da série #leituras: livro dos começos

aspasO começo não passa de interrupção de algo que já vinha ocorrendo, mas que ainda não tinha recebido nome. As coisas estão em permanente processo até que alguém apareça e nomeie um ponto das coisas como começo. Assim, o começo pode até ser chamado de fim, em nome de uma fúria nomeadora.

Mais do que nomear, designar um começo é localizar algo no tempo e condená-lo à temporalidade, já que o começo é um elemento da tríade composta de passado, presente e futuro. O que agora é começo em muito ou pouco tempo já será passado. Porém, se não nomearmos nada, se não interrompermos as coisas para chamá-las de começo, elas simplesmente continuarão, sem jamais se darem conta de suas partes ou de sua localização no tempo e no espaço e então não estaremos condenados ao meio e ao fim, pois nenhum deles o será. É como cortar algo que passa, represar a correnteza e desviá-la de seu curso para estabelecer um curso que se disfarça de novo, quando é somente uma violação do que já existia.

Começar é o sintoma mais forte do desejo de novidade, já que todo começo contém a energia do novo, a que poucos resistem. Logo depois, o novo se desgasta, vira passado e surgem outros começos, outras interrupções do que já vinha acontecendo para que aquela energia se refaça. Não se respeita a energia da inércia, essa sim mais genuína; uma força que se arrasta sozinha e que se mantém até que sua carga se esgote. É preciso agarrar a inércia, enxertar-lhe forma e significado, até que ela se recomponha e se transforme em começo. Dessa maneira o acontecimento se enfileira, como um soldado a postos, para dar sequência às coisas que de agora em diante se abaterão sobre ele. Ele agora faz parte de uma perspectiva, de um projeto, e terá que se postar obedientemente, para depois ser substituído pelo meio e pelo fim. Ele já avista ao longe, preparando-se, os batedores do meio, que se encaminham para o seu lugar e já lhe lançam olhares temerários.

Que o começo não se estenda demais, eles parecem dizer. Que ele não venha com caprichos, retardando o momento da entrada. Que não os atrase, eles dizem. E o começo, que antes vinha embalado, inconsciente de si, no fluxo das coisas, conforma-se cabisbaixo a sua nova condição e aceita seu destino.

Trecho do Livro dos Começos, de Noemi Jaffe

da série leituras: não mexam no cabelo dele

NÃO MEXAM NO CABELO DELE
Uma carta ao presidente dos Estados Unidos escrita por três fãs diante da convocação do cantor Elvis Presley para servir ao Exército norte-americano na Segunda Guerra Mundial

Noxon, Mont, 1958

aspas Prezado presidente Eisenhower,

Minhas amigas e eu estamos escrevendo de Montana, nós achamos que já é ruim o suficiente mandar Elvis Presley para o Exército, mas se cortarem as costeletas dele nós simplesmente vamos morrer! O senhor não sabe o que sentimos por ele, eu realmente não entendo por que o senhor tinha de mandá-lo para o Exército, mas nos imploramos, por favor, por favor, não corte o cabelo dele como o dos outros recrutas, ah, por favor, por favor! Se fizer isso nós vamos morrer!

Adoradoras de Elvis Presley
Linda Kelly
Sherry Bane
Mickie Mattson

Presley
Presley
ESSE É O NOSSO GRITO
P-R-E-S-L-E-Y

da série leituras

DÊ CORDA NO RELÓGIO
Uma carta do escritor E.B. White a um homem que queria saber sua opinião sobre o que considerava um futuro sombrio para a humanidade
North Brooklin, Maine, 30 de março de 1973

aspas Caro sr. Nadeau:

Enquanto houver um homem íntegro, enquanto houver uma mulher compassiva, o contágio pode se alastrar e a perspectiva não é desoladora. Esperança é o que nos resta em tempos difíceis. Vou me levantar no domingo de manhã e dar corda no relógio, contribuindo para a ordem e a estabilidade.

Os marinheiros têm uma expressão para definir o tempo: dizem que o tempo é um grande blefista. Acho que isso também é verdade em relação à nossa sociedade – tudo parece sombrio, e então as nuvens se abrem, e tudo muda, às vezes de repente. É óbvio que a humanidade transformou num caos a vida neste planeta. Mas, como povo, provavelmente trazemos em nós sementes do bem que desde muito esperam pelas condições adequadas para brotar. A curiosidade, a inflexibilidade, a inventividade, a engenhosidade do homem o levaram a sérias dificuldades. Só podemos esperar que o ajudem a sair delas.

Segure o chapéu. Agarre-se à esperança. E dê corda no relógio, pois amanhã é outro dia.

Cordialmente,
E.B. White

da série leituras

NOTAS SOBRE A BANDA
Carlos Drummond de Andrade, Correio da Manhã, 14 de outubro de 1966

aspasO jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.
A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.

A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.

Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.

Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro… todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.

da série leituras

TEXTOS DO CARIBE
Gabriel García Márquez

aspasA madrugada – em seu sentido poético – é uma hora quase lendária para nossa geração. Tínhamos ouvido nossos avós dizer coisas fantásticas daquele esquecido pedaço de tempo. Seis horas construídas  com uma arquitetura diferente, talhadas na mesma substância das histórias. Falavam-nos do bafo quente dos gerânios inflamados sob um balcão por onde o amor subia até o sono dos jovens. Disseram-nos que antes, quando a madrugada era verdade, ouvia-se no pátio o rumor que se desprendia do açúcar quando subia às laranjas. E o grilo, o grilo exato, invariável, que desafina seus violinos para que coubesse em seu ar a rosa musical da serenata. Nada disto encontramos  no desolado patrimônio dos nossos antepassados. Nós já recebemos o nosso tempo desprovido desses elementos que faziam da vida uma jornada poética. Entregaram-nos um mundo mecânico, artificial, no qual a técnica inaugura uma nova política de vida. O toque de recolher é – nesta ordem das coisas – o símbolo de uma decadência. Há uma grande distância histórica entre esta clarinada proibida e a voz amável do guarda-noturno colonial. […] Com este mundo materializado, onde os peixes têm que abrir água aos submarinos, com esta civilização de pólvora e clarins, como podem nos pedir que sejamos homens de boa vontade?

da série leituras

POÉTICA
Manuel Bandeira

aspasEstou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação

da série leituras

DO QUE EU FALO QUANDO EU FALO DE CORRIDA
Por Haruki Murakami

aspas[…] muita gente parece compartilhar a opinião de que escrever é uma atividade insalubre, de que os romancistas são de certa forma uns degenerados que precisam levar uma vida desregrada a fim de escrever. Há uma visão amplamente difundida de que adotando um estilo de vida não salutar o escritor consegue se despir do mundo profano e atingir um tipo de pureza que tenha valor artístico. A ideia tomou forma durante um longo tempo. O cinema e a tevê perpetuaram essa figura estereotipada — ou, para encarar de um modo positivo, mítica — do artista.

Basicamente eu concordo com a opinião de que escrever romances seja um estilo de vida pouco saudável. Quando paramos para escrever um romance, quando usamos a escrita para criar uma história, queiramos ou não, um tipo de toxina que jaz nas profundezas de toda a humanidade sobe à superfície. Todo escritor precisa ficar cara a cara com essa toxina e, consciente do perigo envolvido, descobrir um jeito de lidar com ela, pois de outro modo nenhuma atividade criativa no sentido real pode ter lugar. Encare com toda positividade que quiser, mas, definitivamente, não é saudável.

Então, antes de tudo, a atividade artística compreende elementos insalubres e antissociais. Admito. É por isso que entre escritores e outros artistas há muitos cuja vida real é decadente ou que fingem ser antissociais. Posso aceitar isso. Ou melhor, não necessariamente negar o fenômeno. Mas aqueles dentre nós que alimentam a esperança de ter uma longa carreira como escritores profissionais precisam desenvolver um sistema autoimune próprio, capaz de resistir à toxina perigosa que reside dentro de nós. Fazendo isso, podemos dispor eficientemente de toxinas ainda mais fortes. Em outras palavras, podemos criar narrativas ainda mais poderosas para lidar com elas.

Mas é preciso um bocado de energia para criar um sistema imune e mantê-lo funcionando por um longo período. Você precisa encontrar essa energia em algum lugar, e onde mais encontrá-la senão em nosso ser físico mais básico?

Como suspeito que seja o caso com muita gente que vive da escrita, enquanto escrevo penso em todo tipo de coisa. Não necessariamente ponho no papel o que estou pensando; é só que, enquanto escrevo, penso sobre as coisas. Enquanto escrevo, ordeno meus pensamentos. E reescrever e revisar conduz meus pensamentos por caminhos ainda mais profundos. Por mais que escreva, contudo, nunca chego a uma conclusão. E por mais que eu reescreva, nunca atinjo um destino. Mesmo após décadas escrevendo, a mesma coisa permanece verdadeira. Tudo que faço é apresentar umas poucas hipóteses ou parafrasear o assunto. Ou encontrar uma analogia entre a estrutura do problema e alguma outra coisa.