a história e as histórias

Que histórias você vivia enquanto faziam a História?

Primeiro li a pergunta provocadora num texto de jornal. Depois vi “Bobby”, filme que inspirou pergunta e texto e que reconta o assassinato do senador Robert Kennedy, em 1968, a partir das histórias individuais de uma telefonista solitária, uma cantora alcoólatra e decadente que inferniza a vida do marido, um ingênuo ajudante de cozinha que sonha com o beisebol, um casal que tenta reconstruir seus pedaços, uma jovem que se casa com um quase desconhecido para salvá-lo do Vietnã, um moço idealista, um velho nostálgico, uma mulher traída.

Que histórias você vivia enquanto faziam a História?

No dia 11 de setembro de 2001, lá pelas dez e pouco da manhã, eu conversava sobre o amor e o futuro quando uma colega do jornal telefonou avisando que tinham explodido as Torres Gêmeas. A distância e de uma maneira meio torta, vivi a História no meio da história, a do mundo no meio da minha, terrorismo e café da manhã, Bin Laden e os conhecidos que estavam em Nova York, bombeiros nos escombros e lista de filmes-catástrofe para a edição extra, tudo ao mesmo tempo, àquela hora.

Em 2007, nos últimos dias de julho, eu regava e podava a minha árvore da felicidade quando Fidel Castro anunciou que, depois de 47 anos no poder, deixaria o governo de Cuba nas mãos do irmão para se tratar de um câncer no intestino. Em maio de 2003, enquanto o Comandante viajava para a Argentina para assistir à posse do colega Néstor Kirchner, eu via aquela Cuba de perto, mojitos, charutos, Tu Cola, utopias e contradições.

Em 24 de março de 1991, quando Ayrton Senna deu sete voltas na pista molhada sem tirar da sexta marcha e ganhou o trágico Grande Prêmio do Brasil, eu estava na casa da minha irmã olhando a corrida na TV. Ainda havia alguma graça em ver a Fórmula 1 aos domingos, Riccardo Patrese, Gerhard Berger e Alain Prost ainda corriam, Nelson Piquet ainda tinha carteira de habilitação e minha sobrinha, antes da nossa comemoração histérica, ainda dormia incansavelmente como dormem incansavelmente os bebês de três meses. Quando Senna morreu, assistimos outra vez pela televisão; desta vez era minha outra irmã quem chorava.

Lula virou presidente no dia 6 de outubro de 2002, alimentando a esperança de anos e anos e anos; eu vesti a camisa vermelha e saí por aí, em festa, sem a menor ideia da desilusão que viria depois, das crises políticas, das crises aéreas, das crises existenciais, todas. Não lembro o que fazia quando houve o Tsunami e o Katrina, mas sei que passava férias em Londres quando o PCC promoveu aquela onda de ataques em São Paulo. Lá, por causa das experiências deles com o terrorismo, não há lixeiras nas ruas, para que não haja lugares públicos para bombas privadas.

Que histórias você vivia enquanto faziam a História?

O autor do texto de jornal e da pergunta provocadora ia sair com o melhor amigo em Milão quando soube que haviam matado o outro Kennedy, John, em novembro de 1963, em Dallas, Texas, por volta do meio-dia de uma sexta-feira; no começo de abril de 1968, quando a vítima foi Martin Luther King, conhecia os sogros; em fins de agosto, quando os tanques soviéticos ocuparam Praga, estava num barzinho no porto de Panarea, na Sicília.

Meu amigo estava na sala do avô quando o Muro de Berlim caiu, fazia redação na escola quando Kurt Cobain resolveu que não queria mais viver, voltava para casa de carona com a mãe de um colega quando ouviu Smells Like Teen Spirit no rádio pela primeira vez. Era 1991, mas ele lembra como se fosse ontem:

– Ela me deixou umas duas quadras antes da minha casa, onde hoje tem um prédio gigante e na época era uma casa e um cachorro quente no térreo. Eu saí do carro, parei na calçada e não andei e fiquei pensado, absolutamente transtornado: ‘De que planeta veio isso?’. Depois, fui pra casa cantando aquele refrão grudento.

antonia

antonia-filme Antonia é uma mulher prática, como devíamos ser todos, homens e mulheres. Sabe, por exemplo, a hora exata da própria morte. Decide e diz, sem meias palavras, o que no momento parece realmente preciso, certamente verdadeiro, supostamente urgente ou indiscutivelmente necessário. Escolhe voltar quando acha que chegou a hora, por menos bem-vinda que sinta ser [e de fato seja], e acolhe aqueles que como ela acabaram excluídos pelas convenções e pela hipocrisia: a adolescente que sofre abusos sexuais, o homem um pouco demente, o filósofo atormentado pelas marcas da guerra, a filha gay, o padre herege.

As estátuas em volta de Antonia mexem, as árvores sentem, as crianças sabem tudo o que se precisa saber. Na vida dela, alegrias e perdas se alternam, como na minha, na sua, na de quase todo mundo: faz malabares num dia e no outro mal consegue se equilibrar sobre as pernas, compra o limite inteiro do cartão de crédito num dia e no outro vende o almoço para pagar o jantar, festeja o sol, as plantas e os afetos num dia e no outro parece que tudo ficou cinza, murcho, vazio, como naqueles dias em que chove dentro da gente.

Antonia sabe o que reza o samba, que primeiro a gente nasce, depois floresce e um dia morre. Na vida dela, chegadas e partidas se alternam, como na minha, na sua, na de quase todo mundo, que cai num dia e no outro levanta, acorda com enxaqueca num dia e no outro sonha com todas as vértebras postas nos devidos lugares, o cabelo arrumado, as unhas feitas e lindos e longuíssimos cílios postiços que não precisam de retoque.

O nome do filme de 1995 já diz: Antonia é excêntrica e sua família, mais ainda. As escolhas dela desafiam o tempo, exatamente como naquela noite em que as palavras determinaram o caminho – consciente e irreversível como de certa maneira são algumas noites e boa parte das palavras. Seu mundo, quase fantástico, é feito de espíritos atormentados e demônios, mas também de afetos e comunhões, de olhares, esperança, dedicação, da dança divertidamente desajeitada que parece um pouco com a dança da própria vida.

Em “A Excêntrica Família de Antonia”, o tempo diminui a dor e embaça a memória, exatamente como nos anos que passam, um depois do outro, despedida e chegada, amor e decepção, conquista e perda, ferida e cicatriz, chove e enxuga, pensa e sente, diz, desdiz e depois desmente, porque o sentido de uma hora é a confusão da outra, a certeza de uma hora é o mistério da outra, o afeto de uma hora é a indiferença de depois.

Mesmo que às vezes pareça e ao contrário do que diz um dos personagens do filme, citando o pensador Arthur Schopenhauer, o mundo não é um inferno habitado por espíritos atormentados e demônios. Tem, é verdade, seus espíritos atormentados e seus demônios, mas tem também a canção e um olhar que transmite um amor que não cabe no corpo, tem esperança e a vontade de deixar o passado para trás, tem cor e um abraço que faz todo o resto parecer pequeno, tem a dança que dançamos conforme a música divina e as disritmias, bonitas como elas só.

shrek e as escolhas da vida

Então o efeito borboleta, a teoria de um matemático especializado em meteorologia que garante que um único minuto pode mudar o rumo das coisas todas, caiu como uma bomba na existência do pobre Shrek.

O ogro do filme, agora em crise de meia-idade cansado dos filhos barulhentos, dos entupimentos sanitários e das visitas inconvenientes, resolve trocar um dia de sua vida por 24 horas de sossego, manhã, dia, noite e madrugada como nos velhos tempos, trocar um dia de sua vida pela sedutora possibilidade de voltar atrás e viver tudo de novo, só que de um jeito diferente.

Acontece que as coisas não saem conforme o esperado, desejado e planejado (alguém aí já viu este filme?) e, no quarto episódio da série (a verdade é que perdeu um pouco da graça), Shrek se vê diante do pior negócio da história. Pelo acordo que fez com um mágico malvado, quando acabar o período de sossego e liberdade, não vai haver mais o amor de Fiona nem bebês fofinhos, burro falante, gato de botas ou banhos de lama (eca), não vai haver estabilidade nem chão, afeto ou memória, amigos ou casa, não vai haver mais nada, Carpenters ou Beastie Boys, magia, afeto ou encontro, nada.

Escolhas – a gente sabe – têm causa e consequência, estômago, amores, caminhos, espíritos e encontros condicionados um pouco ao acaso e outro à matemática, um pouco à prudência e outro à permanência, um pouco ao improviso e outro ao ensaio, num sistema mais ou menos descontrolado de impulso e efeito que a Física não sabe o motivo.

Porque a Física (foi um físico quem disse, um físico meio poeta) pode provar com experiências as leis da natureza, mas não consegue explicar o porquê das coisas, seus propósitos, as razões de elas acontecerem e os resultados que trazem, de justo e de injusto, de límpido e de escuro, de alegre e de triste, de bonito e de feio, disto e daquilo, de inesquecível ou nem.

Shrek descobre que a sedutora possibilidade de voltar atrás e viver tudo de novo de um jeito diferente abre uma fenda esquisita para o ruim e o turvo, para o descaso e o sombrio, para o pior tipo de solidão, feita da distância que a gente não queria que houvesse e se atrapalha quando vai dizer. É uma distância amarga, indigesta, que nem toda a música do mundo resolve (só ameniza), um jazz, um blues, um roquezinho e um samba sobre o infinito postos um depois do outro para embalar as faltas com nome e sobrenome.

(Silêncio, por favor).

Escolhas – a gente sabe – têm causa e consequência, verdade, comédia, miopia, diálogos e madrugadas condicionados um pouco ao momento e outro à história, um pouco à solidez e outro ao movimento, um pouco à intimidade e outro ao desconhecido, num sistema mais ou menos descontrolado de realização e resultado que a Física eu não sei se explica, mas o cinema conhece, desde 1946, pelo menos.

Lá, naquele ano e naquele filme, George Bailey ensinou, em sua falsa simplicidade, sobre a ganância (e sobre não se deixar escravizar pela posse), sobre o amor (e sobre não deixá-lo escapar porque o futuro dá medo) e, dentro do possível, sobre seguir em frente.

(Texto publicado em A GAZETA neste sábado)

um filme, o futebol e as esperanças

Tenho lembrado muitos nestes dias – motivos óbvios – de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, um filme que é um pouco sobre futebol e um pouco (talvez muito) sobre a esperança, virtude que dizem (eu acredito) que dá o dom de suportar o mundo.

O menino do filme espera, numa comunidade de judeus que mal conhece, a volta dos pais, e de cara sabemos que eles, perseguidos pela ditadura, talvez não voltem. Mas ele se agarra aos sonhos, quer vencer no jogo de botão, brinca de ser goleiro, espia a vizinha por um buraco na parede, vibra com os jogos do Brasil na Copa do México, exibe aquela ingenuidade comovente dos que ainda não descobriram o quanto o mundo às vezes é injusto.

Seus 12 anos de vida, no entanto, se reduzem a zero diante dos outros. Ninguém entre os novos vizinhos (eles mesmos personagens de uma história de perseguições e exílios) sabe direito do menino, de seu sabor favorito de sorvete, a que remédios tem alergia, se guarda um diário escondido na gaveta, se já pensa no amor, se quer ser médico, advogado ou jornalista, se gosta de roupas de algodão ou sandália de dedo, quais os brinquedos que deixou em casa e quais queria ganhar no próximo Natal.

Sua história (re)começa ali, e felizmente é cedo pra que ele se dê conta, como o bom e velho Gramsci ensinou, da confusão que se instala nos períodos em que o novo ainda não nasceu e o velho ainda não morreu; ou pra que conheça o Nietzsche malvado como sempre e singelo como poucas vezes: “É preciso um grande caos interior para nascer uma estrela bailarina”. Ainda é cedo e ele tem, como na canção e nas melhores noites, aquela esperança de tudo se ajeitar.

o rum e o refúgio

“Difícil é essa condição humana.
Eu não estava armado para isso.
Esses trens, essa vida…”

Em uma das cenas mais bonitas de 35 Doses de Rum, um homem diz para sua filha que eles têm, dentro de casa, absolutamente tudo o que precisam. Talvez tenham, de fato: afeto, liberdade, livros, música, comida e as memórias, quase tudo. Pai e filha vivem num subúrbio de Paris, e só aos poucos sabemos da morte da mãe, da relação despedaçada do viúvo silencioso com a motorista de táxi que mora ao lado, da barreira que a menina impõe ao amor, do vizinho que ameaça ir embora numa atitude de quase desespero.

Aos poucos sabemos, ou porque o filme sugere ou vai ver são as cicatrizes, das razões de pai, filha, motorista de táxi e vizinho. Aos poucos entendemos, ou porque o filme sugere ou vai ver vocês sabem, que as razões deles são um pouco como as de todos nós: o medo do envolvimento, a dor da perda, o desequilíbrio dos traumas, a vontade do encontro.

O lar deles, como acredito devem ser os verdadeiros lares, é o abrigo que protege da solidão da cidade grande, dos caminhos tortos do trem, do mau humor cuspido no trânsito, dos vazios e das expectativas desfeitas, das tristezas acumuladas no tempo, dos finais, das ausências [até mesmo as dos vivos, que são tão ou mais difíceis do que a falta que nos fazem os que já estão mortos] e da própria morte.

Seus silêncios dizem quase tudo, como dizem entre si – sem palavras, ou com poucas – aqueles que atingiram a beleza de não precisar dizer da raiva ou da saudade, do desejo ou da tristeza, do amor ou das necessidades, raiva, amor, saudade, desejo, tristeza e necessidade subentendidos, e compreendidos igual. São como talvez devêssemos ser todos, também, afetuosos, silenciosos, simples e tranquilos, verdadeiros, sinceros e presentes, quase nunca indelicados, quase nunca indiferentes, quase nunca reticentes.

Os personagens de 35 Doses de Rum compartilham o desconforto diante da realidade, como fazem os amigos de verdade, agem como cúmplices diante do gato morto que vai pro lixo, do flerte e da dor de cotovelo embaladas por Nightshift e aquela melodia tristíssima dos Commodores, tristíssima como a expressão da personagem que insiste num amor não correspondido; do trabalho, da panela nova, da faxina catártica, do carro que pifa numa noite de chuva em que a música compensa até as divergências.

O filme é todo de movimentos suaves, corpos e objetos dançando a dança sutil dos melhores encontros, aqueles que a gente carrega quando vai embora – e deixa um pedaço com eles. É como são as melhores coisas do mundo, como a madrugada em que havia um violão e nenhuma expectativa; como o tempo em que não havia mais nada de importante, só os dois. É como são as melhores noites ou então os dias que a gente celebra com as 35 doses de rum destinadas apenas às ocasiões mais importantes da vida.

gran torino, a coragem e os afetos

Um ano depois, sentei pra rever Gran Torino, filme bonito de doer [mesmo] em que o bom e velho Clint Eastwood parece, mais uma vez, dizer que o mundo faz de tudo para esmagar a virtude, a ética e a beleza. A história começa com um funeral, o da esposa de Walt Kowalski, personagem dele, e termina do mesmo modo melancólico, de cor cinza, em tom menor. Durante, ao contrário, deixa esperanças, troca a amargura, a dureza e o mau humor pela ideia, verdadeira e certeira, de que ainda há espaço para a lealdade, a despeito de todo o mal.

Kowalski é um sujeito que tem pose de durão, coleciona grosserias e desafetos e cospe na calçada [eca] sempre que possível mas, bem no fundo, carrega uma dor imensa num grande coração. Ele não tem amigos, os filhos apenas cumprem o burocrático ritual de telefonar quando interessa, sugerir um asilo como destino ou visitar em datas festivas, e toda a vida dele cabe no porão de casa: a arma que espanta os bem e os mal intencionados, as ferramentas que servem pra consertar o mundo inteiro menos os buracos dele, as memórias que talvez expliquem tanta amargura.

Escolheu viver sozinho e as escolhas dele, como as minhas, as suas e as de todo mundo, perduram ou desaparecem dependendo da distância, do humor, da raiva, da lembrança, do desejo, da física, da razão, da gravidade, do rancor, da indiferença, da dedicação, da profundidade, do medo e do amor. O peso que carrega desde a guerra é imenso – ele matou não sabe quantos homens em nome de seu país e ganhou medalhas, mas sabe que canhões e minas são tão úteis quanto um zero à esquerda.

Parece compreender, como a gente aprende às vezes da maneira mais dura possível, que escolhas nos fazem esquecer rostos ou carregá-los pro resto dos dias, lutar por um amigo que mal conhecemos ou largar amores para trás mesmo quando ainda são amores. Parece compreender, como a gente aprende às vezes da maneira mais dura possível, que escolhas nos fazem ficar um pouco mais quando, ao que tudo indica, devíamos ir, ou justo o oposto: voltar para a segurança do quarto, seus silêncios, as paredes e os discos, quando a festa ainda segue animada na sala de estar.

Escolhas nos fazem conjugar os verbos mais diversos, apagar, ignorar, silenciar ou dizer, inclusive quando a cabeça pensa um troço e o coração quer outro, insistir ou desistir. Escolhas nos fazem entender, como Walt Kowalski afirma, lá pelas tantas, que o mundo nunca foi justo, embora seja preciso resistir, até mesmo às injustiças.

O mundo dele é duro, angustiante. Gangues tiram o sossego do bairro decadente em que vive, um subúrbio da Detroit em depressão. Imigrantes de uma comunidade hmong, etnia asiática que apoiou os Estados Unidos na Guerra do Vietnã e fugiu para o Ocidente depois do conflito – escancaram a diferença que os autoritários em geral insistem em ignorar. Muitos de seus contemporâneos estão mortos e, um belo dia, percebe que tem mais em comum com os vizinhos asiáticos do que com a própria família.

Seu carinho é todo do Gran Torino do título do filme, um Ford 1972 guardado na garagem – memória de um passado próspero que oprime o presente, como se as verdades estivessem todas lá e o aqui-agora fosse – alguém já disse e faz muito sentido – uma deterioração da vida.

Mas ele não desanima, não desanima diante do caos nem da solidão, do câncer ou da intolerância alheia. Walt Kowalski enfrenta sozinho o ódio que criou dentro de si, mas compartilha esse mesmo ódio quando decide resolver os problemas dos vizinhos, para compensar os próprios pecados.

Porque – aquele homem parece nos dizer, com toda a razão – é preciso coragem para enfrentar o mundo, e um bocado de afeto.

as melhores coisas do mundo

Lembrei de uma pergunta (com a respectiva resposta) e de um poema enquanto via As Melhores Coisas do Mundo, filme singelo que lembra como é bom não desistir de sonhar mesmo quando parece que não existe outra alternativa e como é preciso reinventar a vida, todo dia, pra não cair numa rotina cheia de obrigações e quase nada de prazer.

A pergunta:
Precisamos renunciar aos sentimentos, às vontades e aos entusiasmos para dar expediente no trabalho, pagar o condomínio e conviver socialmente com outros adultos com obrigações semelhantes e às vezes desejos igualmente reprimidos?

A respectiva resposta (acho):
Não, não precisamos (viva).

E o poema (O Haver, Vinicius de Moraes):
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! Porque eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

cold souls (ou o homem que alugou sua alma)

Aí que o Paul Giamatti (Sideways, cheers) interpreta ele mesmo em Cold Souls, um ator em crise existencial que decide contratar uma inovadora empresa que extrai a alma dos agoniados. Sua alma é, literalmente, um grão de bico, repleta de lembranças, medos e afetos, como deve ser a minha, a sua, a de todo mundo. Para substituí-la, porque julga não ser possível atuar sem alma, ele aluga a de um poeta russo – mais intenso, mais alucinado e mais baratinado com as pressões do mundo e o vazio da vida ainda.

De cara, lembra o Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, filme dos ex-enamorados que decidem se tirar um da memória do outro porque o amor que tinham, apesar de todas as diferenças do mundo (ele tímido, contido e aborrecido; ela impetuosa e cheia de intensidades), virou descontrole, não serve mais. Depois, lembra Quero Ser John Malkovich, a fantástica aventura de enxergar o mundo pelos olhos alheios – lá pelas tantas, a alma de grão de bico de Giamatti vai parar na Rússia, no corpo de uma atriz de talento duvidoso e cérebro idem.

Assim, com um pouco de cada um e outro tanto de si mesmo, Cold Souls mistura humor negro, metafísica, dilema e vazio existencial para tratar um pouco da velha – e longuíssima (alguém tem pistas?) – procura pela compreensão da alma humana.

tokyo

tokyo

Tokyo é o seguinte: um pequeno tratado sobre a solidão, a indecisão, o caos, a falta de espaço, a ausência de diálogo e o cinza, dividido em três episódios. Interior Design, de Michel Gondry, ganhou meu coração. Gondry, afinal, pelo menos para mim, é afeto em estado bruto. Adoro Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, o filme dos ex-enamorados que decidem se apagar um do cérebro do outro, porque o amor acabou, virou ódio concentrado, estas coisas que acontecem – e daí não mais calma, não mais riso, pisar em ovos, tentar uma duas três mil vezes, gosto amargo, dor no peito, tentar de novo uma tentativa frustrada, insistir e, depois de processos mais ou menos dolorosos e mais ou menos civilizados, desistir. Adoro A Natureza Quase Humana, uma inspirada sátira à [muito em tese] civilização: gente que trai, trapaceia, reprime, julga pelas aparências, joga fora a própria alma para parecer agradável aos olhos dos outros, estas coisas que acontecem. Adoro aquele videoclipe verde-psicodélicode do Les Cailloux.

Adoro, de modo que até repito o verbo adorar, como Bandeira e Teodora.

[Intransitivo
Teadoro, Teodora].

Com Brilho Eterno, entendi o bom de ter até as piores lembranças, apesar dos dias em que a gente queria que houvesse ali, na esquina da Ludwic Macal com a Antônio Basílio, um escritório especializado em limpar memórias por mapeamento cerebral, eliminar, num passe de mágica, os arrependimentos, as lágrimas, as tristezas, as saudades, as perdas e os erros, uma noite ingrata ou um mês inteiro, uma conversa triste, uma madrugada turbulenta ou um ano todo. Com A Natureza Quase Humana, lembrei do quanto o mundo é trágico, engraçado, complexo, injusto, curioso e engraçado de novo e bonito e feio, e às vezes tudo simetricamente misturado, demasiadamente humano, naturalmente bossa nova e um pouco rock’n’roll. Com Interior Design não foi nem uma coisa nem outra, só uma comoçãozinha inexplicável com a menina quase invisível que, numa noite de sonhos intraquilos como aqueles em que Gregor Samsa viveu antes de ser travestido em barata, transformou-se literalmente em cadeira, descobrindo, então, um sentido da vida.

eu, você e todos nós

De madrugada, numa destas insônias, lembrei do filme da Miranda July, aquele que alguém disse que é [e acho que é mesmo] um filme de almas solitárias em busca de contato com o mundo, palavras soltas sem mensagem aparente, diálogos que não estabelecem encontros, comunicação cheia de ruídos e interferências, um filme que talvez seja como a própria vida. Um peixe laranja e sua morte anunciada, uma queimadura na mão com ares de ritual, um encontro embaraçoso num banco de praça, a mulher que, tão logo se separa, volta a usar a camisola detestada pelo ex-marido [estes pequenos escapes que a gente comete..], a comparação de uma caminhada pela calçada a uma vida inteira de amor… qualquer coisa serve pra reforçar a aparente tese de que tem algo fantástico até nos fatos mais banais. E vai ter tem mesmo.