustentável Leveza do Ser, os manuais do bom jornalismo, os latinos, as respostas das questões mais fundas ou então a dança das perguntas. Dos outros, pode ser, quem sabe, exatamente como aquele texto sobre livros, desapego, obsessões e a vida errante de Walter Benjamin inspira: olhar para dentro, pensar nos projetos de hoje e nos de logo mais, diminuir a pilha de livros à espera das traças, cuidar bem dos que ficam, rever lembranças, histórias e a própria vida, guardar o que vale e o resto adeus.

pequeno brinde a rubem braga

Rubem Braga dizia que somos todos contrabandistas de nós mesmos, carregando dentro do porão da existência coisas que nem sabíamos que havia. Seu espanto, explicava, era que diante de tantos loucos ainda tivesse no mundo gente capaz de ser mais ou menos normal e viver dentro de certas regras, beijando as mãos das damas sem mordê-las e deixando um automóvel passar sem jogar pedras.

Para livrar-nos de todo mal amém, ou pelo menos de parte dele, uma das saídas do mestre da capital secreta do mundo apontava para a psicanálise, redescobrir toda a tragédia grega na alma de qualquer funcionário público, cutucar polvos e arraias enterrados na lama ou entocados nas pedras, entender a “consciência do que cada um de nós tem lá por dentro daquela porção de cordinhas e alçapões, e então seguir.

As outras saídas eram duas: a confissão dos crentes e a conversa na mesa de bar. A primeira, ele escreveu, tem a vantagem da fé, mas o natural recato impede maior profundidade. A segunda guarda as mentiras produzidas pela imaginação e pelo álcool, mas a poesia [que às vezes é só desconcerto] das confissões inesperadas, a moça antes recatada que pelo terceiro drinque desfila detalhes íntimos de seu último caso ou então aquelas, lembra?, de quando se quer saber das coisas e seus propósitos, da arte da fuga, da beleza do balanço, do gosto pelo sereno que o mundo é pequeno para segurar.

De modo menos sistemático que no confessionário e quase sempre mais em conta que na psicanálise, na mesa de bar a gente se encanta pela ginga, pelo olhar, pelo abraço, pelas possibilidades imensas que têm os começos das boas histórias, ouve os outros e, enquanto ouve, descobre mais sobre a gente mesmo, os princípios, a fé ou sua falta, os planos e o quanto precisa do braço, do cheiro e de café.

Na mesa de bar, a gente descobre e redescobre afetos, compartilha ideias, novidades e memórias, mastiga os livros, as faltas e os fatos, conhece ou reconhece os outros e fala da vida, fala incansavelmente. Às vezes não, mas muitas delas, ali, as coisas parecem se encaixar, riso, leveza, desprendimento, conversa em dia, piada nova, ou então as velhas, gim com água tônica, a lista das melhores canções, o filme da semana anterior, suavidade, aquilo tudo que devia ser o tempo inteiro.

Entre um jazz, um roquezinho e um samba, a gente vive com alegria, poesia e às vezes melancolia, numa combinação que purifica o sangue, ameniza as dores e alimenta o coração. Até os interesses ficam um pouco melhores, e agora são outra vez as palavras de Rubem Braga, 100 anos neste sábado, confissão, fé, profundidade, imaginação, poesia, confissão, beleza, alma, balanço, arte, tudo e um brinde:

– Ora, o que a gente ouve no quinto copo pode ser interessante se achamos algum interesse na própria pessoa que conta. Caso contrário, fica apenas a melancolia da triste condição humana, das experiências do amor, dos desencontros físicos e sentimentais, das incompreensões e dos fracassos.

acima de tudo pairava o divino lombo de porco

Almoço Mineiro
Por Rubem Braga, setembro de 1934

Éramos dezesseis, incluindo quatro automóveis, uma charrete, três diplomatas, dois jornalistas, um capitão-tenente da Marinha, um tenente-coronel da Força Pública, um empresário do cassino, um prefeito, uma senhora loura e três morenas, dois oficiais de gabinete, uma criança de colo e outra de fita cor-de-rosa que se fazia acompanhar de uma boneca. Falamos de vários assuntos inconfessáveis. Depois de alguns minutos de debates ficou assentado que Poços de Caldas é uma linda cidade. Também se deliberou, depois de ouvidos vários oradores, que estava um dia muito bonito. A palestra foi decaindo então, para assuntos muitos escabrosos: discutiu-se até política. Depois que uma senhora paulista e outra carioca trocaram idéias a respeito do separatismo, um cavalheiro ergueu um brinde ao Brasil. Logo se levantaram outros, que, infelizmente, não nos foi possível anotar, em vista de estarmos situados na extremidade da mesa. Pelo entusiasmo reinante supomos que foram brindados o soldado desconhecido, as tardes de outono, as flores dos vergéis, os proletários armênios e as pessoas presentes. O certo é que um preto fazia funcionar a sua harmônica, ou talvez a sua concertina, com bastante sentimento. Seu Nhonhô cantou ao violão com a pureza e a operosidade inerentes a um velho funcionário municipal.

Mas nós todos sentíamos, no fundo do coração, que nada tinha importância, nem a Força Pública, nem o violão de seu Nhonhô, nem mesmo as águas sulfurosas. Acima de tudo pairava o divino lombo de porco com tutu de feijão. O lombo era macio e tão suave que todos imaginamos que o seu primitivo dono devia ser um porco extremamente gentil, expoente da mais fina flor da espiritualidade suína. O tutu era um tutu honesto, forte, poderoso, saudável. É inútil dizer qualquer coisa a respeito dos torresmos. Eram torresmos trigueiros como a doce amada de Salomão, alguns louros, outros mulatos. Uns estavam molinhos, quase simples gordura. Outros eram duros e enroscados, com dois ou três fios.

Havia arroz sem colorau, couve e pão. Sobre a toalha havia também copos cheios de vinho ou de água mineral, sorrisos, manchas de sol e a frescura do vento que sussurrava nas árvores. E no fim de tudo houve fotografias. É possível que nesse intervalo tenhamos esquecido uma encantadora lingüiça de porco e talvez um pouco de farofa. Que importa? O lombo era o essencial, e a sua essência era sublime. Por fora era escuro, com tons de ouro. A faca penetrava nele tão docemente como a alma de uma virgem pura entra no céu. A polpa se abria, levemente enfibrada, muito branquinha, desse branco leitoso e doce que têm certas nuvens às quatro e meia da tarde, na primavera. O gosto era de um salgado distante e de uma ternura quase musical. Era um gosto indefinível e puríssimo, como se o lombo fosse lombinho da orelha de um anjo ouro. Os torresmos davam uma nota marítima, salgados e excitantes da saliva. O tutu tinha o sabor que deve ter, para uma criança que fosse gourmet de todas as terras, a terra virgem recolhida muito longe do solo, sob um prado cheio de flores, terra com um perfume vegetal diluído mas uniforme. E do prato inteiro, onde havia um ameno jogo de cores cuja nota mais viva era o verde molhado da couve — do prato inteiro, que fumegava suavemente, subia para a nossa alma um encanto abençoado de coisas simples e boas. Era o encanto de Minas.

o difícil e o fácil

Reverência ao Destino
Por Carlos Drummond de Andrade

Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá. Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias. Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado. Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação. Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer. Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado. Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende. E é assim que perdemos pessoas especiais. Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar. Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar. Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil. Fácil é dizer oi ou como vai? Difícil é dizer adeus, principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas. Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados. Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa. Fácil é querer ser amado. Difícil é amar completamente só. Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca. Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas. Fácil é ditar regras. Difícil é seguí-las. Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros. Fácil é perguntar o que deseja saber. Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta. Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade. Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria. Fácil é dar um beijo. Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida. Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro. Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica. Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado. Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por um sonho. Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.

clarice, as preces e os cães

Clarice Lispector, como se sabe, não era exatamente uma pessoa doce, nem a leveza era o seu forte. Mas reza a lenda que um dia ela se virou para um cachorro um pouco neurótico que comia cigarros às vezes ainda acesos, tomava uísque e adorava Coca Cola e declarou:

– Que inveja eu tenho de você, Ulisses, porque você só fica sendo.

O vira-lata havia chegado à casa dos Valente quando os dois filhos da escritora – que, como se sabe, não era exatamente uma pessoa alegre, nem a simplicidade era o seu forte – já estavam crescidos. Sua desobediência crônica, seu gosto pelo malte e pela cafeína e os hábitos de engolir as bitucas dos convidados e deixar sua marca no tapete da sala ficaram famosos em livros e em entrevistas.

Em uma delas, Clarice explicou, daquele jeito dela de explicar, entre triste e distante, arrumou o cão porque precisava amar uma criatura viva que lhe fizesse companhia. “Ulisses é um mestiço, o que garante uma vida mais longa e uma inteligência maior. É um cachorro muito especial”, afirmou, na ocasião. Já em uma de suas histórias infantis, o narrador era um cachorro de nome Ulisses que se orgulhava de “não obedecer sempre, gostar de fazer o que quer e fazer xixi na sala de Clarice”.

Ulisses era, segundo consta e apesar das desobediências, uma boa companhia para a complicada Clarice. Cachorros, afinal, são menos complexos que gente, bem capazes, portanto, de ficar apenas sendo, obedecer sem vaidade, seguir sem orgulho, respirar repetidas vezes, viver daquele modo levinho de que são feitos as tortas que escapam da receita, determinados encontros, os sábados de sol e as tardes de domingo.

Cachorros parecem saber, profundamente, mesmo que não pensem, a lição do livro açucarado de duas primaveras atrás, segundo o qual não há nenhum problema no mundo que não possa ser curado com um banho quente, um copo de uísque – será que é por isso que dizem que o uísque é o cão engarrafado? – e um livro de preces.

[Amém].

Clarice, como se sabe, não era exatamente uma pessoa centrada, nem o otimismo era o seu forte. Um dia escreveu a um amigo: “As pessoas daqui me olham como se eu tivessse vindo direto do Jardim Zoológico. Concordo inteiramente”. Ao marido contou que queria ouvir bobagens que a fizessem esquecer a ruindade do mundo.

Para uma irmã, confessou que achava o mundo todo ligeiramente chato e para outra ironizou: “Conheci várias pessoas simpáticas. Muitas esnobíssimas, de feitio duro e impiedoso, embora sem jamais fazer maldades. Eu acho graça em ouvi-las falar de nobrezas e aristocracias e de me ver sentada no meio delas, com o ar gentil e delicado. Nunca ouvi tanta bobagem séria e irremediável. Gente cheia de certezas e de julgamentos, de vida vazia e entupida de prazeres sociais e delicadezas. É evidente que é preciso conhecer a verdadeira pessoa embaixo disso. Por mais protetora dos animais que eu seja, a tarefa é difícil”.

Com Ulisses, ao que parece, a convivência era mais fácil. Cachorros, afinal, são mais simples e quase sempre mais dispostos a absorver o amor dos outros sem esperar grandes recompensas, brincar sem pressa, atender uma dezena de vezes a mesma ordem, levar a vida que Deus manda sem pergunta nem decepção. Cachorros, nos dias que que o mundo complica, fazem a Clarice estar coberta de razão quando se virou para um bicho um pouco neurótico que comia cigarros às vezes ainda acesos, tomava uísque e adorava Coca Cola e declarou:

– Que inveja eu tenho de você, Ulisses, porque você só fica sendo.

da série leituras

A Entrevista e a Moça
Bernadette Lyra

A moça se espanta quando eu digo que gosto de gente. Sim. Eu gosto de gente. Não posso negar. Talvez eu esteja diante de uma idiota ou de otimista sem cura – é o que penso que moça pensa. Talvez. Mas a moça é educada. Se ela pensa, só pensa, não fala.

A moça está me entrevistando para uma revista. Fica olhando para mim com aqueles olhos cor de camurça e inteligentes, redondos de incredulidade. Como eu posso dizer que gosto de gente neste mundo tão cheio de maldade e ilusão? – penso que a moça pensa. E me dá vontade de explicar que Dorival Caymmi compôs essa música, “Saudades da Bahia”, em uma tarde do verão de 1947, sentado em um bar do Leblon, enquanto as melancolias o atacavam, como atacam todo e qualquer baiano que se vê fora de Salvador. Pelo menos é o que dizem os entendidos.

Bem, eu gosto de gente que não se chateia à toa e nem chateia a gente – eu falo para acalmar o espanto da moça e desfazer o clima. Sobretudo, gosto de gente que ri. Gente bem humorada. Gente que se assume com todas suas falhas, seus erros e acertos. Gente que expõe sem temor ou frescuras diante dos outros. Gente que beija e abraça, que acarinha, que expressa seus sentimentos.

Não gosto de gente que se acha, nem de gente muito séria que acredita que tudo que faz é importante e anda de cara feia para impor respeito, como se o ato de rir fosse uma coisa imbecil e merecedor da fogueira.

Em seu último livro “Os Filhos dos Dias”, Eduardo Galeano escreve que vivemos em um mundo inseguro. Muitos políticos e governantes se esmeram em criar um clima de histeria coletiva que os meios de comunicação reproduzem. Temos medo. Medo das pessoas, Esse senhor ou essa senhora que andam por aí, a teu lado, podem te enganar, roubar, sequestrar ou matar. A paranoia está a serviço de gente que destina metade de seus recursos a guerras e a matança de outras criaturas – lamenta o escritor.. Talvez seja essa a tal maldade e ilusão a que aquela mãe já se referia, na música de Caymmi, acima citada.

Sem dúvida é difícil vencer o medo que nos é enfiado pela goela abaixo. Principalmente quando vemos a violência diária exposta nos jornais, na internet, nos canais de televisão E verdade, também, que há horas em que é impossível deixar a seriedade de lado. Há momentos especiais, em que é preciso se compenetrar. Por exemplo, diante da dor de uma perda ou de uma separação. Mas, mesmo nesses momentos, tem quem julgue indecoroso gritar, chorar ou se exprimir sem comedimentos. Ora, por que não? A impassibilidade e a frieza não são provas de respeitabilidade.

A vida é uma brincadeira. A vida é um jogo. A vida é um carro na contramão. São frases feitas, são metáforas de efeito. Eu sei. Porém, são muito melhores de que as sem gracezas bem comportadas de um tipo de gente que só sabe se levar a sério!

Na verdade – eu digo para a moça que me entrevista – a vida corre muito depressa. Mais depressa que aquele coelho branco de Alice, que Lewis Carroll criou. Quando menos se espera, pluft! A vida se vai como uma pluma carregada no vento. E só quem tem consciência de que a vida é assim, uma coisinha tão frágil, tão preciosa e tão plena de fantasias, é capaz de chorar e se descabelar quando a tristeza ou o desespero roem como um rato que rói o coração. E é capaz de rir de si mesmo, quando diz uma bobagem ou tropeça em uma pedra.

É desse tipo de gente que eu gosto – falo.

A moça olha para mim com seus olhos cor de outono. Finalmente parece que ela me entende. Então saímos nós duas. E vamos tomar um café.

do instante que passa

“[…] Me sinto bem aqui em cima, inclusive, para esquecer os puristas da língua pátria e não ligar para a maldita ordem em que devem ser colocados os pronomes. Que se danem os mestres. Muito mais importante que as regras gramaticais é a maneira pela qual a gente consegue, nesta deliciosa desordem, misturar as palavras e fazer da última flor do Lácio inculta e bela um meio gostoso de se comunicar. Me sinto, portanto, capaz de fazer tremer até o Eça de Queiroz, mas eu vou colocar os meus pronomes onde bem quiser.

E tem mais: aqui eu sou livre para rir ou chorar; para lembrar ou esquecer; para sentir saudades de ontem e, ao mesmo tempo, construir os mais belos planos para o dia de amanhã. Livre para desenhar o rosto do meu amor, apesar de não saber desenhar, porque já não corro o risco de ver você chegar aqui de repente e se botar cinicamente a rir do meu sentimento e de mim. 

É verdade que o tempo tem sido curto. Mas também não tenho sentido a menor vontade de sair. Tenho ficado em casa todas as noites; há dias não vou ao encontro da corja. Ontem mesmo houve pessoas muito queridas que estiveram por aqui. Queriam saber de mim, como é que me vou arranjando. Vou me arranjando bem, graças a Deus. E, para que eu esteja melhor, é preciso que essas pessoas voltem sempre, pois aos amigos eu confiei uma parte de minha felicidade preguiçosa, que às vezes gosta de cochilar. É importante, então, que vocês não a deixem dormir, que estejam perto, vigiando todos os dias, cada vez mais íntimos, mais amigos, mais irmãos. Dispostos ao momento da amizade, das mãos dadas, das coisas do coração.

É pensamento que me vem, enquanto fico procurando por vocês, em cada um destes objetos que constituem uma parte da minha vida, da minha vida que vocês valorizaram, e que acabei de acomodar entre as paredes desta casa: livros, jornais, revistas, algumas roupas, muitos sapatos, uma máquina de escrever, um berimbau que guardou ternura de tantas noites e poeira das estrelas que morreram no céu, para nunca mais. Um radiozinho que se recusa a falar. Alguns discos que variam de Bach a Aznavour, um coelhinho azul e tímido, uma cobrinha chamada Mildred, que tem medo de temporal […].”

Mais uma Crônica do Instante que Passa
Carmélia Maria de Souza, 1967