carta aberta ao padre kelder brandão

Prezado Padre Kelder,

Tomo a liberdade de escrever esta carta aberta depois de ler seu artigo, alguns dias atrás, a respeito dos impactos do coronavírus na periferia do Espírito Santo. Não o conheço pessoalmente, apenas por meio das atividades públicas que o senhor desempenha e do que me conta uma amiga querida que temos em comum. Devo dizer que seu texto e o olhar que pude sentir a partir dele fortaleceram minha admiração e meu respeito. 

Obrigada por compartilhar sua visão das coisas neste momento de tensão, medo do futuro e melancolia, mas também de solidariedade, empatia e esperança em dias melhores.

É preciso falar insistentemente sobre a dureza da vida dos mais pobres. É preciso jogar luzes incansáveis sobre a violência e a forma como ela dizima jovens pretos e pobres. É preciso abrir os olhos de todos sobre o quanto isto também diz respeito a nós, que somos privilegiados pela cor da pele, pelo endereço da casa, pelo simples fato de termos esgoto, comida, oportunidades e possibilidades.

Minha missão por aqui geralmente é escrever sobre a importância da diversidade nas organizações e o modo como o racismo, o machismo e todos os outros tipos de preconceito emperram a nossa evolução como comunidade, como sociedade e como humanidade. 

Ultimamente, diante do cenário que nos foi posto por um vírus invisível e devastador, minhas reflexões passaram a incluir, também, a pandemia e seus efeitos emocionais, sociais e econômicos.

Como o senhor bem escreveu, o coronavírus atinge a todos, indiscriminadamente, mas as condições com que cada um enfrenta a doença são muito diferentes. Afinal, não dá pra dizer que os pacientes do Albert Einstein navegam no mesmo barco daqueles que não têm dinheiro para o sabão e o pão, para usar a expressão que o senhor sabiamente anotou. 

Espero que esta carta aberta o encontre bem de saúde e ainda disposto a batalhar pelos mais fracos. Sua força e generosidade são essenciais em tempos de paz; o que dizer, então, do quanto são importantes em tempos de guerra?

carta aberta a uma amiga que está de mudanças

Vitória, 6 de outubro de 2019

Querida Jana, 

Tem um texto seu que não me sai da cabeça. Um texto de quando você olhou com atenção para a sua imagem no espelho e viu que a tristeza do último ano te deu um bocado de quilos. Um texto sobre a tristura em forma de peso ter agarrado nas suas coxas e barriga e peitos e bochechas, ao mesmo tempo em que abriu um buraco do lado de dentro, um nada escuro, enquanto a volta foi enchendo e enchendo. Um texto lindo como tantos outros que você escreve e eu, de longe, admiro e rio e choro e penso:

– Caramba, preciso ligar para a Jana.

Preciso dizer como é inspirador vê-la superar tanta coisa e ainda rir aquela gargalhada contagiante, estudar um bocado, mas não deixar a leveza de lado, ter sensibilidade, inteligência, beleza, elegância e humor a despeito do que falta. Preciso saber timtim por timtim a respeito dos planos para a temporada em Portugal, o doutorado, a filha que vai e a filha que fica, as amizades e os desafetos, a casa nova, os amores todos. 

Preciso dividir o que aprendi sobre autocuidado no dia em que me vi obrigada a cuidar um pouco de mim, mostrar o projeto sobre as crônicas da Carmélia e o chumbo daqueles tempos de dureza que você bem sabe. Preciso compartilhar os fatos da tarde em que entendi que o que nos define é a forma como levantamos depois de cair. Preciso matraquear um pouco sobre as últimas quedas que, menina, nem te conto.

Preciso praticar o verbo matraquear e saber detalhes de como a tristura em forma de peso agarrou nas suas coxas e barriga e peitos e bochechas, ao mesmo tempo em que abriu um buraco do lado de dentro, um nada escuro. Preciso dizer do texto que você escreveu e eu li, admirei e ri e chorei e pensei:

– Caramba, preciso tomar um vinho com a Jana [e quem sabe duas Margaritas]. 

Preciso falar da lição aprendida com a moça em tratamento paliativo contra um câncer que tomou todo o corpo e não há mais nada a ser feito pela Medicina: o Sagrado não está à disposição das nossas vontades e, por isso, temos de fazer a parte que cabe a cada uma de nós. Preciso confabular com você a respeito da parte que cabe a cada uma de nós. Preciso de meia dúzia de conselhos, por favor.

Preciso falar dos quilos que também ganhei, e dos porquês. Preciso mostrar para você aquele parágrafo sobre as horas de dúvida em que a resposta, serena e certeira, morava invariavelmente na sala da sábia chefa que está de mudanças para Portugal. 

Mudanças, assim mesmo, no plural. 

Preciso dizer das mudanças assim mesmo no plural e do texto que você escreveu a respeito da tristeza e dos de quilos aos bocados, nas coxas, na barriga, nos peitos e nas bochechas. Um texto que eu li, admirei e ri e chorei e pensei: 

– Caramba, preciso visitar a Jana em Portugal. 

carta aberta a conceição evaristo

Vitória, 19 de julho de 2019

Estimada Conceição Evaristo,

Recentemente impus, de mim para mim mesma, uma tarefa sob vários aspectos desafiadora: produzir um artigo sobre a escrevivência como estratégia narrativa e política. Meu ponto de partida seria a perspectiva da segunda onda do movimento feminista, surgida entre as décadas de 1960 e 1970, de que o pessoal é político. 

O texto serviria como instrumento de avaliação em um curso na universidade a respeito da senhora e de Carolina Maria de Jesus, um curso em que aprendi um bocado, não apenas de literatura, mas também da vida, das diferenças, de perdas, das faltas e de afetos que a gente constrói até quando menos espera. 

Minha proposta, gentilmente aceita pelo professor, havia nascido de duas sementes plantadas ao longo das aulas, à espera de semeadura. A primeira era um depoimento em que a senhora contava que a origem de sua escrita estava no acúmulo do que ouviu desde a infância, nos que vieram antes da senhora, nos gritos das vizinhas debruçadas nas janelas ou nos vãos das portas, dizendo mazelas e alegrias umas para as outras. 

A segunda viajava um pouco para trás na linha formal do tempo. Um artigo escrito em 1969 por Carol Hanisch, uma jornalista como eu, jogava luzes sobre grupos em que mulheres compartilhavam dores, anseios, dúvidas e o que mais viesse como forma de suporte e superação. Hanisch entendia, como talvez também a senhora, o ato de dizer coisas em voz alta como um ato político, porque revolucionário na essência, gerador ou potencializador de transformações.

Como provavelmente também a senhora, ela defendia que devemos dizer aquilo em que acreditamos, ao invés daquilo que sempre nos foi dito para dizer. É possível que, para Carol Hanisch, o efeito de compartilhar histórias com outras mulheres era como o falar-e-ouvir de suas vizinhas, talvez a única defesa que havia contra a dominação machista, o preconceito, as dificuldades financeiras e outras durezas que assolam as mulheres, em especial as pretas.

Eu tinha a impressão, àquela altura e ainda agora, que a sua escrevivência seguia bem de perto o pessoal-e-político do artigo de 1969. O jogo de letras, sentidos e ideias nascido do encontro entre os verbos escrever, viver e ver combinava à perfeição com a literatura nascida daquele falar-e-ouvir de sentimentos, memórias e expressões das meninas mulheres da pele preta, como na canção, só que diferentes.

Minha intenção passava por reforçar, nesta perspectiva e a partir da leitura dos contos de “Olhos D’Água”, como questões pessoais no nosso ir e vir são também políticas. Como aspectos centrais da vida pública afetam o cotidiano de mulheres, o modo como constroem seus relacionamentos, a forma como alimentam – ou não – sua independência econômica e afetiva. 

Como os padrões fincados no mundo de todos entram na esfera doméstica para, em muitíssimos casos, refletir desigualdade, misoginia, machismo, patriarcado e seus valores. Como a degradação e a violência se estendem da rua à casa, das leis do trabalho aos laços de família, do que se vê para o que quase ninguém nota. 

Acontece que, quanto mais e mais pesquisava para o artigo, menos à vontade eu ficava para defender, aprofundar ou refutar qualquer tese. Quem era eu na fila daquele pão?

*****

Não pude assisti-la na ocasião de sua recente passagem pelo Espírito Santo, mas juro que tive duas boas razões: o auditório em que a senhora faria a palestra estava absolutamente lotado e meus companheiros de feira literária naquele fim de tarde – um menino de 10 e uma menina de 13 anos – queriam ver as batalhas de rima embaladas pelo rap a meia dúzia de metros dali.

Meu primeiro contato com a sua visão das coisas datava de dois anos antes, uma frase potente estampada no jornal de domingo: “Vem de longa data a certeza, em minha mente, de que black is power and beautiful”. 

Às notas iniciais de seu recado com destino a Angela Davis se seguiram memórias da época em que a senhora ganhou coragem para enfrentar os deboches e a censura e, inspirada pela vasta cabeleira da vizinha norte-americana, deixou para trás o sacrifício do ferro quente e do alisar de cabelos. Concordo plenamente com o que a senhora escreveu, que o penteado de Angela Davis simboliza a beleza e a coragem dela. Quase consigo visualizar quando a senhora a abraçou e disse, baixinho: 

– Muito obrigada, my sister. 

Seu agradecimento é o de muitas de nós, pretas e brancas que aprendemos com Angela Davis a compreender a intrínseca relação que há entre raça, classe e gênero, desde a escravidão e suas terríveis consequências até o fato de a combinação entre racismo, pobreza e machismo colocar as mulheres negras em um lugar ainda maior de vulnerabilidade.

Projetos de dominação política, econômica, social, cultural ou doméstica são recorrentes na trajetória de inúmeras mulheres, na minha, na sua, na de muitas de nós. Quantas tivemos, temos ou teremos histórias afetivas e teias familiares que repetem o arcabouço das relações de poder nas quais estamos, rotineiramente, em larga desvantagem? Quantas nos calamos diante do som alto das vozes dominantes e do patriarcado, no trabalho ou no quarto?

A senhora e seus 72 anos de jornada bem sabem, tantas são suas histórias protagonizadas por mães, avós, tias, vizinhas, esposas, irmãs e filhas pretas e pobres que têm a opressão em comum, mas também a força. E que força.

Enredadas em dramas diversos, as tramas que a senhora traça reafirmam as difíceis condições de vida da população mais pobre, a violência, a negritude e a exclusão. Mas sua postura me soa subversiva e transformadora, porque tira  a mulher de um lugar predeterminado pelo passado e pelo preconceito, para estabelecê-la como figura detentora de saberes ora herdados dos ancestrais ora ofertados pela própria vida.

Penso nisto quando releio Ana Davenga ou então a saga da mãe que costurou a vida com fios de ferro, o caminhar de Cida na corda-bamba do tempo, a fome de Duzu-Querença. Penso nisto diante de Natalina e do filho concebido nos frágeis limites da vida e da morte, diante da menina Ayoluwa e seu nascer em boa hora para todos ou então diante da primeira de sete filhas que, desde cedo, buscou dar conta das próprias dificuldades.

De que cor eram os olhos da mãe dela?

*****

Mesmo em frente a desfechos muitas vezes trágicos, as mulheres que a senhora conta ocupam não mais um lugar unicamente marginal, mas um espaço de resistência repleto de significados. Sua escrevivência – palavras que peço licença para repetir por aqui, pela incrível força que têm – não foi escrita para ser lida como história de ninar os moradores da casa-grande, mas para incomodá-los nos seus sonhos injustos. 

Tenho a impressão de que, como as leituras mais profundas, questões pessoais são capazes de estimular a transformação em mulheres oprimidas, de maneira consciente ou não. Acredito que certas práticas podem abrir portas para percepções, compreensões, reflexões, conexões e quem sabe revoluções.

Afinal, o que escondem as histórias que a senhora escrevive além do hábito de contarmos umas para as outras a verdade sobre nossas dores? Quais vivências entre as que a senhora narra, misturando a crueza da realidade com a mágica de seus ancestrais, nos são comuns? Quanto há daquilo que as vizinhas falavam cravado na minha pele branca de origem árabe e na minha família preta?

E os seus? Quem como onde quando e por que aparecem, e o que nos dizem? Quase que vejo em Duzu, Davenga, Natalina, Cida e cia um pouco dos ensinamentos de seu tio Oswaldo Catarino Evaristo sobre Martin Luther King, Malcolm X, Patrice Lumumba e Nelson Mandela. Um pouco dos dias que a senhora passou como militante da Juventude Operária Católica da Belo Horizonte natal. Um pouco de – outra vez – Angela Davis e aquela vasta cabeleira feita de beleza e coragem.

Falar de nossas questões nos permite mergulhar na essência de aspectos que, de tão pessoais, são também universais. Talvez seja um pouco o que acabei por fazer aqui, nesta carta aberta que tomo a liberdade de rascunhar para a senhora. Se a opressão de gênero, de poder e de raça do espaço público costuma se repetir no espaço privado, textos como os seus são lugares de luta por participação e transformação repletos de potência.

Tenho consciência de que sou privilegiada,  a despeito das dificuldades pelas quais passei, dos meses em que o que tínhamos não dava para tudo, das dores que carrego e nem sempre me permito compartilhar, dos dias em que elas pareceram intransponíveis.

[Não foram].

Hoje entendo que o lugar de onde assisto os acontecimentos e me posiciono a respeito deles facilita a ida e a volta para casa, além da travessia em si mesma. Agradeço aos deuses e deusas, à criação que tive, às leituras que fiz, às ausências e saudades, ao tempo e ao modo como aprendi com ele a olhar a vida. Agradeço à senhora, por sua escrevivência, pela inspiração e pelo amor que seus textos transbordam, mesmo os mais áridos.

Sabemos o que as autoridades fingem ignorar. Que há 5 milhões de famintos em nosso país. Que ditaduras são sombrias. Que o racismo segue firme em quase todo lugar. Que o machismo mata. Que a violência caminha par e passo com a desigualdade social, a falta de escolas, a ausência de perspectivas e a omissão do Estado.

Mas conhecemos bem [ufa!] a capacidade de cura da fala, da escuta, da escrita e da leitura. Sabemos, eu, a senhora e muitas outras, o quanto o compartilhar de histórias nos fortalece, o quanto grupos de apoio nos estimulam a superar dores, projetos de dominação, perdas, a solidão, a falta de afeto e a opressão. 

Acredito que temos uma pequena noção do quanto ainda há por fazer. 

Obrigada por nos iluminar nesta caminhada.

Com um fraterno abraço,

Ana Laura Nahas

carta para quando felipe souber ler

Querido afilhado,

Este ano infelizmente não pude comprar um presente para o seu aniversário. As coisas estão ligeiramente difíceis – você vai entender quando estiver um pouco mais crescido. A economia anda ressentida, as pessoas andam sem rumo. A política então nem se fala: crise de um lado, desesperança de outro, e os sujeitos em quem um dia confiamos para cuidar do nosso país gastam o tempo deles e o nosso dinheiro tomando conta apenas dos interesses deles mesmos.

Confiança, você vai saber também, é um sentimento incrível. Não se perca dela, mesmo quando as coisas apertarem. Você vai aprender um dia que a palavra confiança vem do latim con fides, com fé, e espero que a sua fé esteja fortalecida, em Deus, na Física, na música, no tempo e nas pessoas, apesar dos medos, das decepções, das expectativas desfeitas e das provas em contrário.

Quando as coisas apertarem, lembre-se também dos tempos de criança, quando seu riso fácil enchia os nossos domingos de alegria.

Sei o quanto a sua chegada foi esperada. Desejo que você cresça forte, feliz e saudável, que tenha no Pedro um irmão tão maravilhoso quanto seu pai é para mim, que encontre uma linda parceira, como sua mãe é para nós. Desejo que aprenda coisas novas todos os dias e que tenha a simplicidade e a leveza como companheiras.

Peço também que você saiba ser justo, porque o que dá a verdadeira dimensão de um ser humano não é o quanto ele é grande, rico ou poderoso, mas principalmente o quanto ele é justo. Torço para que você supere com tranquilidade as dificuldades [e que de preferência elas sejam bem poucas]. Torço para que você entenda também o quanto elas nos ajudam a crescer, mesmo que na hora não pareça.

Espero que o preconceito passe longe dos seus olhos, que a intolerância não tenha morada no seu coração, que a maldade esteja distante do seu espírito. O mundo nem sempre é bom, mas muitas vezes [ufa!] há gente de boa índole e boas intenções para nos estimular a amar, construir, compreender, criar e perdoar. Reme com eles a favor de um mundo mais equilibrado, menos violento, mais tolerante, menos mesquinho. Faça a sua parte, mesmo que modestamente.

Com todo o amor da sua madrinha,

Ana Laura

carta aberta a ruth manus [ou das coisas em caixa alta]

Prezada Ruth,

Oficialmente não nos conhecemos, mas volto de um longo e tortuoso inverno para dizer que sei exatamente como você se sente. Tenho sido também uma lamentável devedora de mim mesma, e minha lista de pendências guarda imensas semelhanças com a sua: faturas que não emiti, documentos que não revisei, e-mails que não respondi, ligações que não retornei, tarefas cotidianas que não cumpri, com ligeiras adaptações aqui e ali.

Suspeito que há muitos mais em situação parecida com a nossa.

A cabeça acelerada mantém o resto do corpo desperto. O estômago dói. Os ombros pesam o peso do mundo inteiro, irradiando a dor que corre nas veias. A ingratidão daquela noite anterior ainda entristece, e muito. A lógica é implacável e cruel: não importa o que a gente fez de bom; importa apenas aquilo que ficou faltando.

Às vezes o ar, de fato, rareia. A angústia, tão bem descrita por você no desabafo publicado no jornal de uns meses antes, diz exatamente o que muitos de nós andamos sentindo, que somos pouco, que fazemos pouco, que concretizamos pouco. Pior: que lidamos mal com os limites e a finitude da nossa capacidade.

As questões que você coloca também me acompanham. Como administrar uma culpa deste tamanho? Como ser mais compreensivo com as nossas falhas e acreditar que, a despeito de todas as dificuldades, somos a melhor versão do que dá para ser?

Você tem toda razão, Ruth. Temos sido extremamente duros com nós mesmos, e de fato é como se as ausências gritassem dentro da nossa cabeça, escritas em caixa alta.

Hoje trabalhei muito. MAS NÃO FUI À ACADEMIA. Hoje fui à academia. MAS COMI AQUELAS PORCARIAS NO ALMOÇO. Hoje eu comi bem. MAS NÃO ENTREGUEI O RELATÓRIO. Hoje eu terminei o relatório. MAS NÃO LIGUEI PARA A MINHA AVÓ. Hoje eu falei com a minha avó. MAS NÃO RESOLVI AQUELAS COISAS DO BANCO. Hoje eu fui ao banco. MAS ACABEI TRABALHANDO POUCO. Hoje trabalhei muito. MAS DORMI POUCO. Hoje dormi bem. MAS ACORDEI TARDE.

É hora de parar. Reservar as letras de caixa alta para as conquistas, até as menores, as tarefas cumpridas, o encontro que terminou bem, a receita bem-sucedida na cozinha, a noite em que pedalamos depois de tudo, o olhar afetuoso de quem sabe valorizar os esforços alheios, mesmo os de menor resultado. É hora de parar. Reservar as letras grandes para as vitórias, até as menores, a tarde em que o equilíbrio se manteve apesar de tudo, a disciplina que deu resultado, a canção que conseguimos tocar inteira, apesar do excesso de sustenidos e bemóis.

É hora de parar. CHEGA DE GRITAR O QUE NÃO FIZEMOS. A vida pode até não dar trégua, mas nós precisamos dar.

#do baú: os blogs e as batatas da perna [ou carta aberta a bernadette lyra]

Vitória, 10 de abril de 2006

Querida Bernadette,
Como tantos, sou sua fã, tanto que – dá licença de eu usar uma expressão sua? – até me doem as batatas da perna. Por isso, e outros istos, depois de ler aquela sua crônica e apesar do medo de soar mais abusada e mais pretensiosa do que gostaria, resolvi iniciar aqui a campanha “Queremos Bernadette Lyra na blogosfera”.

Tenho cá as minhas questões também e, como parece que andamos dadas a confissões neste outono, confesso que não sou muito de tecnologia. De celular entendo pouco, só atender, ligar, mandar os torpedos que a operadora faz por um precinho camarada e, bendita invenção da humanidade, identificar quem liga antes de atender – ou, apenas nos casos extremos, juro, não atender.

De computador sei ainda menos, escrever estes textos, e-mail, MSN, filme que não passa nos cinemas daqui, música que não tenho em disco, e acabou. Sou, afinal, daquela amante à moda antiga, do tipo que ainda quer jornal, revista e livro em papel, papel de verdade, com orelha, tinta soltando e cheiro de mofo. Acho que nem todos têm espírito dotado da capacidade matemática necessária pras coisas de tecnologia. Eu certamente que não tenho.

Mas o blog não, menina, sabe que ele até me inspira?

Comecei com aquele pé atrás que você pode imaginar, depois de passar por estas fases todas, a de achar espalhafatoso demais ter um diário na Internet, a de pensar que os comentários naquela linguagem besta de menino que fugiu da escola eram o que de pior pudesse haver no mundo das letras, a de passar horas conversando com amigos que tinham já seus endereços devidamente registrados, atualizados, divulgados e comentados; e eu nada.

Não entendia a razão de tanta comoção. Uma noite, depois do show de uma banda querida e de uma única dose no bar de sempre, resolvi, como dizem, ver qual era. Escolhi nome, formato, endereço e cor, assim mesmo, como se escolhe o nome do filho, o formato do bolo, o endereço do primeiro encontro ou a cor do cabelo depois de curto [Cereja, meu Wellaton favorito], e escrevi, desembestada, o primeiro post da minha vida.

Então eu tinha um blog – e olha que a palavra blog dá também um pouco nos meus nervos, sabe? – e ali cabia de tudo um pouco, da corrida-caucus do Alice no País das Maravilhas que li em edição de bolso ao dia em que faltou água e parecia o fim do mundo; do astro da música pop que saiu do armário, liberou geral, ao meu desgosto com as letras maiúsculas; do kit insônia feito de livro pra ler de noite, abajur, rádio, garrafa de água, bloco com lapiseira e remédio de dor de cabeça na manhã seguinte aos sentimentos, quase todos.

Até declaração de amor teve uma vez, acredita?, e o cretino nem comentou.

Verdade que tem dias em que penso em apagar tudo, gastar tempo e palavras com outras intimidades, cuidar da pilha que acumula páginas e poeira na estante do quarto, de Goethe, Clarice, Hemingway e Carmélia, Drummond, Bukowski, Neruda e Cortazar, ou nada disso, passar horas olhando a vida, o tempo, o vento, as escolhas e as interrogações, dependurar no telefone para pôr as fofocas em dia, ouvir a voz macia de Ella ou aquele roquezinho antigo que traz a saudade de brinde; aquela coisa de ter mais o que fazer, sabe?

Mas logo desisto. Penso na minha amiga que passa por ali todos os dias e diz que quase nunca sabe o que dizer, desconcertada com alguma coisa que não sei bem. Penso nos que moram longe e talvez nem saibam a falta que fazem. Penso naquele nome de seis letras e um ponto que apareceu por lá, e de novo e outra vez, virou amigo, trouxe outros amigos e foram todos entrando, muitíssimo bem-vindos.

Penso na menina – Nina – que nunca vi, e gosto como se tivesse visto. Penso nele, silencioso, e nos outros, poucos, mas fiéis e adoráveis, e aposto que você teria muitos mais e igualmente fiéis e adoráveis leitores para as suas ideias, as suas prosas e os seus versos, as choramingas, inclusive. Porque, devo dizer, estas coisas surpreendem a gente. Faz um blog, vai.

da série leituras: não mexam no cabelo dele

NÃO MEXAM NO CABELO DELE
Uma carta ao presidente dos Estados Unidos escrita por três fãs diante da convocação do cantor Elvis Presley para servir ao Exército norte-americano na Segunda Guerra Mundial

Noxon, Mont, 1958

aspas Prezado presidente Eisenhower,

Minhas amigas e eu estamos escrevendo de Montana, nós achamos que já é ruim o suficiente mandar Elvis Presley para o Exército, mas se cortarem as costeletas dele nós simplesmente vamos morrer! O senhor não sabe o que sentimos por ele, eu realmente não entendo por que o senhor tinha de mandá-lo para o Exército, mas nos imploramos, por favor, por favor, não corte o cabelo dele como o dos outros recrutas, ah, por favor, por favor! Se fizer isso nós vamos morrer!

Adoradoras de Elvis Presley
Linda Kelly
Sherry Bane
Mickie Mattson

Presley
Presley
ESSE É O NOSSO GRITO
P-R-E-S-L-E-Y

carta aberta a milson henriques

postar-milson
Ilustração: Clara Nahas

Querido Milson,

Escrevo esta carta logo depois de um telefonema seu. É domingo. O futebol na televisão denuncia a deliciosa supremacia do prosaico: comida na mesa, bolo no forno, cheiro de café fresco, as flores ajeitadas nas garrafas de cores variadas, os jornais do dia espalhados pelo sofá, o livro da vez imediatamente posto ao lado.

Falamos da vida, das tarefas, dos projetos, dos afetos e dos desafetos. Falamos do medo, do futuro e do alívio pelo cabelo que não caiu com as sessões de quimioterapia. Falamos da maldade e do egoísmo, da política e da vaidade, da arte e da memória. Falamos de janeiro, da Noruega, do filme por vir e do modo como determinados porvires alimentam o corpo inteiro com a melhor das esperanças.

Falamos dos dias em que falta coragem.

Esqueço por um instante que há um ateu do outro lado da linha; anarquista, humanista e ateu, poeta esquerdo melancólico e pecador convicto. Esqueço, Milson, do tempo, dos perigos da vida, do sumiço dos óculos da Carmélia, do futebol que denunciava a deliciosa supremacia do prosaico.

Emendo, em pensamento, que temos um santo em comum, um poeta como você, canhoto do corpo e gauche da alma, que por culpa da lua e do conhaque põe a gente comovido como o diabo.

Celebro por termos Drummond em comum. Quero contar de quando, como você, abandonei a geladeira naquela cidade cinza e voltei para o sol – trouxe apenas os imãs da Betty Boop, uma caneca de chá e um ano a mais na bagagem. Deixo para a próxima, o telefonema seguinte, uma visita quem sabe, um café talvez.

Tomo nota mentalmente do seu gosto pela palavra ocaso, sua atração pelo começo e pelo fim, largada e chegada, infância e velhice, a criança que ainda não sentiu a dor da perda, nunca leu o santo Drummond que cultuamos em comum, nunca ouviu Tom Jobim, Chet Baker, nunca chorou ouvindo o Adágio de Albinoni, e o idoso que cobriu todas as mágoas e dores com a areia grossa da amargura.

Acredito que você não se importe com o aberto desta carta, publicada antes de ser entregue, enviada assim, a descoberto. Vivemos como na canção, entre o escancaro e o contido, quietos no canto da gente, mas expostos no que tornamos público em livros, crônicas soltas e estes escritos [meu caso] e em livros, escritos de jornal, desenhos, quadrinhos, declarações, saraus, poemas, peças e filmes [no seu].

Torço, com o coração inteiro, para que seu otimismo seja tão logo também meu, que tenho tido mais trabalho por fazer que fé em certos tipos de homens e mulheres, mais dúvidas que disposição para ginástica, mais medo de determinados vivos que da maioria dos mortos. Torço, igualmente, para que em breve estejam restaurados os glóbulos brancos de seu sangue e a minha fé na humanidade. Torço, por fim, para que janeiro bata logo em nossas portas e aquele trecho certeiro, perdido numa outra revista, seja a cada dia mais meu, seu, de todos nós:

– Quanto maior me faço, mais simplifico minha vida.

Com todo o meu afeto,
Ana

 

da série leituras

DÊ CORDA NO RELÓGIO
Uma carta do escritor E.B. White a um homem que queria saber sua opinião sobre o que considerava um futuro sombrio para a humanidade
North Brooklin, Maine, 30 de março de 1973

aspas Caro sr. Nadeau:

Enquanto houver um homem íntegro, enquanto houver uma mulher compassiva, o contágio pode se alastrar e a perspectiva não é desoladora. Esperança é o que nos resta em tempos difíceis. Vou me levantar no domingo de manhã e dar corda no relógio, contribuindo para a ordem e a estabilidade.

Os marinheiros têm uma expressão para definir o tempo: dizem que o tempo é um grande blefista. Acho que isso também é verdade em relação à nossa sociedade – tudo parece sombrio, e então as nuvens se abrem, e tudo muda, às vezes de repente. É óbvio que a humanidade transformou num caos a vida neste planeta. Mas, como povo, provavelmente trazemos em nós sementes do bem que desde muito esperam pelas condições adequadas para brotar. A curiosidade, a inflexibilidade, a inventividade, a engenhosidade do homem o levaram a sérias dificuldades. Só podemos esperar que o ajudem a sair delas.

Segure o chapéu. Agarre-se à esperança. E dê corda no relógio, pois amanhã é outro dia.

Cordialmente,
E.B. White

carta aberta aos amigos do peito

A verdade é que ando profundamente em falta com vocês.

Eu podia depositar a culpa na raridade do tempo, nas tarefas postas na lista robusta de tarefas postas, nas obrigações, urgências e emergências enfileiradas como credores impacientes à espera de um sinal, na agenda com mais atribuições que prazeres. Podia responsabilizar o tamanho do trabalho, reuniões para participar, contas para fazer, gavetas para organizar, projetos para realizar, prazos para cumprir, um depois do outro, como a autoridade policial à espera do deslize.

Podia reafirmar o fato de a coluna pesar o peso todo do mundo ou então trazer à tona os dias em que o que pesa além da conta são os olhos, supermercado, academia, conserto, a compra que a loja entregou errado, o condomínio, a geladeira, a faxina, banco, jantar, o exame que exige paciência, o encanador, a cadeira, a formatura, a visita, a encomenda, a culpa, o horário, a vida, o peso todo.

Eu podia dizer que simplesmente não deu, que o desalento venceu a força do braço, a criatividade desapareceu do mapa que norteia as palavras e as coisas. Podia dizer que os pratos ficaram pela pia, que o desânimo superou o planejamento, o cansaço engoliu o compromisso, a vontade sumiu do mapa que norteia ideias e planos.

Podia dividir a angústia dos dias em que não consegui encontrar o equilíbrio entre o gosto e a necessidade, fazer as unhas, cuidar da casa, entregar o projeto para o chefe, visitar a feira de orgânicos, sorrir para o marido, aprender francês, entender os apps, escrever um pouco e quem sabe ter espaço, tempo e a disposição certa para testar a receita daquela torta de maçã e canela que derrete na boca.

[Delícia].

Mas a verdade é que ando profundamente em falta com vocês.

As mudanças que não acompanhei, as vitórias que não contei, os dias e respectivas noites que se passaram sem que eu soubesse onde vocês estavam, e fazendo o quê, não representam o meu afeto ou consideração. Os desencontros não condizem com as minhas saudades, nem os silêncios com os meus planos. Ao contrário: queria saber do desfecho daquela história de amor, conhecer os projetos para o próximo ano, ter de volta as madrugadas em que pareceu que seríamos inseparáveis.

Não fomos.

Certas ausências ocupam um espaço tão discreto e constante que é como se sempre tivessem estado ali. Outras, ao contrário, latejam como o corte de outro dia na mão, um minuto de distração, ossos à mostra, as veias trabalhando como numa cena de um filme B de gosto duvidoso, cinco pontos costurados rente. A falta que fazem meus amigos do peito se parece mais com as últimas, embora seja também potente a verdade guardada nas linhas do Poetinha a respeito da amizade:

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Torço para que a existência de vocês seja como as zamioculcas, uma espécie de planta tão bonita quanto resistente aos anos, tão afeita à praticidade quanto generosa com os descuidos ocasionais, tão suave quanto pouco exigente com regas e adubações. Torço para que os dias que se seguem a esta carta aberta sejam férteis em reencontros, apesar da raridade do tempo, da lista robusta de tarefas postas, das obrigações, urgências e emergências enfileiradas como credores impacientes à espera de um sinal.

Torço por nós, mesmo que a distância.