da série leituras

AS CIDADES E OS SÍMBOLOS
Por Italo Calvino

aspasQuem viaja sem saber o que esperar da cidade que encontrará ao final do caminho, pergunta-se como será o palácio real, a caserna, o moinho, o teatro, o bazar. Em cada cidade do império, os edifícios são diferentes e dispostos de maneiras diversas: mas, assim que o estrangeiro chega à cidade desconhecida e lança o olhar em meio às cúpulas de pagode e claraboias e celeiros, seguindo o traçado de canais hortos depósitos de lixo, distingue quais são os palácios do príncipes, quais são os templos dos grandes sacerdotes, a taberna, a prisão, a zona. Assim – dizem alguns – confirma-se a hipótese de que cada pessoa tem em mente uma cidade feita exclusivamente de diferenças, uma cidade sem figuras e sem forma, preenchida pelas cidades particulares.

Não é o que acontece em Zoé. Em todos os pontos da cidade, alternadamente, pode-se dormir, fabricar ferramentas, cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se, reinar, vender, consultar oráculos. Qualquer teto em forma de pirâmide pode abrigar tanto o lazareto dos leprosos quanto as termas das odaliscas. O viajante anda de um lado para o outro e enche-se de dúvidas: incapaz de distinguir os pontos da cidade, os pontos que ele conserva distintos na mente se confundem. Chega-se à seguinte conclusão: a existência em todos os momentos é uma única, a cidade de Zoé é o lugar da existência indivisível. Mas então qual é o motivo da cidade? Qual é a linha que separa a parte de dentro da de fora, o estampido das rodas do uivo dos lobos?

da série leituras

BEM NO FUNDO
Por Paulo Leminski

aspasNo fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

leminski e o sentido da vida

Conversávamos sobre o sentido da vida, a pureza, a angústia, a injustiça do mundo e o modo como cada um de nós encarou, nos últimos anos, a busca por qualquer coisa que explicasse todo o resto. Meu amigo era quase sempre um filósofo e, às vezes, como naquela noite em que o mundo e nós parecíamos não estar com pressa, apelava para a Física, a Metafísica ou a Política. Quando não havia mais nada, invocou Paulo Leminski.

“Haverá um dia
Em que tudo o que eu disser
Será poesia”

Ao contrário de mim, ele alimentava esperanças na procura, achava a própria busca em si um sentido, via nas interrogações e nas inquietudes um projeto capaz de dar significado ao que, à primeira vista, parecia sem lógica. Eu de minha parte achava que não era possível ser de todo feliz sem antes entender os propósitos do mundo, o egoísmo alheio, as razões da dor que talvez seja um pouco de todo mundo, o tempo e suas transformações.

Ele argumentava que não, que havia sentido até na falta de sentido, que o despropósito da guerra, o desatino do trânsito e o destempero do amor se explicavam pelo simples fato de que não se explicavam, e que era de certo modo bonito ver um sujeito abatido por angústia crônica. Leminski, de novo, socorria aquela conversa que ia pela madrugada, porque como sempre era o tempo por trás de tudo, o mesmo tempo que andava faltando naquele final de inverno, que às vezes dói, noutras vezes conserta, que tem dias que ri, mas em outros desgasta, que machuca, cicatriza ou que vai, apenas.

“Um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto”

Era tempo, experiência, bola, sânscrito, pedra, vizinha, porrada, passo, endereço, assunto, amor e presença, era poesia, divagação e Existencialismo, era o filósofo que dizia que o homem estava sozinho no mundo, forçado, por um lado, a ter consciência de sua solidão e do vazio e absurdo da existência e, por outro, livre para se definir a si mesmo, para se reinventar todo o tempo.

Falta ler os existencialistas, eu pensava, com uma ponta de preguiça, porque a pilha dos não lidos não parava de crescer, porque havia capítulos intocados e páginas atrasadas e mensagens à espera de resposta, porque quase sempre os intelectuais aborrecidos me cansam antes da hora – e não é que às vezes é bom ter três ou quatro interrogações?

Meu amigo concordaria, acho, apesar da paciência dele com os intelectuais aborrecidos – lê, pensa senta, conversa, bebe junto, com toda a dedicação do mundo. A dedicação, aliás, é o que importa, ele diz. Diz que para encontrar o sentido da vida é preciso procurar com todo o popozão. Diz popozão quando quer dizer coração, fazendo graça, e eu digo Leminski de novo, desta vez no meu verso favorito, que há quem diga que tem toda a lógica do mundo [e que eu acho que tem mesmo].

“Acordei bemol
Tudo estava sustenido
Sol fazia
Só não fazia sentido”

da série leituras

BEM-VINDA AO PLANETA
Por Eugenio Mussak

“Porque o que dá a verdadeira dimensão de um lugar,
seja uma casa, uma cidade ou um planeta, não é o quanto
que ele é grande, mas o quanto que ele é justo”.

aspasOlá, Mia, seja bem-vinda. Olha, como você está chegando agora à Terra, vinda de uma galáxia distante, permita-me apresentar-lhe um pouco nosso planetinha, onde, eu sei, você pretende passar um longo tempo, e espero que assim seja, e que você fique por aqui até o século XXII. Olha, nós não somos um planeta muito grande não, principalmente quando comparados às dimensões do Universo. Somos o quinto planeta em tamanho, girando ao redor de uma estrela de quinta grandeza, que chamamos Sol. Pois é, somos um planeta pequeno, imagine então cada pessoa que vive aqui como é diminuta, apesar de haver gente que se acha maior que o planeta. Você vai conhecer uns assim.

Mas isso não deve nos deixar mal, sabe por que? Porque o que dá a verdadeira dimensão de um lugar, seja uma casa, uma cidade ou um planeta, não é o quanto que ele é grande, mas o quanto que ele é justo. E, nesse particular, preciso te explicar que aqui você vai encontrar muita gente sendo injusta com outras pessoas e com a Natureza, mas vai encontrar também, felizmente, uma quantidade ainda maior de pessoas querendo só o bem, sempre agindo de maneira correta e justa. Em vários momentos você terá que se posicionar, escolher seu lado. Mas estou certo que você vai fazer as escolhas certas. E vai ajudar este planetinha a ficar maior, no sentido que mais interessa.

Sabe, ainda outro dia eu conversei com umas pessoas muito jovens, e fiquei preocupado com o pensamento delas. Disseram que não queriam trazer ninguém novo a este nosso planeta, porque aqui há mais sofrimento que alegria, e eles não queriam ser responsáveis por ninguém, só por eles mesmos. E eu fiquei refletindo se essa não era uma posição, digamos, conformista. Afinal, todos sabemos que não há lugares perfeitos, e que as dificuldades são naturais, e mais, são até boas, porque nos ajudam a crescer à medida que as enfrentamos e as resolvemos.

Quando disseram que neste mundo tem muita gente fazendo coisas ruins, como guerra, preconceito, segregação e injustiça, eu perguntei se eles faziam essas coisas. Eles disseram que não, que eles eram ‘do bem’. “Então” – perguntei –, “Gente ‘do bem’ não traz gente ‘do bem’?”. E eles ficaram só me olhando, e pensando.

Olha, tem muita gente legal trazendo mais gente legal e este planetinha está ficando melhor, acredite. Atualmente temos menos fome, violência, sofrimento e injustiça do que antes. Só que agora todos ficamos sabendo de tudo isso, porque temos algo que antes não existia: informação. E esses avanços ocorreram porque muita gente boa já passou por aqui, e milhões de outras continuam trabalhando para deixar este mundo melhor todos os dias. Os que remam em contrário são bem menos, bote fé nisso. Só que eles fazem muito barulho. Por isso precisamos aumentar o número daqueles que puxam a corda da vida para o lado certo. Você veio para ajudar, por isso repito, seja muito bem-vinda. Tua vida vai fazer sentido porque você vai deixar este planeta melhor, puxando a corda para o lado bom.

Aquelas pessoas disseram também que às vezes não viam sentido na vida, e quando eu perguntei se eles não achavam que a vida, em si mesma era um sentido, eles não concordaram, e me chamaram de romântico. No fundo achei bom ser chamado de romântico…

Aliás, encontrar um sentido para a vida sempre foi a grande preocupação dos habitantes deste planeta, chamados de humanos. Por isso criamos algumas áreas do entendimento que têm, em sua origem, a finalidade de nos explicar qual o sentido da vida, essa grande incógnita. Essas áreas são quatro. Uma chama-se filosofia, que procura olhar a vida através reflexão e da razão. Outra é a religião que utiliza como ferramenta a fé e a esperança para explicar nossa existência. E ainda temos a ciência, que se baseia na suspeita e na pesquisa para criar teorias que explicam as coisas. E, por fim, existe a arte, que vai pelo caminho da sensibilidade para nos fazer viver melhor. Qual delas tem razão? Ora, todas. Uma complementa a outra.

Para que você entenda melhor, deixa eu te falar de quatro pessoas importantes que viveram antes, algumas há muito tempo. Primeiro um grego conhecido por Ari, cujo nome certo era Aristóteles. Ela era filósofo. Um dos maiores. Em uma carta que ele escreveu para seu filho, disse que a finalidade da vida é procurar o bem. Que não importa o que façamos, qual seja nosso trabalho, sempre temos que ter em vista fazer o bem aos demais. E que esta seria a maneira de nós fazermos bem a nós mesmos, pois estamos todos unidos, nesta vida.

O outro é Albert, um alemão mais conhecido pelo sobrenome, Einstein, um grande cientista. Foi ele quem disse que tudo é relativo, e que a imaginação é mais importante que o conhecimento. Mas também foi ele quem disse que a luz que as pessoas devem usar para iluminar seu caminho deve vir da bondade, da verdade e da beleza. Legal, ele, não é mesmo? Queria colocar suas equações a serviço da vida. Quero te contar também sobre o Buonarroti Simoni, um italiano que entrou para a história com seu primeiro nome, Michelangelo. Ele foi um escultor genial e um pintor maravilhoso. Um artista completo. Pois uma vez ele disse que sua missão era libertar a vida de onde ela estava aprisionada. Quando olhava para um bloco de mármore, por exemplo, dizia que ali estava uma escultura extremamente bela, e que a ele cabia apenas retirar os excessos. E era o que fazia. Ele também deixou este mundo melhor. Está entendendo agora o que é ter sentido na vida?

Por último, quero te contar de um judeu chamado Jesus, que é conhecido por Cristo, que não é seu sobrenome, mas uma espécie de título, de alguém que é portador da verdade, um messias, por assim dizer. Ele viveu o tempo todo falando com as pessoas, e sabe qual era a mensagem dele, minha querida? Era só uma: que cada pessoa deveria amar as outras pessoas, mesmo que elas acreditem em outras coisas, tenham outros hábitos e a cor de suas peles seja de tons diferentes, pois, no fundo, somos todos irmãos. Ele insistia na força do amor, esse sentimento que tem um poder incalculável de transformar o homem e o planeta inteiro. Sim, este planetinha chamado Terra poderia ser um lugar muito melhor se essa ideia fosse aplicada para valer. Sabe por que? Porque amar o semelhante significa conviver, respeitar, compreender, cuidar, perdoar. Não é tudo de bom?

Pois é. Eu não sou filósofo, nem cientista, nem artista, e muito menos um homem santo. Mas sou um curioso. Sabe o que é ser curioso? É reconhecer que sabe pouco, sempre busca aprender, e quanto mais aprende mais se dá conta como ainda tem coisas para aprender neste pequeno planeta cheio de mistérios. Espero que você seja muito curiosa também. Curiosa e transgressora, que é o único jeito de fazer a diferença por aqui.

E olha, trate de viver cada momento intensamente, pois a vida é feita exatamente desses pequenos pedaços de tempo que passam muito rápido e, se não formos curiosos e espertos, eles fogem de nós. Estude bastante, mas não deixe de ir às festas. Visite museus e vá ao cinema, aprenda a resolver equações com duas incógnitas e a surfar ondas de dois metros. Coma salada e tome sorvete. Seja amiga de seus pais, dos professores, de seus coleguinhas e dos cachorros e de outros bichinhos. Eles darão alegria à sua vida.

Aproveite cada um desses momentos para aprender algo novo, imaginar outras possibilidades, fazer coisas úteis e, acima de tudo, amar muito. O mundo ama quem ama o mundo. Viva sempre apaixonada. Talvez você não tenha se dado conta ainda, mas você está aqui a convite do amor. Aliás, você é o resultado de um ato de amor.

Por tudo isso, Mia (aliás, que nome lindo você tem: Mia. Objetivo e cheio de personalidade), você é muito bem-vinda, e espero que você seja capaz de se maravilhar a cada dia com cada beleza deste planeta e se indignar com cada injustiça. E que use sua força, que é imensa, para deixar nosso mundo ainda mais bonito e cada vez mais justo. E conte comigo, até porque eu estou contando com você. Ah, esqueci de me apresentar, desculpe. Cabeça a minha… Meu nome é Eugenio, sou seu avô, e você acabou de nascer.

Eugenio Mussak escreveu esta carta na Revista Vida Simples de fevereiro de 2014, para sua neta que acabava de nascer.
http://eugeniomussak.com.br

da série leituras

RECADO DE PRIMAVERA
Por Rubem Braga, setembro de 1980

aspasMeu caro Vinicius de Moraes

Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera — acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris.

O sinal mais humilde da chegada da Primavera vi aqui junto de minha varanda. Um tico-tico com uma folhinha seca de capim no bico. Ele está fazendo ninho numa touceira de samambaia, debaixo da pitangueira. Pouco depois vi que se aproximava, muito matreiro, um pássaro-preto, desses que chamam de chopim. Não trazia nada no bico; vinha apenas fiscalizar, saber se o outro já havia arrumado o ninho para ele pôr seus ovos.

Isto é uma história tão antiga que parece que só podia acontecer lá no fundo da roça, talvez no tempo do Império. Pois está acontecendo aqui em Ipanema, em minha casa, poeta. Acontecendo como a Primavera. Estive em Blumenau, onde há moitas de azaléias e manacás em flor; e em cada mocinha loira, uma esperança de Vera Fischer. Agora vou ao Maranhão, reino de Ferreira Gullar, cuja poesia você tanto amava, e que fez 50 anos. O tempo vai passando, poeta. Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui — a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.

da série leituras

E AMANHÃ É DOMINGO
Por Clarice Lispector

aspasSegunda-feira é […] sempre a tentativa do começo de vida nova. Façamos cada domingo de noite um réveillon modesto, pois se meia-noite de domingo não é começo de Ano Novo, é começo de semana nova, o que significa fazer planos e fabricar sonhos.

Meus planos se resumem, para esta semana nova, em arrumar finalmente meus papéis, já que a governanta eu não vou ter mesmo. Quanto aos sonhos desculpem, guardo-os para mim, como vocês guardam, com o olhar pensativo, de quem tem direito, os próprios.

autorretrato à moda de Gabo

Meu nome, senhoras e senhoras, é Ana Laura Nahas. Houve um tempo em que as cinco letras do meio incomodavam; hoje gosto. A escolha foi das minhas irmãs, inspiradas na canção de João de Barro que minha mãe cantava para embalar o sono delas e que ainda quero tatuar perto do cóccix. Nasci em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, há trinta e sete anos, e ainda não me arrependi. Meu signo é Aquário e meu marido inventa palavras. Estudei jornalismo, vivo em paz entre papéis e cresci ouvindo música brasileira de todo o tipo, a agulha do toca disco chiando enquanto eu existia ou brincava no quarto, e graças às conjunções permitidas por estas atividades tenho sido capaz de sobreviver escrevendo.

Minha verdadeira vocação é ser cozinheira, mas fico tão encabulada quando dizem que o quibe, a cafta, a pasta de grão de bico e a berinjela que fazemos na cozinha de casa são melhores que os dos restaurantes que achei melhor me refugiar na solidão da literatura. Tenho tido de me submeter a uma disciplina atroz para terminar meia página depois de duas horas de trabalho. Exatamente como Gabo, só que com resultado infinitamente menos arrebatador, luto fisicamente com cada palavra e é quase sempre a palavra que vence, mas sou tão dedicada que tenho este blog, uma coluna quinzenal e consegui publicar dois livros em quatros anos. O terceiro, que escrevo agora, progride mais devagar que os outros, porque, entre as tarefas do dia e as minhas dores de cabeça, tenho pouco tempo livre.

Falo sobre literatura talvez mais do que devia, porque palavras, frases e parágrafos me movem de modo mais agradável do que o excesso de exibicionismo destes tempos de tanto blá-blá-blá e tão pouca essência. Ao contrário de Gabo, não estou convencida de que o mundo seria o mesmo sem os livros. Por outro lado, acredito, como ele, que as coisas seriam diferentes sem a polícia. Apesar disto, terrorismo – sinto muito – não é comigo.

Escrevi este autorretrato à moda de Gabo três dias depois de sua morte, às vésperas de um feriado santo, aos 87 anos. A inspiração é este texto aqui, dele, de 1966. Quando soube da sua morte, foi como se tivesse perdido um parente próximo, um vô querido, um vizinho gentil, um professor remoto. O hábito de ler seus livros foi desde sempre uma lição e tanto, cada capítulo, cada entrevista rara, cada discurso, a maneira como ele acrescentava pessoas vivas aos mortos que atormentavam sua imaginação. Com seus modos de colombiano errante e nostálgico, Gabriel García Márquez criou o começo de livro mais perfeito do mundo [pelo menos do meu], de quando, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo; e até os peixes do quarto em que costumo escrever têm um pouco dele: Aureliano, Arcádio, Amaranta, Rebeca e – meu ligeiro favorito, que também se foi recentemente – o Telescópio Melquíades.

da série #leituras

Frank Sinatra, segurando um copo de bourbon numa mão e um cigarro na outra, estava num canto escuro do balcão entre duas loiras atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir alguma palavra dele. Mas ele não dizia nada; passara boa parte da noite calado; só que agora, naquele clube particular em Beverly Hills, parecia ainda mais distante, fitando, através da fumaça e da meia-luz, um largo salão depois do balcão, onde dezenas de jovens casais se espremiam em volta de pequenas mesas ou dançavam no meio da pista ao som trepidante do folk­rock que vinha do estéreo. As duas loiras sabiam, como também sabiam os quatro amigos de Sinatra que estavam por perto, que não era uma boa idéia forçar uma conversa com ele quando ele mergulhava num silêncio soturno, uma disposição nada rara em Sinatra naquela primeira semana de novembro, um mês antes de seu quinquagésimo aniversário.

Sinatra estava fazendo um filme que agora o aborrecia e não via a hora de terminá-lo; estava cansado de toda a falação da imprensa sobre seu namoro com Mia Farrow, então com vinte anos, que aliás não deu as caras naquela noite; ele estava furioso com um documentário da rede de televisão CBS sobre a vida dele, que iria ao ar dentro de duas semanas e que, segundo se dizia, invadia a sua privacidade e chegava a especular sobre suas ligações com os chefes da máfia; estava preocupado com sua atuação num especial da NBC intitulado Sinatra – um Homem e sua Música, no qual ele teria de cantar dezoito canções com uma voz que, naquela ocasião, poucas noites antes do início das gravações, estava debilitada, dolorida e insegura. Sinatra estava doente. Padecia de uma doença tão comum que a maioria das pessoas a consideram banal. Mas quando acontece com Sinatra, ela o mergulha num estado de angústia, de profunda depressão, pânico e até fúria. Frank Sinatra está resfriado.

Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível – só que pior. Porque um resfriado com um despoja Sinatra de uma jóia que não dá para pôr no seguro – a voz dele – , mina as bases de sua confiança, e afeta não apenas seu estado psicológico, mas parece provocar também uma espécie de contaminação psicossomática que alcança dezenas de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, gostam dele, pessoas cujo bem-estar e estabilidade dependem dele. Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento e mais além, da mesma forma que a súbita doença de um presidente dos Estados Unidos pode abalar a economia do país. […] Agora, naquele bar em Bervely Hills, Sinatra estava resfriado, e continuava bebendo em silêncio, parecendo estar a quilômetros de distância, num mundo só dele, sem demonstrar reação nenhuma, nem mesmo quando, de repente, o estéreo do outro lado do salão passou a tocar In the Wee Small Hours of the Morning.

Gay Talese, Frank Sinatra está Resfriado
Abril de 1966

da série leituras: hélas, luis fernando verissimo

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Deus criou o Céu e a Terra e o Dia e a Noite, e deu nome às plantas, aos bichos e às coisas. Mas também era preciso dar nome aos sentimentos e às emoções, a perplexidades e a situações inusitadas e, sentindo-se despreparado para a tarefa, Deus criou os franceses.

Os franceses têm a expressão certa para tudo, inclusive para o inexprimível, que eles chamam de “je ne sait quoi”. O francês é a única língua do mundo com uma definição para a incapacidade de definir. Eles não apenas têm um nome para “fazer beicinho”, “bouder” como inventaram uma peça da casa que teoricamente existe só para a mulher se recolher enquanto o faz, o “boudoir”. Outra expressão francesa que não ocorreria a mais ninguém é “esprit d’escalier”, ou o espírito que só se faz presente quando a gente já está descendo a escada, depois de falhar na hora de ser brilhante. Se não fossem os franceses, não saberíamos como chamar a sensação de que a boa frase ou a resposta arrasadora geralmente só nos vêm quando não adianta mais. Na escada ou, mais recentemente, no elevador.

Outra boa frase francesa era “epater les bourgeois”. Caiu em desuso, em primeiro lugar, porque todas as frases prontas francesas foram ficando antigas num mundo cada vez mais americano, mas também porque foi ficando cada vez mais difícil espantar a burguesia. Depois da revolução sexual e do escancaramento da privacidade, nada mais espanta ninguém e o que antes chocava hoje vira moda.

O que ainda funciona – tanto que, no Brasil, se transformou num gênero jornalístico – é “epater la gauche”, contrariar o pensamento convencionalmente progressista, ou apenas correto, com reacionarismo explícito. Os “epateurs” da esquerda podem ser divertidos, mas como em todo “succès d’escandale” (que remédio, sou um antigo) nunca se sabe se o sucesso se deve ao talento para escandalizar ou se o escândalo dispensa o talento, e basta ser contra para aparecer. De qualquer maneira, “hélas”, aos poucos as frases feitas francesas vão perdendo a atualidade e – ça va sans dire – a utilidade.

Hélas, Luis Fernando Verissimo
Outubro de 2013

cem anos de solidão

De repente reapareceu aquele livro. Um sujeito que conheci no avião contou que havia acabado de reler “Cem Anos de Solidão”, repetindo aos 40 o ritual dos 20 e dos 30, o de voltar a Macondo a cada dez anos, imagino que para redescobrir as coisas por diferentes óticas do tempo, vê-las de outro modo, primeiro com angústia, depois com pretensão e aí sim com certa – mesmo que ainda não definitiva – serenidade. Dois dias depois, o exemplar azul com ilustrações simpáticas que comprei há séculos no Centro caiu, literalmente, da estante do quarto.

Eu tinha mais o que fazer, era verdade; tinha armários por arrumar, compras por comprar, poeira por tirar, ressaca por curar, o urgente, o importante e o imprescindível separados pelos post-its em cor e ordem de importância, três amarelos, um verde e o outro alaranjado como o sol dos desenhos de criança. Tinha “Ensaio sobre a Lucidez” [empréstimo], “Na Pior em Paris e Londres” [presente], “200 Crônicas Escolhidas” [escolha], uma biografia de Ernesto Che Guevara [não sei] e o projeto prometido [obrigação] na pilha dos não lidos, as revistas do mês, o sono atrasado e aquela saudade antiga que não doía muito mais, só que também não sossegava.

Mas tinha também certa e reverência a livros que caem da estante, apesar dos post-its, das urgências e das importâncias, do sono e de todo o atraso. Então obedeci, e comecei a reler o livro que li pela primeira vez quando fazia pré-vestibular, e outras duas quando já estudava Jornalismo, no auge da descoberta do meu amor pelas palavras, pelas perguntas mal respondidas e pela ideia fixa e nem sempre bem-sucedida de que palavras, perguntas e ideias podem mudar o mundo.

A cada uma das vezes foi um livro diferente, embora fosse sempre a mesma a saga do Coronel Aureliano Buendía, que muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e, para mencioná-las, era preciso apontar com o dedo, e a cada página, eu pensava em Rebeca, Amaranta, Úrsula e Fernanda e no menino nascido com rabo de porco, nos Josés Arcádios, nos Arcádios e nos outros Aurelianos, que agora podiam ser eu, você, qualquer um; pensava na dor das estirpes condenadas a cem anos de solidão e no fato, no fundo consumado como a canção, de que elas não tinham uma segunda chance sobre a Terra.