sem representatividade não dá

Até bem pouco tempo atrás, colocar temas ligados à diversidade em prática era uma postura esperada somente de empresas com essência inovadora. A recente decisão da tradicional Victoria’s Secret de cancelar seu famoso desfile anual mostrou que há algo novo no ar. Ao que tudo indica, abrir as portas para a diferença deixou de ser apenas uma opção para se tornar uma estratégia de sobrevivência.

A grife de roupa íntima e cosméticos passou o último ano acossada por severas críticas diante da falta de pluralidade de seu elenco e de uma visão ultrapassada sobre os valores femininos. Mulheres que, aos poucos, aprendem a aceitar o próprio corpo, suas particularidades e imperfeições, não se vêem mais representadas pelas modelos com medidas padronizadas, rostos irretocáveis e tudo no lugar que são a cara da Victoria’s Secret.

Fundada em 1977, a organização sempre orbitou em torno de uma visão masculina a respeito da sexualidade feminina. Valia a tese de que uma mulher sensual é aquela que os homens consideram sensual. Com o passar dos anos, a ideia de uma marca que explora o conceito de mulher-objeto e, mesmo que indiretamente, permite ou estimula comportamentos desrespeitosos contra elas abalou a grife norte-americana.

Em tempos de Me Too, o movimento de empatia e sororidade que colocou o assédio sexual em debate ao redor do mundo, a Victoria’s Secret sumiu da lista das 10 favoritas do mercado adolescente. A seleção, feita recentemente pela consultoria Piper Jaffray, tem como líder deste ano a gigante esportiva Nike.

Coincidência ou não, a Nike tem levantado abertamente as bandeiras da diversidade e da inclusão. De uns tempos para cá, ações contra o racismo, a xenofobia e a intolerância religiosa, bem como a defesa de causas LGBTI+, passaram a frequentar as campanhas de publicidade, as políticas de patrocínio e as rotinas internas da companhia.

Uma marca parece compreender profundamente o que a outra nem suspeita (ou demorou demais para entender): que, independentemente do seu tipo de negócio, não dá mais para manter colaboradores que não dialogam com a diversidade de seus consumidores.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 30 de novembro de 2019.

desculpa, morgan freeman [ou porque precisamos de um dia da consciência negra]

Sempre que esta época chega, ano após ano, religiosamente, alguém decide desenterrar o vídeo em que o ator norte-americano Morgan Freeman diz que o dia em que pararmos de nos preocupar com consciência negra, amarela ou branca e nos preocuparmos com a consciência humana, o racismo desaparece.

Apesar das raízes de Freeman e da cor da sua pele (ou talvez por isso mesmo), a fala costuma servir de munição para os que criticam a existência do Dia da Consciência Negra. O que a citação e suas repetições revelam, no entanto, é justo o oposto: que ainda precisamos muito de lugares, figuras públicas e datas dedicados a questões sobre o racismo e a contribuição da cultura afro para a sociedade brasileira, ontem e hoje.

O dia escolhido – 20 de novembro – coincide com o da morte, em 1695, de Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra no Brasil e um dos maiores líderes das causas dos descendentes de africanos por aqui. A data difere das celebrações do 13 de Maio porque muitos questionam a legitimidade das comemorações em torno da Abolição da Escravatura. O que se diz, em resumo e com todo sentido, é que a lei abolicionista atendia muito mais a interesses econômicos da elite do que aos escravos, que tiveram zero de estrutura para começar a vida em liberdade.

Longe de ser vitimista, racista ao contrário ou divisionista, como dizem os críticos, o 20 de Novembro existe para levantar questões infelizmente ainda muito atuais.

Por que o salário de um gerente de vendas branco bate os R$ 110 mil enquanto o de um negro, na mesma função, não chega a R$ 48 mil (dados publicados na última semana)? Por que pretos em cargo público ganham R$ 3 mil a menos do que brancos? Por que, ao noticiar este dado, o jornal dá protagonismo aos últimos (“Brancos ganham até R$ 3 mil a mais do que pessoas pretas”) e não o contrário (“Pretos ganham até R$ 3 mil a menos do que brancos”)?

Como justificar que a taxa de assassinatos entre os pretos é quase cinco vezes maior do que entre brancos? Como dizer que somos iguais e que o que importa é a consciência humana numa sociedade que oferece chances tão menores aos negros?

É histórico o débito que temos com o povo preto. Nosso desafio é olhar para essa causa com envolvimento, solidariedade e máximo respeito. Não falar sobre racismo não faz o racismo desaparecer. Um dia dedicado a debatê-lo, a valorizar a igualdade racial e a estimular a desconstrução de um século inteiro de preconceitos é o mínimo que podemos fazer.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 23 de novembro de 2019.

ohana [ou o que podemos aprender com o presidente da melhor empresa para se trabalhar no mundo]

Uma interessante palavra-chave guia a gestão da Salesforce, a companhia que hoje ocupa o primeiro lugar no ranking de melhores empresas do mundo para se trabalhar. É ohana, expressão de origem havaiana que significa que pessoas queridas, ligadas ou não pelo sangue, devem cuidar umas das outras.

Acontece que este aparente papo de bicho-grilo norteia não um empreendimento alternativo às margens de Woodstock, mas um meganegócio da área de tecnologia, com mais de 30 mil funcionários espalhados por 11 países.

Seu principal executivo, Marc Benioff, tem um perfil peculiar. Dono da influente Revista Time, ele concilia ativismo social, filantropia e técnicas avançadas de showman com uma fortuna de mais ou menos 7 bilhões de dólares.

Para colocar o conceito de ohana em prática, Benioff elegeu como pilares centrais o desenvolvimento dos recursos humanos, o bem-estar dos colaboradores e a promoção de políticas de diversidade e inclusão.

Os resultados têm sido repetitivamente reconhecidos, mesmo pelos filtros mais conservadores. A Salesforce foi eleita a empresa mais inovadora do mundo pela Forbes, o melhor lugar para se trabalhar pela Fortune e a 15ª empresa mais admirada do mundo, também pela Fortune. Benioff, por sua vez, ganhou da Forbes o posto de Inovador da Década e conquistou o terceiro lugar na lista de Empresários da Fortune.

O empresário conseguiu aliar o melhor de dois mundos. De um lado, criou produtos que o mercado valoriza. De outro, construiu um ambiente de trabalho inovador e democrático que desenvolve, por exemplo, a cultura de nivelar os salários entre colaboradores que executam tarefas semelhantes.

Por óbvio que possa parecer, a prática combate injustiças que historicamente afetam as mulheres, os negros e as minorias. Os resultados falam por si. Segundo a respeitadíssima consultoria McKinsey, empresas com maior diversidade de gênero nas equipes têm lucros 21% acima da média. Em organizações com diversidade étnica, os ganhos são 33% maiores.

Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 16 de novembro de 2019.

sororidade em cinco pequenos atos

Outro dia falávamos da enorme frequência com que reproduzimos comportamentos machistas às vezes até sem perceber e de como desconstruí-los passa pela prática cotidiana de cada um de nós.

Quando o ataque contra mulheres parte das próprias mulheres, é preciso, mais do que nunca, reforçar o debate feminista e colocar em prática uma palavrinha ainda pouco conhecida, mas muito potente: sororidade.

Sororidade tem a ver com empatia, respeito e solidariedade. Embora ainda não conste da maioria dos dicionários da língua portuguesa, o substantivo feminino formado a partir do prefixo soror (do latim: irmã) ecoa diariamente nas atitudes daquelas que protegem, apoiam, fortalecem, estimulam e incentivam a potência de outras mulheres.

Sua prática aponta para a convicção de que meninas não precisam odiar outras meninas, não precisam rivalizar com elas, não precisam sustentar preconceitos históricos que incitam a disputa, não precisam se vestir para elas nem considerá-las como concorrentes.

A exigência é uma só: que nos coloquemos umas no lugar das outras. Por mais difícil que pareça e por mais que culturalmente sejamos treinadas para o contrário, praticar a sororidade ajuda a enfraquecer estigmas e fortalecer movimentos contra a violência doméstica, as injustiças profissionais, as desigualdades de gênero, o massacre de padrões que não conseguimos alcançar, o domínio masculino sobre nossas crenças.

Vamos juntas?

▶ Que tal, sempre que possível, divulgarmos e consumirmos o trabalho de outras mulheres?

▶ O que acham de banirmos as palavras vagabunda e vadia do nosso vocabulário e parar de responsabilizar as mulheres pelas escolhas de um homem comprometido?

▶ Hoje é um bom dia para deixarmos de julgar mulheres por terem atitudes diferentes das que nós teríamos, incluindo escolhas relativas a roupas, relacionamentos, trabalhar ou não fora de casa, ter ou não ter filhos.

▶ Situações de risco ou necessidade emocional pedem postura solidária. Com raras exceções, o melhor a fazer é oferecer apoio, ouvido, ombro e um total de zero julgamentos.

▶ Lembrar para não esquecer: mulheres não precisam ser rivais, a despeito do que ouvimos por anos a fio.

Pode parecer óbvio, mas a verdade é que fomos criadas, com raras exceções, para colaborar com os homens e competir com as mulheres. Lutamos para alcançar postos mais altos na carreira profissional, custe o que custar. Mas esquecemos que, quanto mais progredirmos, maiores as chances de levarmos outras mulheres conosco e maiores as possibilidades de implantarmos políticas de inclusão e igualdade nas empresas.

Os números apontam que a estratégia é, inclusive, um bom negócio. Para citar apenas um dado: segundo estudo de 2007 feito pela McKinsey, empresa norte-americana reconhecida como a líder mundial no mercado de consultoria empresarial, organizações que têm equipes executivas com maior diversidade de gênero alcançam lucros 21% acima da média; se a diversidade for étnica, os lucros sobem 33%.

Há uma onda conservadora em curso, que tenta naturalizar comportamentos violentos, justificar desequilíbrios e desmerecer bandeiras da caminhada feminina por liberdade, igualdade e justiça. Independentemente do lado em que você se posiciona, saiba que ser mulher em tempos como esses tem exigido um bocado de nós. Se existe uma coisa que nos fortalece neste cenário é seguirmos juntas, a partir dos pequenos atos.

feminismo não é mimimi

Pensa comigo: quantas vezes você ou alguém muito próximo julgou uma mulher pelo que ela vestia ou pelas atitudes que teve? Quantas vezes achou que a culpa de um flerte ou de uma traição eram da mulher? Quantas vezes você já ouviu ou repetiu que nosso interesse é competir com outras mulheres, que nos vestimos para impressionar “concorrentes”? Quantas vezes essa rivalidade foi, de fato, defendida como natural?

A frequência com que reproduzimos comportamentos machistas, às vezes até sem perceber, é enorme. Desconstruí-los é essencial para a evolução da sociedade, num caminho que passa pelo ambiente familiar, pela escola, pelo mercado de trabalho, pelos meios de comunicação e pela prática cotidiana de cada um de nós.

Os números não estão para brincadeira. O Brasil ostenta a quinta maior taxa de feminicídio do mundo, crime no qual o agressor geralmente tem ou teve algum envolvimento com a vítima. O índice de estupros bateu os 66 mil em 2018, mais de 180 registros por dia, segundo o Anuário de Segurança Pública. Enquanto as mulheres formam 51,7% da população brasileira, nas camadas de decisão das empresas elas ocupam apenas 13,6% dos cargos executivos.

Os registros são diretamente alimentados por comportamentos machistas, inclusive os que reproduzimos sem perceber, e reafirmam a importância de levarmos, a todas as esferas possíveis, a bandeira de que defender os direitos da mulher não é mimimi.

Graças ao feminismo, hoje podemos votar, trabalhar, frequentar a universidade, terminar um casamento infeliz, denunciar parceiros violentos. Graças a ele, mais mulheres ocupam cargos de liderança nas organizações e, ao que tudo indica, muitas mais chegarão lá, com salários justos e respeito dos colaboradores.

Graças ao feminismo, podemos defender que as mulheres tenham liberdade sobre o próprio corpo, que possam realizar suas escolhas livres do massacre dos padrões estabelecidos como certos, que decidam por si o que fazer com os próprios pelos, o voto ou um relacionamento que não desejam manter.

Convenhamos: ninguém merece morrer por isso.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 2 de novembro de 2019.

hermeto pascoal, o jazz e o poder da diferença

Se há um artista que representa a diversidade da música popular brasileira e, de algum modo, a diversidade do próprio Brasil, este artista é o gênio albino, baixinho, gordinho, estrábico e quase cego Hermeto Pascoal.

Nascido em Olho d’Água das Flores, no sertão de Alagoas, o filho de dona Divina e seu Pascoal se aproximou de melodias e harmonias ainda criança, primeiro ouvindo passarinhos, depois dedilhando uma sanfona de oito baixos e, em seguida, tocando piano, cavaquinho, flauta, violão, órgão, sax, vento, garrafa, copo com água, chaleira, máquina de costura e o que mais visse pela frente.

Sempre atento aos sons da natureza e às múltiplas possibilidades de tirar barulhos novos de instrumentos inventados, o bruxo alagoano brindou Vitória, no último sábado (19), com uma apresentação à altura do homenageado Marien Calixte, saudoso jornalista, escritor, radialista e colecionador de discos que nos deixou no Natal de 2013.

Carioca radicado no Espírito Santo desde os primeiros tempos de vida, Marien comandou por 52 anos o programa de rádio O Som do Jazz, reconhecido como o mais longevo da América Latina na história das atrações dedicadas ao gênero. Para celebrar seu legado, nasceu o Marien Calixte Jazz Music Festival, que teve Hermeto e suas experimentações como convidados especiais desta primeira edição.

É para o jazz que Hermeto volta, invariavelmente, depois de passear por dezenas de ritmos com sutileza, elegância e precisão. O jazz que muitos de nós aprendemos a reverenciar com Miles Davis e John Coltrane, Chet Baker e Oscar Peterson, Nina Simone e Billie Holiday, Charlie Parker e Dizzy Gillespie. O jazz que Eric Hobsbawm nos ensinou a entender não apenas como um tipo de som produzido por uma determinada combinação de instrumentos tocados de uma forma característica, mas como uma realização extraordinária, um aspecto marcante do tempo em que estamos.

Se o jazz é comovente, escreve Hobsbawm, um historiador judeu nascido no Egito e radicado na Inglaterra, é porque homens e mulheres são comoventes. Se o jazz é um pouco louco e descontrolado, é porque a sociedade em que vivemos também é assim.

Pois o filho de dona Divina e seu Pascoal é tal e qual o jazz. Ainda hoje, aos 83 anos, Hermeto tem um modo de tocar comovente e também um pouco louco e descontrolado. Sua música pode ser ouvida não apenas como um tipo de som produzido por uma determinada combinação de instrumentos, mas como uma realização extraordinária, tal e qual o jazz segundo Eric Hobsbawm.

O jazz sempre foi uma manifestação da diversidade. Pelo modo como nasceu, pelo improviso que acompanha suas origens, pela variedade de figuras, acervos e memórias que compõem seus caminhos, desde o início até agora. Por tudo o que representa para a música e para a sociedade do século XX, especialmente.

Hermeto é revolucionário e plural como o jazz com suas raízes profundamente pretas, mas com frutos de inúmeras cores. Mais que isso: tal e qual o jazz, o gênio albino, quase cego, baixinho e gordinho nascido no sertão de Alagoas manifesta, por sua própria natureza, a riqueza e o poder guardados na diferença.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 26 de outubro de 2019.

nós brancos precisamos falar sobre o racismo

Para começo de conversa, é preciso dizer que olho e opino de um lugar bastante específico: apesar das raízes árabes herdadas do avô Abraão e da bisavó Zalfa, nasci branca. E isso muda muita coisa.

Sim, brancos têm privilégio simplesmente por serem brancos, a despeito das durezas na caminhada de cada um. Reconhecer o benefício historicamente agarrado na pele que habitamos é uma pequena contribuição, entre muitas possíveis, para a longa estrada que ainda separa a humanidade da igualdade racial.

A ideia não passa por negar o que somos ou invadir o combate alheio. Passa pela compreensão da dor que afeta o povo preto e seus ancestrais, pela noção do quanto a sociedade ganha com a diversidade e pelo entendimento, ético e político, de que a solidariedade não nasce apenas de experiências compartilhadas, como nos ensina bell hooks (assim mesmo, em minúsculas).

Com todo respeito, argumentos como “não é o meu lugar de fala” soam malandramente simplistas diante da complexidade de um país onde mortes violentas entre negros são 159% maiores do que entre brancos, 70% dos desempregados são pretos ou pardos e apenas 4,7% entre os que trabalham ocupam posições de liderança.

É verdade que tecer comentários sobre a opressão racial sendo branco significa falar sobre um tema que não nos pertence diretamente. É verdade que um branco não representa um negro nem tem legitimidade para julgar como ele se sente diante da discriminação. Mas é verdade também que um branco pode se posicionar a respeito do racismo a partir do lugar em que vê o mundo, com bom senso e empatia.

Calar sobre o assunto significa compactuar com o racismo estrutural, um sentimento cristalizado de tal forma na sociedade que, muitas vezes, manifestações claramente preconceituosas deslizam pelo cotidiano como se fossem música suave.

Não são.

Herança direta da escravidão, o racismo infelizmente persiste. Desconstruí-lo nos espaços de atuação pessoal, profissional e institucional é uma causa urgente para brancos e pretos, juntos e misturados.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 19 de outubro de 2019.

a menina, o cacique e a empatia

A contradição é profunda. Estamos cada vez mais conectados, mas nossa capacidade de ouvir e de incluir perspectivas diversas no modo como enxergamos o mundo caminha para o lado oposto. Temos Facebook, Instagram, LinkedIn, WhatsApp, Twitter, Skype e afins, mas somos incrivelmente limitados na hora de nos colocar uns no lugar dos outros. 

O que falta tem nome: empatia.

Empatia significa ver o mundo do ponto de vista do outro, com boa vontade e disposição. Para além do próprio umbigo, ser empático passa pelo interesse sincero em compreender perspectivas que nos são estranhas. A empatia ergue pontes ao invés de muros. 

Mais que isso, o propósito de compreender e se conectar verdadeiramente com o outro parece ser um instrumento potente na construção de ambientes abertos à diversidade. Diversidade – não custa lembrar – tem estreita ligação com a pluralidade de visões e com a inclusão de grupos que, no geral, não são adequadamente representados nas empresas, nos meios de comunicação e até mesmo nos nossos círculos de convívio. 

Por isso, falar de diversidade inspira, também, a falar de empatia. Nos ambientes de trabalho ou nos encontros que travamos pela vida, exercitar a arte de ouvir e de se colocar no lugar do outro é uma prática com enorme possibilidade de sucesso.

gretaA adolescente sueca Greta Thunberg faltou às aulas no dia 20 de agosto de 2018 para discursar contra a desatenção do poder público com relação ao aquecimento global. Seu questionamento expressou uma lucidez que a maioria de nós não espera de uma menina à época com 15 anos de idade (hoje 16): “Faço tudo isso porque vocês, adultos, estão cagando para o meu futuro. De que adianta ir à escola se não vai ter amanhã?”.

A jovem estimulou uma série de protestos ao redor do mundo e, em março de 2019, a primeira greve global de estudantes levou 1,5 milhão de manifestantes às ruas. Em 20 de setembro, mais de quatro milhões de adolescentes deixaram as escolas para gritar novamente contra as mudanças no clima. Três dias depois, Greta discursou na Cúpula de Ação Climática da ONU, em Nova York.

raoniTrinta anos antes, o cacique caiapó Raoni Metuktire já jogava luzes sobre temas ambientais. Hoje, aos 89 anos, ele guarda um longo histórico de defesa da floresta amazônica e dos povos nativos do Brasil. 

Nascido no Mato Grosso, Raoni tinha a idade de Greta quando recebeu em seu lábio inferior o icônico botoque, disco de madeira tradicionalmente usado por chefes de guerra e grandes oradores das tribos. De lá para cá, dedicou a vida à batalha pelos direitos indígenas e pela preservação da Amazônia.

A despeito do tempo que os separa, Greta e Raoni têm muito em comum, e é preciso que olhemos para eles com o olhar da dobradinha empatia-diversidade. Greta é uma menina com Transtornos do Espectro Autista (TEA), extremamente articulada e de enorme poder de mobilização. Críticos com zero empatia escolheram palavras como “retardada” e “vagabundinha” para desqualificar sua atuação. Raoni, um índio à beira dos 90 anos, também tem sido alvo de declarações pouco generosas a respeito da idade avançada e de sua origem indígena, vindas inclusive de representantes do país que ele luta para proteger.

A questão que aqui se coloca não é concordar ou discordar das causas que a menina e o cacique defendem, agora como 30 anos atrás. A questão passa por tentar compreender as visões e particularidades de cada um deles, com cortesia e respeito à diferença, independentemente das concordâncias ou discordâncias. É bom lembrar que, ao olhar para fora e para o lado, olhamos também para dentro.

Artigo publicado em A Gazeta no dia 12 de outubro de 2019.

diversidade: o que você e eu temos a ver com a palavra da moda?

Antes de mais nada, é preciso dizer que falar de diversidade não significa necessariamente falar de minorias. Falar de diversidade significa refletir sobre a pluralidade de visões, experiências, condição socioeconômica, origem, orientação sexual, gênero, raça, cor, e sobre a inclusão de grupos que no geral não são adequadamente representados, estando ou não em vantagem numérica.

Significa, por exemplo, ampliar a participação de mulheres nas esferas de decisão das empresas de uma nação majoritariamente feminina (51,7%, segundo o IBGE), em que apenas 13,6% dos cargos executivos são ocupados por elas (dados do Instituto Ethos coletados nas 500 maiores companhias nacionais).

Significa estimular que os negros de um país predominantemente preto (54%, de acordo com o mesmo IBGE e apenas 4,7% em posições de liderança, nos números do Ethos) enriqueçam culturalmente, evoluam profissionalmente e igualmente alcancem os espaços de poder. Significa fazer valer, sem meias palavras, o artigo quinto da Constituição Federal: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.

Falar de diversidade pressupõe compreender que temos, todos, o direito à diferença.

Pressupõe também, é claro, dialogar com as minorias que enfrentam obstáculos físicos e culturais impostos pelo preconceito, pela falta de políticas públicas adequadas e pela omissão de quem, simplesmente, não enxerga os diferentes. Pressupõe não ser insensível aos buracos que diariamente impedem uma pessoa com deficiência física de sair de casa.

Pressupõe não fingir que a matança de gays, bissexuais, travestis e transgêneros não existe – ela existe e ostenta um número que deveria envergonhar todo brasileiro: uma morte por homofobia a cada 16 horas, conforme relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

A boa notícia é que nunca se falou tanto sobre os ganhos de sermos plurais. A despeito da intolerância que assombra as ruas e as redes, ou talvez movidos por ela, marcas, grupos e indivíduos como eu e você passaram a promover a multiplicidade de olhares, o respeito pela assimetria e a formação de times heterogêneos como estratégia para obter bons resultados.

O diálogo está posto.

Representatividade importa e, para além do clichê, tem se mostrado um ingrediente e tanto no posicionamento de organizações e pessoas conectadas com as mudanças de seu tempo.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 5 de outubro de 2019.