a peste da insônia

Ilustração do livro Cem Anos de Solidão

Apesar das incertezas e perdas produzidas pela pandemia, uma ou outra estrela bailarina têm nascido deste imenso caos que se instalou desde a chegada do coronavírus. Quero sugerir uma delas para vocês: o curta-metragem “La Peste del Insomnio”, que podemos traduzir como “A Peste da Insônia” e assistir gratuitamente  no site www.fundaciongabo.org e no YouTube

No filme de 15 minutos, 30 atores latino-americanos lêem trechos do mágico romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, descrevendo uma quarentena parecida com a que estamos atravessando – uns com mais juízo, outros com menos. 

Os trechos nos contam a respeito de uma epidemia que assolou Macondo, a aldeia do livro publicado em 1967. A Peste da Insônia fez um, depois dois, depois todos os habitantes da cidade perderem completamente o sono. E, embora o patriarca José Arcadio Buendía acreditasse que a doença era bem-vinda, porque faria a vida render mais, a epidemia escondia uma consequência terrível. Os dias e noites em claro evoluíam para o esquecimento, sumiam com as lembranças, o nome e a noção das coisas, a consciência do ser.

Ironicamente, Gabo perdeu-se da própria memória pouco antes de morrer, às vésperas de um feriado santo, aos 87 anos. Na época, parou de falar ao telefone, porque não reconhecia os interlocutores pela voz. Quando não sabia com quem conversava, fazia perguntas genéricas como “o que tem feito?”para tentar reencontrar o rumo. Coisas mais antigas, segundo consta, continuaram intactas na cabeça mirabolante do menino pálido, subnutrido e atormentado pelos piolhos que se tornou um dos maiores escritores do mundo.

Gabo morreu em 2014, dois anos depois de perder a memória. “Cem Anos de Solidão” permanece como um dos livros mais importantes da vida de muitos de nós. A Peste da Insônia encontrou a cura. Como Melquíades, o cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal que levou o gelo e outras invenções a Macondo, “La Peste del Insomnio” é uma pequena dose de imaginação e esperança, um pequeno alento em meio a tantas más notícias.

mulheres invisíveis

Fernanda Montenegro em cena do filme “A Vida Invisível”

Por diversas razões, “A Vida Invisível” é um filme de partir o coração. Porque duas irmãs se perdem de vista, separadas pelas circunstâncias da vida e pelo machismo da família. Porque ambas são silenciadas em seus maiores desejos. Porque determinados acordos escondem um doloroso e desigual domínio de uma parte sobre a outra. Porque, como Guida e Eurídice Gusmão, há muitas mulheres que apenas ficam. 

A história se passa na década de 1950, mas podia ser hoje, na noite passada ou agorinha mesmo, enquanto o isolamento social exigido pela pandemia do coronavírus amplia os registros de violência contra a mulher, as separações e as diferenças entre ricos e pobres. 

Filhas de um conservador casal português, Guida e Eurídice Gusmão são como água e vinho. Eurídice é uma jovem tímida, realista e retraída que deseja ser pianista profissional. Guida é expansiva, sonhadora e extrovertida, e tem como meta encontrar um amor de verdade e, no caminho, se divertir um pouco. 

A ingenuidade delicada da dupla contrasta com a rispidez do pai, com a omissão da mãe e com o destino que as espera. Guida foge com um marinheiro grego, viaja, casa, separa e engravida, nesta ordem. Expulsa de casa por causa da gravidez sem marido, enfrenta a dura realidade da vida operária para criar o filho. 

Sua invisibilidade vem da condição de mulher social e economicamente vulnerável. A de Eurídice está dentro de casa, no marido aparentemente cortez que personifica a violência sexual e psicológica vista como normal em muitas famílias, especialmente naquela época, mas ainda hoje. 

Uma ou outra delicadeza se impõem no duro cotidiano das irmãs: a música, a amizade como espaço de resistência e transformação, as cartas que Guida destina a Eurídice sem saber se realmente foram entregues. 

Ao narrar a história de duas irmãs silenciadas pelo patriarcado e pela opressão social, em uma longa caminhada interior que elas percorrem sempre no mesmo lugar, o filme de Karim Ainouz homenageia, de algum modo, todas as mulheres invisíveis do mundo.

o menino e o vento

“Quando você vive um problema, você o conhece melhor do que todo mundo”. A frase que o engenheiro William Kamkwamba costumava ouvir da avó norteou sua busca por soluções para a pequena vila de Wimbe, no interior do Malawi, um país africano montanhoso e sem saídas para o mar que ocupa as últimas posições do ranking de desenvolvimento humano da Organização das Nações Unidas e as primeiras na lista de país mais pobre do mundo.

Kamkwamba é o garoto que inspirou o filme “O Menino que Descobriu o Vento”, a comovente história da construção de um moinho que salvou uma comunidade inteira da seca e da fome. 

A saga do adolescente de 14 anos que estuda sozinho e enfrenta a descrença da família para montar um moinho de vento ganhou as páginas de jornais e virou livro. Em 2013, Kamkwamba foi eleito pela revista Time como uma das 30 pessoas com menos de 30 anos que estão mudando o mundo. Ano passado, sua história foi levada às telas pelo diretor inglês Chiwetel Ejiofor, conquistando milhares de admiradores. 

O resumo da ópera: quando a colheita da família é devastada pelo mau tempo e pela falta de políticas públicas, Kamkwamba se vê forçado a abandonar os estudos. Com a ajuda da bibliotecária do vilarejo, das poucas noções obtidas na aula de Física e de peças de ferro velho, o menino autodidata constrói uma bomba movida à energia eólica para irrigar os campos e salvar as plantações de sua comunidade.

O relato nos ensina dezenas de lições. Minhas favoritas são o poder do conhecimento genuíno existente na simplicidade, nas vivências reais e na diversidade, e a força que pessoas raras têm para mudar as coisas, a despeito de todas as dificuldades. 

Toda transformação começa com o primeiro passo, costuma dizer o menino, hoje com 32 anos. À frente da WiderNet, organização sem fins lucrativos com sede nos Estados Unidos, ele trabalha para estimular o surgimento de novos inventores em comunidades carentes de infraestrutura, comida e atenção. Seu foco é amparar projetos como o moinho da vila de Wimbe, aqueles que de tão simples sejam capazes de se tornar imensos.

o discurso de joaquin phoenix

Os merecidos prêmios conquistados por Joaquin Phoenix por sua atuação no filme “Coringa” têm sido acompanhados de discursos vigorosos.

No Oscar, há alguns dias, o ator exaltou a possibilidade que ele e os colegas têm de usar a voz em favor dos que não têm voz. “Um dos maiores dons que eu recebi, e como muitos aqui neste recinto, é a oportunidade de dar voz aos que não podem falar. Acho que quando falamos sobre equidade de gênero, racismo, direitos LGBTQI+, direitos dos indígenas e direitos dos animais, nós estamos lutando contra injustiças. Estamos lutando com a crença de que uma nação, uma pessoa, um gênero uma espécie tem o direito de dominar, controlar e explorar os outros”, declarou.

Uma semana antes, no Bafta, seu discurso foi igualmente duro com a falta de representatividade na indústria do entretenimento: “Sinto-me honrado e privilegiado por estar aqui esta noite. Mas devo dizer que me sinto em conflito, porque muitos colegas atores que também merecem [o prêmio] não têm o mesmo privilégio. Lançamos uma mensagem muito clara às pessoas negras: que vocês não são bem-vindos aqui. Essa é a mensagem que estamos enviando às pessoas que tanto contribuíram para o nosso meio, fazendo coisas das quais nos beneficiamos”.

Na cerimônia de entrega do Globo de Ouro, que ele também venceu pelo papel do perturbado Arthur Fleck no filme de Todd Phillips, Phoenix teve partes de sua fala cortada, oficialmente por causa do excesso de palavrões, extraoficialmente pelo constrangimento embutido nas pesadas críticas que fez à indústria do cinema e a seus integrantes.

Numa histórica mea culpa, Phoenix destacou os privilégios que homens brancos como ele têm e elevou minorias que as premiações, lideradas pelo Oscar, insistem em ignorar, apesar de protestos como o #OscarSoWhite e o #MeToo, que tomaram as redes sociais pedindo representatividade e diversidade nas escolhas do prêmio.  

Desde a primeira edição do maior festa do cinema norte-americano, em 1929, por exemplo, apenas cinco diretoras receberam indicações: Lina Wertmüller (“Pasqualino Sete Belezas”, 1977), Jane Campion (“O Piano”, 1994), Sofia Coppola (“Encontros e Desencontros”, 2004), Kathryn Bigelow (“Guerra ao Terror”, 2010) e Greta Gerwig (“Lady Bird”, 2018). Kathryn Bigelow foi a única a vencer.

Em 2020, mais uma vez, o prêmio de Melhor Direção teve um total de zero mulheres.

Globo de Ouro e Bafta tampouco tiveram diretoras indicadas nesta edição. O cenário não é muito diferente para artistas negros. O discurso que Joaquin Phoenix levou aos palcos nos lembra de números desanimadores também neste aspecto: das pouco mais de 3.100 estatuetas entregues desde a primeira cerimônia do Oscar, apenas 44 foram para profissionais negros. São, apenas, 2% dos vencedores. 

adoráveis mulheres critica o patriarcado com força e fofura

Cento e cinquenta anos e um mundo de transformações separam o livro “As Mulherzinhas”, de Louisa May Alcott, do filme “Adoráveis Mulheres”, de Greta Gerwig. Mas Alcott plantou uma sementinha de subversão que Gerwig soube revigorar com um misto de força e fofura.

Em 1868, quando o romance sobre as irmãs March chegou ao público, ideias como equidade, sororidade e empoderamento nem sonhavam aparecer. O feminismo tampouco existia formalmente – as expressões feminismo e feminista surgiram em 1872 e passaram a figurar no dicionário em 1895.

Também é provável que quase ninguém imaginasse que um dia haveria tanto a dizer (e a fazer) a respeito de temas como a igualdade, o poder das mulheres, solidariedade entre nós e o assédio.

A independência da protagonista Jo March, dona de um temperamento forte que sonhava ser escritora e recusava o casamento, era incomum, quase inaceitável, nos anos 1800. No filme como no livro, ela, a mãe e as três irmãs enfrentam com ingenuidade, otimismo e afeto a penúria doméstica e a ausência do pai, combatente na Guerra Civil.

A história foi escrita à imagem e semelhança de sua autora, segunda das quatro filhas de uma família de poucas posses, mas muitos atributos intelectuais. Seu pai era um educador, filósofo, abolicionista e defensor dos direitos das mulheres que manteve estreita amizade com pensadores como Henry Thoreau, autor do manifesto “A Desobediência Civil”, uma defesa da rebeldia individual como oposição legítima ao Estado.

Louisa tornou-se ela também abolicionista e inconformista e, ciente do jeito aéreo do pai, tratou de assumir algumas responsabilidades materiais da família, dando aulas e vendendo histórias açucaradas para os jornais da região.

A versão construída por Greta Gerwig mantém a insubmissão e o inconformismo de Jo March. Seu contraponto é a irmã do meio, uma jovem resignada diante da força do patriarcado. 

Para Amy March, só havia um meio de sobrevivência para uma mulher sem condições de obter os próprios recursos: fisgar um marido rico. Ao contrário de Jo, Amy via o casamento como um negócio, determinado pelos interesses do homem e, principalmente, por suas posses.

No final das contas, “Adoráveis Mulheres” é um filme sobre a forma como cada uma das irmãs March lida com a opressão imposta pelo domínio masculino nas escolhas e nas possibilidades, no presente e no futuro. 

o equilibrista

– Por que você fez isso?, alguém perguntou ao equilibrista, tão logo ele terminou de atravessar as torres gêmeas do World Trade Center, em um cabo de aço estendido, sem proteção e sem autorização, a 417 metros de altura.
– Faço algo magnífico e misterioso e tudo o que consigo é um prático por quê? O belo é que não há porquê, ele respondeu.

Pensei comigo: sabe que às vezes faz bem não saber?

Quando a gente não sabe, pensei, a cabeça deve doer menos a tristeza dos dias turbulentos, o abdome deve sustentar mais o peso das vértebras retorcidas. A gente, quando não sabe, investe com mais pureza nos encontros, nos diálogos, no prazer e na arte. Protegidas pela graça da ignorância, acolhidas pelo benefício do desconhecimento, mimadas pela dádiva da inocência, as madrugadas passam quietas e a ansiedade respira no compasso certo – ou o mais perto possível.

As horas tendem a pesar menos quando a gente não sabe.

Ao contrário das estações em que chove dentro da gente, mesmo que lá fora faça sol, quando não sabe a gente experimenta a liberdade de se dedicar com menos peso à busca de respostas, sejam elas metafísicas ou prosaicas, sejam elas a respeito dos rumos do jornalismo, dos versos de Bob Dylan ou do sentido da vida, sejam elas sobre o teor alcoólico do gim ou sobre as razões daquele equilibrista.

O equilibrista, a propósito:

Às 7 da manhã do dia 7 de agosto de 1974, um francesinho chamado Philippe Petit estendeu um cabo de aço entre as torres gêmeas do World Trade Center e atravessou, sem proteção e sem autorização, o espaço entre os prédios que Osama Bin Laden mandaria pelos ares em 11 de setembro de 2001. Petit tinha 24 anos, vestia preto e cruzou o vão entre as edificações a 417 metros de altura, por oito vezes, durante pouco mais de 40 minutos. Acabou na delegacia, feliz da vida.

A traquinagem foi exaustivamente planejada. Petit alugou um helicóptero para fotografar o topo das torres, convenceu um executivo do 82º andar a ajudá-lo, fingiu ser repórter de uma revista inventada para entrevistar o síndico.

Enquanto fazia malabarismos na rua para se manter, observou, fotografou. Tomou notas. Subiu e desceu do complexo que ainda passaria por um incêndio em 13 de fevereiro de 1975, um atentado a bomba em 26 de fevereiro de 1993 e um assalto em 14 de janeiro de 1998. Acompanhou a rotina de funcionários e frequentadores e até decifrou a combinação que abria uma das portas: 7-7-4-3-5.

Como a maioria absoluta dos sonhares, Philippe Petit ignorou os riscos, os ventos, a umidade do ar e as exigências da polícia e fez – palavras dele – aquilo que tinha de fazer. Andar sobre fios era paixão antiga, daquelas como na canção.

[Basta um encontro por acaso e pronto: começa tudo outra vez].

Petit já havia passeado suspenso entre as duas torres da Catedral de Notre Dame e pela ponte que atravessa a baía de Sidney, na Austrália. Para atravessar as torres gêmeas, contou com a ajuda de um amigo e da namorada. Também teve alguma sorte, declarou em entrevistas que viriam depois da façanha. Pensou em tudo, minúcia por minúcia, desde o transporte até o modo como faria um cabo de 200 quilos atravessar de um ponto ao outro – no fim das contas decidiu usar um arco e uma flecha para, então, caminhar sobre a corda bamba, deitar e dançar um pouco.

O nome da coisa é funambulismo.

A vara de equilíbrio pesava aproximadamente 25 quilos. Por toda a extensão da linha, havia cabos pendendo em direção ao chão. A função deles era reduzir as vibrações na superfície da corda bamba e, também, amenizar a sensação de vazio que dá olhar para baixo quando não há nada para ver, nem paisagem nem um rosto conhecido, nem formas nem perspectivas; nada.

– Por que você fez isso?, alguém obviamente perguntou.
– Faço algo magnífico e misterioso e tudo o que consigo é um prático por quê? O belo é que não há porquê, ele respondeu.

Pensei comigo – vocês já sabem: sabe que às vezes faz bem não saber?

efeito borboleta

Pode um minuto que seja mudar o rumo das coisas todas? Os desfechos estão escritos ou a vida vai sendo tecida conforme correm os anos em seus meses e os meses em seus dias e respectivas noites? Somos marcados para protagonizar esta ou aquela experiência ou as cenas se constroem conforme instrução divina?

Pensávamos nisso diante da tragédia anunciada pela emissora de televisão: 71 dos 77 passageiros do Avro Regional Jet 85 colombiano estavam mortos, um time inteiro de futebol dizimado a uma hora de seu destino, às vésperas da final do campeonato.

Perguntávamos de nós para nós mesmos o que teria havido se o chute defendido pelo pé direito do goleiro no último minuto do último jogo tivesse desfecho oposto. O que teria havido se aquele gol fosse consumado? A resposta evidente mexia mais com o nosso fígado do que as doses de Jim Bean sem gelo que acompanhavam a conversa. Outro time jogaria a final, outro time estaria no avião, outro time que não aquele, inteiro dizimado a uma hora de seu destino, às vésperas de vocês sabem.

A teoria do matemático Edward Lorenz voltava oficialmente a nos assombrar.

Em 1963, nenhum de nós havia ainda nascido. O pesquisador norte-americano, por sua vez, já trabalhava com previsões meteorológicas nos laboratórios do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. A certa altura, Lorenz concluiu que o bater de asas de uma borboleta seria capaz de influenciar o curso natural das coisas e provocar um tufão do outro lado do mundo. O termo passou a explicar a dependência sensível que existe entre qualquer acontecimento e as condições iniciais em que ele se dá.

Quatro décadas mais tarde, fizeram um filme ligeiramente ruim, mas muitíssimo inquietante a respeito do Efeito Borboleta descoberto por Edward Lorenz enquanto trabalhava com previsões meteorológicas no MIT. O personagem principal, um menino de infância conturbada, descobre ser capaz de alterar o passado e percebe, de maneira pouco ortodoxa, que pode salvar os que ama de problemas e tragédias. Acontece que, conforme altera o passado e conserta antigos desvios, novos desfechos surgem, e nem todos têm resultados melhores que os anteriores.

Sabíamos desde então, e ainda hoje, que escolhas têm causa e consequência, estômago, amores, caminhos, espíritos e encontros condicionados um pouco ao acaso e outro à matemática, um pouco à prudência e outro à permanência, um pouco ao improviso e outro ao ensaio, num sistema mais ou menos descontrolado de impulso e produto.

Sabemos ainda hoje, e desde então, que escolhas têm causa e consequência, verdade, comédia, miopia, diálogos e madrugadas condicionados um pouco ao momento e outro à história, um pouco à solidez e outro ao movimento, um pouco à intimidade e outro ao desconhecido, num sistema mais ou menos descontrolado de realização e resultado.

Sabíamos desde então, ainda hoje e cada vez mais, que somos só um pouco donos de nós mesmos, e nem sempre é o bastante.

dylan e os recomeços

bob-dylan-2016-nobelUm texto antigo, por ocasião do anúncio de que Bob Dylan venceu o Prêmio Nobel de Literatura neste dia de vento frio.

Aquele homem foi um caso típico na minha vida. Antes até de sua música, estive interessada no que dizia, no que fazia, no que não dizia, no que não fazia, nas inúmeras reinvenções de si mesmo. Há uns seis ou sete anos, passei as noites de uma semana inteira lendo uma das suas biografias desautorizadas e ouvindo sem parar canções que nem sempre entendia, e ainda hoje. Tempos depois me encantei com “I’m not There”, o filme que Todd Haynes fez sobre Bob Dylan ou com Bob Dylan ou para Bob Dylan.

[Não sei direito].

Gosto das inúmeras reinvenções de Dylan, porque ensinam que é preciso e possível, mesmo que no momento não pareça. Gosto das contradições dele, talvez porque aproximem o gênio do homem, e “I’m not There” tem um monte delas. Seis personagens representam os vários Dylans que existem dentro do estranho Dylan: Jude Quinn (Cate Blanchett), Billy the Kid (Richard Gere), Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin), Jack Rollins (Christian Bale), Robbie (Heath Ledger) e Arthur Rimbaud (Ben Whishaw).

Quinn é a cara dele, de cabelo emaranhado e olhar perdido no tempo. Ele, Rollins e Robbie encarnam o tormento do artista. Rimbaud, angustiado igual, defende diante de um tribunal opressor que a criação deve ser evitada. Por quê? Porque, fatalmente, haverá interpretações dissonantes e um processo eterno de falta de relação entre aquilo que o artista imagina e a maneira como o público vê o que resulta desta imaginação.

Guthrie homenageia o guru do músico, ativista social sobre quem ele diz que “podia escutar suas canções e de fato aprender a viver”, como alguns de nós aprendemos a viver com Chico, com John, com o Tom ou com o tango – e alguém disse certa vez que devemos ter, todos, alguém com quem aprender coisas, no trabalho e na vida. O de Dylan canta os vagabundos, cruza o país de carona, vive de bebida e sonho.

“I’m not There” é um filme de ficção, mas podia ser uma conversa daquela madrugada ou a própria vida, feita de andanças, mudanças, recomeços, regressos e reinvenções. Como as muitas de Dylan nas últimas quatro décadas. Como as que nos encontram em determinados momentos, esperadas ou não. Como a curiosa história do escocês de séculos atrás chamado Thomas Carlyle, que compartilho antes de encerrar o expediente.

O sujeito, durante anos, trabalhou intensamente num amplo registro da Revolução Francesa. Era pobre e contava com a ajuda, em livros e dinheiro, do filósofo John Stuart Mill. Quando acabou o extenso primeiro volume, emprestou o manuscrito a Mill. Por uma dessas coisas que ninguém explica, o texto pegou fogo, acidentalmente. Carlyle não acreditava em Deus; não podia, portanto, reclamar da tragédia com Ele. Então sentou, respirou fundo e começou do zero, palavra por palavra, linha por linha, página por página.

Talvez tenha entendido que a resposta, meu amigo, sopra com o vento.

sobre a simplicidade

Talvez fosse o verão, ou então a bicicleta, o cardápio à base de legumes, chocolate e Coca Cola, a pintura nova das paredes, as mudanças no armário, a rima da moda segundo a qual não precisa sofrer para saber o que é melhor para você; não mesmo.

Talvez fossem as celebrações, ou então a própria vida, as canções, as boas companhias, os parceiros que suavizam com seu afeto as ausências mais doídas, dizem com seus silêncios as verdades mais fundas, ocupam com sua presença os inevitáveis escuros, emolduram com sua compreensão as angústias que insistem. Talvez fossem os astros.

Talvez fosse o contexto, trocar o endereço, cometer pequenos pecados, sambar e balançar um mundo inteiro de sambas e balanços, investir em simplicidade e silêncio, “Ive Brussel”, os pratos da cozinha, os amigos que chegam para celebrar, um sorrisão a qualquer hora simplesmente porque sim, uma viagem anotada na agenda, o resto dos planos para o futuro, voltar a ver o mundo com os olhos da delicadeza, tanto quanto possível, mesmo que nem sempre.

Talvez fosse o texto, um trecho tão bonito quanto certeiro, perdido numa entrevista qualquer: – Quanto maior me faço, mais simplifico minha vida.

Talvez fosse o filme da terça anterior, o sujeito de meia idade às voltas com uma traição que precisava ser digerida, uma criança e dois adolescentes mais ou menos desajustados, a esposa num coma sem volta, uma vida inteira de muito trabalho, pouco luxo e contenções em excesso, o mundo todo prestes a desabar sobre seu cabelo cinza.

Matt King, o personagem central de “Os Descendentes”, podia ser eu, você, o vizinho do andar de cima, qualquer um. Quando corre desajeitado pelas ruas do ensolarado balneário em que vive, resume os caminhos de quem tenta, do mesmo modo desajeitado, correr atrás de respostas. Quando rebola para se aproximar das duas filhas, materializa as barreiras que, cada um de nós, uma ou mais vezes, enfrentou diante de uma conversa – ou da falta dela.

Quando sai em busca do amante da mulher moribunda, faz rir de tão igual aos que [quem nunca, uma vez que seja?] vasculharam Facebook, Orkut, Twitter, Sonicos e o que mais em busca de evidências ou nem. Quando varia entre vender ou não o imenso terreno virgem e paradisíaco herdado dos avôs, desperta a dureza que é estar dividido entre as posses e o desapego, o dinheiro e as raízes, a ambição e a beleza.

Quando grita com a mulher inerte e, no momento seguinte, é todo ternura, joga luz sobre descontrole e no momento seguinte o sossego, as ofensas e logo o arrependimento, a loucura e, passado o caos interior, a paz. Quando beija a esposa do amante da sua esposa, revela as contradições da dor de cotovelo.

[Doi do cóccix até o pescoço].

Talvez fosse Matt King, ou os legumes, as celebrações, as canções, o contexto ou o texto. Talvez fossem os astros ou então o verão o responsável pela vontade recorrente daqueles dias: leveza, calma, simplicidade, aquela, lembra?, que numa destas ironias da vida a gente trabalha duro para encontrar.

um olhar sobre ela

elaSaí do cinema com uma vontade danada de escrever sobre Ela, mas não sei se era exatamente sobre o filme do sujeito solitário que se apaixona por um sistema de computador que eu queria escrever, ator, diretor, trilha sonora, roteiro, indicações ao Oscar, aquela coisa.

Queria talvez dizer não sobre Spike Jonze, mas sobre como e quando começam as histórias de amor, em que dia, em que cidade, no meio de um show de jazz ou na volta do teatro, no sofá da sala ou os dois estirados no chão, ouvindo as canções até o fim da pilha. Queria talvez dizer sobre o riso fácil dos primeiros dias, o sono deixado de lado nas noites em que nada mais importa a não ser os dois, as horas de apresentação, introdução, reconhecimento, prefácio, o início todo.

[Porque bonita mesmo é a palavra começo, um beijo demorado, uma conversa de uma madrugada inteira ou o primeiro parágrafo daquele livro em que, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo].

Queria talvez dizer não sobre Joaquim Phoenix, mas sobre o que muda com o tempo, a paz que a gente constrói conforme os dias passam, a hora em que percebe que não consegue mais ficar longe do abraço apertado, do cabelo desgrenhado, das manias engraçadas, do modo de organizar as estantes – ou justo o oposto, da bagunça espalhada pela casa. Queria talvez dizer sobre os planos para o futuro, o corpo todo tomado de alegria, coração, pulmão e estômago inteiros cheios de tanta felicidade, a viagem que a gente repete, ano sim outro também, ou então as rotas novas, com zero de agendas obrigatórias.

Queria talvez dizer não da briga pelo troféu de Filme, Roteiro ou Trilha Sonora, mas dos afetos que cedo ou tarde esbarram no ciúme, nas ausências, nas dificuldades de comunicação ou nas diferenças que de repente se agigantam. Queria dizer, talvez, sobre o modo como a gente conserta as coisas ou as perde, definitivamente; sobre como somos ou não somos capazes de evoluir com as mudanças, crescer com as perdas, aprender com as divergências, superar e seguir.

Ela, o lindo filme sobre o homem silencioso que anda de cabeça baixa, costas ligeiramente encurvadas, calça acima do umbigo e olhos fixos em um pequeno computador de bolso, tem um pouco disso tudo que eu talvez quisesse dizer quando saí do cinema. Tem o riso fácil dos primeiros dias, o sono deixado de lado nas noites em que nada mais importa, apresentação, introdução, reconhecimento, prefácio e os primórdios da saga do Coronel Aureliano Buendía. Tem a paz conforme os dias passam, a hora em que não se consegue mais ficar longe, o corpo todo tomado de alegria, coração, pulmão e estômago cheios de tanta felicidade. Ela tem ciúme, ausência, dificuldade de comunicação, diferenças que de repente se agigantam, evoluir com as mudanças, crescer com as perdas, aprender com as divergências, superar e seguir, ou não.

É uma história de amor que seria como a minha, a sua, a de qualquer um, não fosse o filme protagonizado por um homem e uma máquina, um redator profissional de mensagens afetuosas ou votos de felicidade apaixonado por um programa de computador capaz de fazer companhia, organizar arquivos, ajudar a passar de fase no videogame, ouvir de verdade e responder com a voz sexy de Scarlett Johansson.

O que o filme nos mostra é a aventura de um amor alegre e triste, como de certa forma são os verdadeiros amores, um caminho que alterna diálogos férteis e incomunicabilidades, aproximações e distanciamentos, afeições e um pouco de dor de estômago. As cenas parecem dizer que compartilhar é tão preciso quanto viver e navegar, mas às vezes dói, exige, satura, sufoca, e as máquinas com inteligência artificial, porque criadas à nossa imagem e semelhança, estão prontas a repetir os modos e manias que costumamos cultivar.

Porque criadas à nossa imagem e semelhança, as máquinas do filme, como possivelmente também as do mundo, são programadas para entender descobertas, fascínio, entrega, mal-estar, apego, dificuldades de comunicação, acúmulo, confusão, vazio, nostalgia, melancolia, solidão, esperança, desencontro, dependência. Sabem, porque criadas à nossa imagem e semelhança, da necessidade de estarmos conectados, mesmo que de modo cada vez mais egoísta e dependente, mesmo que de modo cada vez mais solitário e confuso.