dance me to the end of love

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cinco canções

Era tarde, e até alguns dias antes ainda doía o vazio daquele ponto final.

Ouve, fecha os olhos, meu amor. É noite ainda, que silêncio. E nós dois na tristeza de depois. A contemplar o grande céu do adeus. Ah, não existe paz quando o adeus existe. E é tão triste o nosso amor. Vem comigo, em silêncio. Vem olhar esta noite amanhecer. Iluminar os nossos passos tão sozinhos, todos os caminhos, todos os carinhos. Vem raiando a madrugada…

Tinha decidido ficar quieta com seu vazio até que fosse possível sair de um círculo sem saída e chegar a um lugar sem tantas mágoas. Mas aquele sorriso inesperado atrapalhava os seus propósitos, fazia querer arriscar de novo, de outro jeito, um outro amor, quem sabe. Então ouvia no rádio de pilha a canção que embalava a alegria repentina, tom maior, era provável.

Porque eu sou tímido e teve um negócio de você perguntar o meu signo quando não havia signo nenhum. Escorpião, Sagitário, não sei que lá. Ficou um papo de otário, um papo, ia sendo bom. É tão difícil, tão simples, é tão difícil, tão fácil. De repente ser uma coisa tão grande da maior importância…

Ele dizia que não acreditava nem em Deus, menos ainda em horóscopo, mas ela insistiu em perguntar. Era importante, mesmo que não parecesse, mesmo que a bebida tivesse passado da conta, mesmo que sentisse vergonha das manias de adolescente [e falar de horóscopo era indiscutivelmente mania de adolescente], mesmo que a razão, a toda hora, dissesse sai daí, menina.

Assim, de repente.

Sabia, gosto de você chegar assim. Arrancando páginas dentro de mim, desde o primeiro dia. Sabia, me apagando filmes geniais, rebobinando o século, meus velhos carnavais, minha melancolia. Sabia, que você ia trazer seus instrumentos, invadir minha cabeça. Onde um dia tocava uma orquestra. Pra companhia dançar. Sabia, que ia acontecer você, um dia, e claro que já não me valeria nada tudo o que eu sabia. Um dia…

Era humana, repetia o tempo inteiro para si mesma, e o que torna humanos os humanos, por mais contraditório que pareça, é às vezes perder a razão. Perto dele, perdia, desviava o olhar, e queria dizer mil coisas, mas conseguia ficar apenas no que era superficial, e tentava ser simpática no minuto seguinte, e falava alto, pondo vírgulas antes do e, e o vestido sambando um pouco na parte de trás, e ela rindo feito boba quando ele passava.

Ando tanto tempo a perguntar. porque esperar tanto assim de alguém. Percorrendo espaços no mesmo lugar. Não sei a quanto tempo estou a te buscar. Num segundo eu vou sabendo e percebendo o seu sabor. Sem ter medo estou correndo contra o vento sem nenhum rancor.

Aumentou o som e ficou ali, abraçando a almofada com cara de sol.

Vamos fugir deste lugar, baby. Vamos fugir. Tô cansado de esperar. que você me carregue. Vamos fugir pra outro lugar, baby. Vamos fugir. Pra onde quer que você vá. Que você me carregue. Vamos fugir pra onde haja um tobogã, onde a gente escorregue. Todo dia de manhã, flores que a gente regue…

As cinco canções, pela ordem:
1. Canção do Amanhecer, Edu Lobo
2. Da Maior Importância, Caetano Veloso
3. Lola, Chico Buarque
4. Tanto Tempo, Bebel Gilberto
5. Vamos Fugir, Gilberto Gil

as melhores noites

Às vezes elas começam de quando menos se espera, um acaso no supermercado, um pedido sem compromisso, um dia de folga em que não há nada além de estar, nem relógio nem telefone nem obrigação, nada além do encontro que faz rir, da rede na varanda, dos discos e das panelas; nada. Às vezes é o contrário e elas se anunciam deliciosas desde o primeiro minuto, tudo planejado, marcado e combinado desde o início, como as linhas do romance que o professor de jornalismo usava como exemplo dos começos perfeitos:

– Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

As melhores noites têm as melhores companhias, nem que seja a gente mesmo, livro, música, as plantas à espera de poda, rega e um dedo de conversa, liberdade, lembrança, faxina, pizza e depois chocolate, ou então os amigos que chegam, uns depois os outros, pratos e copos à mesa, conversa pra mais de metro e de vez em quando as 35 doses de rum destinadas às ocasiões mais especiais da vida.

Às vezes elas são como as melhores chegadas, que fazem dançar a dança dos dias felizes e às vezes madrugadas, tronco leve, sorriso escancarado, disposição para a graça de qualquer coisa, a qualquer hora, brilho no olho e um efeito semelhante ao funk do balanço que tira qualquer um da fossa.

Às vezes é o contrário, e elas se postam quietinhas no sofá, diante da TV, silenciosas e brancas como a bruma do soneto, de repente e não mais, como se o mundo estivesse inteiro livre do barulho, do trânsito e das seca-pimenteiras, como se a gente fosse eficiente o bastante, inteligente o tempo todo e sereno o suficiente para não estragar as coisas nas temporadas em que devia apenas agradecer. As melhores noites têm o melhor cheiro, a melhor textura. São macias como parecem ser as nuvens, e de um perfume suave como aquele que fica no travesseiro.

As melhores noites têm a melhor cor, azul amarelo vermelho verde preto e a soma de todos os tons a serviço dos afetos, da vontade e da simplicidade, ama, come, conversa, repete, diz as palavras inventadas, ama de novo, conversa mais, repete, conta dos planos para o ano novo, ama de novo, conversa mais, repete. Às vezes elas são como a nostalgia dos dias da infância, levinhas e açucaradas, a foto que registrou a gente pedalando no sol como se o mundo inteiro coubesse num sol, vestido listrado e chinelinhos tamanho 20, aquela nostalgia.

Às vezes é o contrário, e elas se mostram impróprias para menores, velozes, quase delirantes, um pouco irresponsáveis, vodca ou vinho, rock ou samba, sozinho ou acompanhado, na rua ou em casa, publicável ou nem e de herança, na manhã seguinte, a cabeça dói, o estômago dói, até as batatas da perna em determinadas ocasiões doem, mas o coração agradece. Às vezes elas simplesmente são, e terminam com a canção perfeita para uma noite perfeita, sem explicação ou exigência, sem peso ou provocação, no volume certo, no compasso certo, no tempo certo.

Sim, tudo agora está no seu lugar
O Universo até parece conspirar pra que não seja em vão
Tanto tempo esperando esse amor…

As melhores noites têm as melhores trilhas sonoras.