das voltas que a vida dá

A vida dá voltas do jeito mais doido possível. Basta uma decisão errada e – catapluft! – as coisas saem do lugar de um modo que parece que nunca mais vão voltar para o endereço de origem.

No fundo a gente sabe que um dia tudo se ajeita, mas na hora, na hora, não. Na hora, o buraco esfrega seu tamanho na cara da gente de uma maneira tão vigorosa que falta tudo: chão, esperança, equilíbrio, tudo, até o ar.

A gente só respira porque sabe que precisa, como aprendeu, por puro instinto de sobrevivência, desde mais ou menos a décima oitava semana da existência. Respira e vai, colecionando dias e respectivas noites como Florentino Ariza em sua longa espera por Fermina Daza – cinquenta e três anos, sete meses e onze dias, para ser exato como o grande Gabito em sua inesquecível saga de encontros, desencontros e reencontros.

De repente, uma ou outra inspiração acenam de longe, depois se achegam um pouquinho mais. A respiração fica ligeiramente mais leve, o buraco aparenta ser algum tanto menor. Um pé depois do outro, a gente levanta e anda, como na canção: sonhar, seguir.

🎶 [Eu sei, cansa].

Um pé depois do outro, levantar, andar, sonhar, seguir, como na canção, a gente reaprende que a vida dá voltas e, de repente – catapluft! – as coisas se ajeitam e tornam a ocupar seu lugar de modo que parece que sempre estiveram ali. A vida dá voltas do jeito mais doido possível.

carta aberta a conceição evaristo

Vitória, 19 de julho de 2019

Estimada Conceição Evaristo,

Recentemente impus, de mim para mim mesma, uma tarefa sob vários aspectos desafiadora: produzir um artigo sobre a escrevivência como estratégia narrativa e política. Meu ponto de partida seria a perspectiva da segunda onda do movimento feminista, surgida entre as décadas de 1960 e 1970, de que o pessoal é político. 

O texto serviria como instrumento de avaliação em um curso na universidade a respeito da senhora e de Carolina Maria de Jesus, um curso em que aprendi um bocado, não apenas de literatura, mas também da vida, das diferenças, de perdas, das faltas e de afetos que a gente constrói até quando menos espera. 

Minha proposta, gentilmente aceita pelo professor, havia nascido de duas sementes plantadas ao longo das aulas, à espera de semeadura. A primeira era um depoimento em que a senhora contava que a origem de sua escrita estava no acúmulo do que ouviu desde a infância, nos que vieram antes da senhora, nos gritos das vizinhas debruçadas nas janelas ou nos vãos das portas, dizendo mazelas e alegrias umas para as outras. 

A segunda viajava um pouco para trás na linha formal do tempo. Um artigo escrito em 1969 por Carol Hanisch, uma jornalista como eu, jogava luzes sobre grupos em que mulheres compartilhavam dores, anseios, dúvidas e o que mais viesse como forma de suporte e superação. Hanisch entendia, como talvez também a senhora, o ato de dizer coisas em voz alta como um ato político, porque revolucionário na essência, gerador ou potencializador de transformações.

Como provavelmente também a senhora, ela defendia que devemos dizer aquilo em que acreditamos, ao invés daquilo que sempre nos foi dito para dizer. É possível que, para Carol Hanisch, o efeito de compartilhar histórias com outras mulheres era como o falar-e-ouvir de suas vizinhas, talvez a única defesa que havia contra a dominação machista, o preconceito, as dificuldades financeiras e outras durezas que assolam as mulheres, em especial as pretas.

Eu tinha a impressão, àquela altura e ainda agora, que a sua escrevivência seguia bem de perto o pessoal-e-político do artigo de 1969. O jogo de letras, sentidos e ideias nascido do encontro entre os verbos escrever, viver e ver combinava à perfeição com a literatura nascida daquele falar-e-ouvir de sentimentos, memórias e expressões das meninas mulheres da pele preta, como na canção, só que diferentes.

Minha intenção passava por reforçar, nesta perspectiva e a partir da leitura dos contos de “Olhos D’Água”, como questões pessoais no nosso ir e vir são também políticas. Como aspectos centrais da vida pública afetam o cotidiano de mulheres, o modo como constroem seus relacionamentos, a forma como alimentam – ou não – sua independência econômica e afetiva. 

Como os padrões fincados no mundo de todos entram na esfera doméstica para, em muitíssimos casos, refletir desigualdade, misoginia, machismo, patriarcado e seus valores. Como a degradação e a violência se estendem da rua à casa, das leis do trabalho aos laços de família, do que se vê para o que quase ninguém nota. 

Acontece que, quanto mais e mais pesquisava para o artigo, menos à vontade eu ficava para defender, aprofundar ou refutar qualquer tese. Quem era eu na fila daquele pão?

*****

Não pude assisti-la na ocasião de sua recente passagem pelo Espírito Santo, mas juro que tive duas boas razões: o auditório em que a senhora faria a palestra estava absolutamente lotado e meus companheiros de feira literária naquele fim de tarde – um menino de 10 e uma menina de 13 anos – queriam ver as batalhas de rima embaladas pelo rap a meia dúzia de metros dali.

Meu primeiro contato com a sua visão das coisas datava de dois anos antes, uma frase potente estampada no jornal de domingo: “Vem de longa data a certeza, em minha mente, de que black is power and beautiful”. 

Às notas iniciais de seu recado com destino a Angela Davis se seguiram memórias da época em que a senhora ganhou coragem para enfrentar os deboches e a censura e, inspirada pela vasta cabeleira da vizinha norte-americana, deixou para trás o sacrifício do ferro quente e do alisar de cabelos. Concordo plenamente com o que a senhora escreveu, que o penteado de Angela Davis simboliza a beleza e a coragem dela. Quase consigo visualizar quando a senhora a abraçou e disse, baixinho: 

– Muito obrigada, my sister. 

Seu agradecimento é o de muitas de nós, pretas e brancas que aprendemos com Angela Davis a compreender a intrínseca relação que há entre raça, classe e gênero, desde a escravidão e suas terríveis consequências até o fato de a combinação entre racismo, pobreza e machismo colocar as mulheres negras em um lugar ainda maior de vulnerabilidade.

Projetos de dominação política, econômica, social, cultural ou doméstica são recorrentes na trajetória de inúmeras mulheres, na minha, na sua, na de muitas de nós. Quantas tivemos, temos ou teremos histórias afetivas e teias familiares que repetem o arcabouço das relações de poder nas quais estamos, rotineiramente, em larga desvantagem? Quantas nos calamos diante do som alto das vozes dominantes e do patriarcado, no trabalho ou no quarto?

A senhora e seus 72 anos de jornada bem sabem, tantas são suas histórias protagonizadas por mães, avós, tias, vizinhas, esposas, irmãs e filhas pretas e pobres que têm a opressão em comum, mas também a força. E que força.

Enredadas em dramas diversos, as tramas que a senhora traça reafirmam as difíceis condições de vida da população mais pobre, a violência, a negritude e a exclusão. Mas sua postura me soa subversiva e transformadora, porque tira  a mulher de um lugar predeterminado pelo passado e pelo preconceito, para estabelecê-la como figura detentora de saberes ora herdados dos ancestrais ora ofertados pela própria vida.

Penso nisto quando releio Ana Davenga ou então a saga da mãe que costurou a vida com fios de ferro, o caminhar de Cida na corda-bamba do tempo, a fome de Duzu-Querença. Penso nisto diante de Natalina e do filho concebido nos frágeis limites da vida e da morte, diante da menina Ayoluwa e seu nascer em boa hora para todos ou então diante da primeira de sete filhas que, desde cedo, buscou dar conta das próprias dificuldades.

De que cor eram os olhos da mãe dela?

*****

Mesmo em frente a desfechos muitas vezes trágicos, as mulheres que a senhora conta ocupam não mais um lugar unicamente marginal, mas um espaço de resistência repleto de significados. Sua escrevivência – palavras que peço licença para repetir por aqui, pela incrível força que têm – não foi escrita para ser lida como história de ninar os moradores da casa-grande, mas para incomodá-los nos seus sonhos injustos. 

Tenho a impressão de que, como as leituras mais profundas, questões pessoais são capazes de estimular a transformação em mulheres oprimidas, de maneira consciente ou não. Acredito que certas práticas podem abrir portas para percepções, compreensões, reflexões, conexões e quem sabe revoluções.

Afinal, o que escondem as histórias que a senhora escrevive além do hábito de contarmos umas para as outras a verdade sobre nossas dores? Quais vivências entre as que a senhora narra, misturando a crueza da realidade com a mágica de seus ancestrais, nos são comuns? Quanto há daquilo que as vizinhas falavam cravado na minha pele branca de origem árabe e na minha família preta?

E os seus? Quem como onde quando e por que aparecem, e o que nos dizem? Quase que vejo em Duzu, Davenga, Natalina, Cida e cia um pouco dos ensinamentos de seu tio Oswaldo Catarino Evaristo sobre Martin Luther King, Malcolm X, Patrice Lumumba e Nelson Mandela. Um pouco dos dias que a senhora passou como militante da Juventude Operária Católica da Belo Horizonte natal. Um pouco de – outra vez – Angela Davis e aquela vasta cabeleira feita de beleza e coragem.

Falar de nossas questões nos permite mergulhar na essência de aspectos que, de tão pessoais, são também universais. Talvez seja um pouco o que acabei por fazer aqui, nesta carta aberta que tomo a liberdade de rascunhar para a senhora. Se a opressão de gênero, de poder e de raça do espaço público costuma se repetir no espaço privado, textos como os seus são lugares de luta por participação e transformação repletos de potência.

Tenho consciência de que sou privilegiada,  a despeito das dificuldades pelas quais passei, dos meses em que o que tínhamos não dava para tudo, das dores que carrego e nem sempre me permito compartilhar, dos dias em que elas pareceram intransponíveis.

[Não foram].

Hoje entendo que o lugar de onde assisto os acontecimentos e me posiciono a respeito deles facilita a ida e a volta para casa, além da travessia em si mesma. Agradeço aos deuses e deusas, à criação que tive, às leituras que fiz, às ausências e saudades, ao tempo e ao modo como aprendi com ele a olhar a vida. Agradeço à senhora, por sua escrevivência, pela inspiração e pelo amor que seus textos transbordam, mesmo os mais áridos.

Sabemos o que as autoridades fingem ignorar. Que há 5 milhões de famintos em nosso país. Que ditaduras são sombrias. Que o racismo segue firme em quase todo lugar. Que o machismo mata. Que a violência caminha par e passo com a desigualdade social, a falta de escolas, a ausência de perspectivas e a omissão do Estado.

Mas conhecemos bem [ufa!] a capacidade de cura da fala, da escuta, da escrita e da leitura. Sabemos, eu, a senhora e muitas outras, o quanto o compartilhar de histórias nos fortalece, o quanto grupos de apoio nos estimulam a superar dores, projetos de dominação, perdas, a solidão, a falta de afeto e a opressão. 

Acredito que temos uma pequena noção do quanto ainda há por fazer. 

Obrigada por nos iluminar nesta caminhada.

Com um fraterno abraço,

Ana Laura Nahas

nostalgias

Andei nostálgica. Dos tempos em que escrevia um texto novinho em folha a cada terça-feira. Daqueles em que cavava personagens pitorescos, contava trajetórias centenárias, garimpava aventuras, ideias, figuras exóticas, experiências que valiam a pena. De quando levava para o papel o mundo que via com mais confiança e um quê de ingenuidade [e talvez fosse, de fato, um mundo menos selvagem que o de hoje].

Andei nostálgica. Das noites em que a amizade nos inspirava a viver e a contar histórias. Daquelas em que a simplicidade determinava o horário de ir embora, e às vezes de nem ir. Das rodas de violão, de samba, de vinho e de piano. Das madrugadinhas, do gim com tônica, das conversas e da música que sempre havia nelas. Das tardes em que almoçávamos na Praia do Canto fingindo estar no Leblon da novela das nove. Dos amigos do peito que talvez não tenham a menor ideia da falta que fazem.

[Torço por nós, mesmo que a distância].

Andei nostálgica. Da época em que o Brasil parecia ter jeito. De quando as autoridades tinham preocupações mais relevantes que as bananas do Equador, o filme da garota de programa, suspender as provas para a carteira de motorista ou as calcinhas da Ilha de Marajó. De quando juiz era pra julgar, justa e verdadeiramente. Do tempo em que os sentimentos que despertávamos como Nação eram de orgulho e alegria, não vergonha.

Andei nostálgica. De quando as coisas apertavam e minha amiga estava na cadeira em frente. Do pescoço de sexta-feira, quando pedíamos pizza e Coca Cola para enfrentar a sucessão de páginas que era preciso revisar antes de mandar para a gráfica. Das inovações que fazíamos com o peito aberto, sob as bênçãos do diretor de redação. Dos ensinamentos do professor a respeito do som das palavras e dos começos perfeitos. Das horas de dúvida em que a resposta, serena e certeira, morava invariavelmente na sala da sábia chefa que se mudou para Portugal.

Andei profundamente nostálgica de uma lista imensa de coisas, coisinhas e coisonas, embora, no fundo, soubesse que os tempos não eram mais os mesmos e nunca seriam.

Diferentes também estávamos todos nós. Estávamos diferentes e plenamente cientes da velha máxima segundo a qual ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Estávamos diferentes e plenamente cientes de que, também, ninguém ama duas vezes o mesmo amor, ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho, ninguém sente duas vezes a mesma dor. No momento seguinte, nem sonho nem amor nem dor nem pessoa nem rio são os mesmos de antes. São outros.

pequena crônica sobre toda gente

Gente do mal atrapalha os planos da gente, altera a nossa rota, bagunça os nossos afetos, põe em xeque o gosto por coisas que, em outros tempos, tinham sabor de bolo quentinho de chocolate. Gente do mal desnorteia a inspiração da gente, aniquila a nossa fé no movimento, abala a esperança que temos em dias melhores e madrugadas.

Gente do mal transforma o riso em pontas cobertas de poeira e ferrugem, detona o equilíbrio que vai dentro, bloqueia a energia que corre nas veias. Gente do mal é capaz de jogar projetos, anseios e desejos de uma vida inteira num buraco escuro e fundo. Gente do mal não leva em conta a dedicação, despreza o esforço e tem pouquíssima consideração com o trabalho e a história da gente. Gente do mal finge que se importa, mas ai ai ai. Gente do mal um dia morre na gente.

Às vezes até as nossas pacientes economias entram na roda torta dessa gente maldosa que, vez ou outra, esbarra no caminho da gente. Gente do mal não tem freio, simplesmente.

Graças aos deuses e deusas, gente do bem é justo o oposto. Gente do bem não rouba da gente – nem tempo nem dinheiro nem a fé no movimento nem a esperança em dias melhores. Gente do bem não finge afeição, não estimula a desavença, não alimenta a discórdia nem solta da mão da gente.

Gente do bem ajuda a gente a lembrar de onde veio e contribui na construção de endereços, sequências e desfechos, nos consertos e nos recomeços. Gente do bem diz o que é preciso dizer, a despeito da timidez, do embaraço ou de possíveis constrangimentos. Gente do bem vibra com a alegria da gente.

Às vezes até as nossas causas mais secretas entram na pauta dessa gente amável que, vez ou outra, esbarra no caminho da gente. Gente do bem colore a estrada da gente e valoriza cada segundo de dedicação e lealdade. Gente do bem é como na canção.

[Quando os teus olhos cansarem dos meus olhos, não é preciso haver falsidade entre nós].

Graças aos deuses e deusas, gente do bem combate a violência com argumento, verdade e brandura. Gente do bem salva dias, noites e madrugadas de falta de sentido, dias, noites e madrugadas em que a maldade alheia bate na porta da gente, dias, noites e madrugadas de injustiça, desequilíbrio ou uma ausência daquelas.

Gente do bem mora de pantufas no coração da gente.

a vida e seu ofício

“Nesta vida morrer não é difícil.
O difícil é a vida e seu ofício”.

Os versos do poeta russo não me saiam da cabeça quando a moça dos olhos de amêndoa contou a respeito daquele sábado de chuva forte, calor opressivo e velhas saudades. Mais uma vez, uma silenciosa ausência roía o fundo do seu estômago. Buscava lacunas, caminhos, respostas, mas sabia que era cedo para encontrar qualquer vestígio do que pudesse ter havido. Não chorava, ao contrário das muitas noites anteriores de desalinho. Parecia anestesiada pela repetição do ato, como se simplesmente estivesse morta e enterrada a Patti Smith que um dia morou dentro dela, aquela Patti Smith à espera de Robert Mapplethorpe quando ele desaparecia nos labirintos de seu mundo de michês.

Para você que se ressente da falta de fatos:

Os versos sobre viver e morrer que não me saíam da cabeça haviam sido escritos por Vladimir Maiakovski em memória do amigo Serguei Iessienin, no longínquo ano de 1926.

A moça dos olhos de amêndoa era uma velha amiga, afastada do equilíbrio pelas próprias escolhas, cada vez mais distante de si mesma, atormentada pelas ausências prolongadas e inexplicadas de um homem repleto de dissonâncias e bemóis. O sujeito que roubava seus beijos, seu pensamento e seus peitos subtraia também, de formas boas e más, seu sono e seu sossego. Ela o amava em absoluta simbiose e frequente turbulência, como Patti Smith amava Robert Mapplethorpe desde o verão de 1967, o verão em que perdemos John Coltrane, mas ganhamos Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

[Esperamos que gostem do show.]

Robert Mapplethorpe não vive mais entre nós, abatido pelo vírus da AIDS em 1989. Serguei Iessienin também não, desde que decidiu partir de si mesmo, três dias depois do Natal de 1925. Maiakovski escolheu destino semelhante ao atirar contra o próprio peito, em 14 de abril de 1930, aos 36 anos.

Nas palavras dedicadas a Iessienin, Maiakovski dizia que era preciso transformar a vida para cantá-la em seguida. Também sentenciava, entre profeta, filósofo e boêmio ligeiramente alterado pelo álcool: era melhor morrer de vodca do que de tédio. Cinco anos depois, ao escrever a própria despedida, soou bastante menos esperançoso – por motivos óbvios.

– De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso. Os poemas inacabados entreguem aos Brik, eles saberão o que fazer. Como dizem: caso encerrado, o barco do amor espatifou-se na rotina. Acertei as contas com a vida. Inútil a lista de dores, desgraças e mágoas mútuas. Felicidade para quem fica.

Maiakovski se foi, trágico e jovem. Seus versos, ao contrário, atravessaram o século intocados pelos estragos do tempo. Porque sou avessa à matemática, não contei quantos anos se passaram desde então até aquele sábado de chuva forte, calor opressivo e velhas saudades.

O que contei, apenas: que os versos feitos para Serguei Iessienin não me saiam da cabeça, que uma silenciosa ausência roía o fundo do estômago da moça dos olhos de amêndoa e que ela não chorava, como se estivesse morta e enterrada a Patti Smith que um dia morou dentro dela, aquela Patti Smith – vocês sabem – à espera de Robert Mapplethorpe quando ele sumia nos labirintos de seu mundo de michês.

O que contei, também, a despeito de ser avessa à matemática: que nenhum passar de anos seria capaz de abalar a doída, mas reveladora verdade guardada nos versos de Maiakovski para o amigo que decidiu partir de si mesmo três dias depois do Natal de 1925. Morrer não era difícil. O difícil era a vida e seu ofício.