você sabe com quem está falando?

É o professor Mário Sérgio Cortella quem diz, numa palestra famosa de 2005: somos um entre 6,4 bilhões de indivíduos no planeta, pertencentes a uma espécie entre outras três milhões de espécies classificadas, que vive num planetinha, que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer.

Quinze anos depois da palestra famosa, deixamos de ser 6,4 bilhões de indivíduos no planetinha que gira em torno de uma estrelinha para sermos 7,6 bilhões. Há alguns dias, um homem entre estes 7,6 bilhões de indivíduos saiu para caminhar sem máscara na orla de Santos, litoral de São Paulo, contrariando a legislação local, que obriga o uso do acessório em vias públicas da cidade durante a pandemia do coronavírus. 

A cena foi exaustivamente noticiada, compartilhada e comentada. Embora seja um entre os cerca de dois mil desembargadores do Brasil – um profissional a serviço do cumprimento da lei, portanto -, o homem sem máscara de Santos tentou intimidar o policial que questionou sua conduta, rasgou a multa e ligou para o secretário de Segurança Pública. O motivo: julgar que deveria ter um tratamento diferente dos outros habitantes do planetinha que gira em torno de uma das 100 bilhões de estrelinhas que compõem a nossa galáxia.

Poucos dias antes, um casal num bar do Rio de Janeiro durante uma fiscalização da Vigilância Sanitária e um empresário de São Paulo denunciado por violência doméstica tiveram julgamento parecido. Tanto a fala da mulher no Rio – “Cidadão não, engenheiro civil, formado. Melhor do que você.” – quanto a do homem em Sampa – “Você pode ser macho na periferia, mas aqui você é um bosta. Aqui é Alphaville, mano!” – demonstram um sentimento de superioridade diante dos outros tão profundo quanto equivocado.

O que os faz defender que a vontade individual, o endereço de luxo ou os contatos que têm são mais fortes que o bem coletivo, a saúde pública e as regras do país é a sensação de privilégio. Uma sensação que, infelizmente, tem tudo a ver com o Brasil. 

memórias de um tempo de exílios falências e mudanças

Havia uma lupa entre os pertences que herdei na passagem do meu pai. Um pequeno artefato que, graças à engenhosidade de romanos e chineses do século VI antes de Cristo, permite enxergar com lente de aumento objetos que, de outro modo, quase não se vê.

Livros de letra miúda, as entrelinhas de um contrato, detalhes e entalhes de um móvel feito à mão. As fusas e semifusas de uma partitura desbotada pelo tempo. O porta-retrato posto no exato ponto que separa o esquecimento da obsessão. Objetos vistos com lente de aumento graças à engenhosidade de romanos e chineses do século VI antes de Cristo.

É a Física quem diz: com as lupas e suas lentes convergentes, temos uma imagem virtual, direita e maior de um objeto real. Para que a imagem se forme, o objeto deve estar entre o foco e o centro ótico da lente. O tamanho da imagem produzida na retina varia de acordo com o ângulo que o objeto ocupa no campo de visão. 

A posição precisa ser firme, sem grandes variações. Caso contrário, letras miúdas, entrelinhas, detalhes, entalhes, fusas, semifusas, esquecimento e obsessão tornam-se um borrão, uma mancha, um rabisco imperfeito da ausência, da distância, da névoa e do descuido.

Alguém escreveu, com toda razão, que vivemos um período de ruínas. De empregos e empreendimentos aos sistemas de saúde, da ética dos homens públicos ao bom senso do capitão, dos projetos para 2020 ao coração do meu pai, as falências estão por toda parte. 

Até o tempo anda bugado nos últimos meses, correndo contra si mesmo enquanto cancelamos projetos e celebridades, sovamos pão e incertezas, envelhecemos diante de sonhos, rotinas e encontros suspensos pela pandemia. 

Vivemos, respiramos, trabalhamos, escrevemos, postamos. Abrimos portas para o essencial. Descemos escadas, evitamos elevadores. Lavamos a louça para em seguida sujar outra vez. Mesmo que a contragosto, adotamos novos hábitos. Pouco a pouco, construímos com o que temos à mão as memórias deste tempo de exílios, falências e mudanças.

rotina na pandemia é feita de miudezas do cotidiano e esperança em dias melhores

Poucos meses atrás, éramos um acúmulo de sonhos, projetos, fazeres, prazeres e afazeres. Afetos, dores, alegrias, encontros, ausências e memórias dividiam espaço com metas e objetivos de prazos variados, mais ou menos organizados, dependendo do afinco e da disciplina de cada um. Mas, desde o início da pandemia, a vida parece se alimentar apenas das miudezas do cotidiano e da esperança em dias melhores. O calendário avança, e nós seguimos, envelhecendo diante das coisas grandes suspensas pelo coronavírus e suas curvas assustadoramente ascendentes.

A boa notícia é que o miúdo da vida nunca foi tão significativo. Na falta de alternativa mais excitante, o ganha-pão dos cronistas ganhou também a atenção dos outros. 

Assim, de obrigações periféricas e desbotadas, o expediente para cumprir, a louça suja, a roupa lavada e as compras à espera de desinfecção viraram acontecimentos dignos de nota. O bicho de estimação, o que disseram no grupo da firma, o pão feito em casa, eles e tantas outras pequenas rotinas que antes até podiam passar despercebidas agora preenchem o vazio criado pelo isolamento e pelas más notícias.

Li estes dias um poema da poeta carioca Marília Garcia que diz o seguinte, assim mesmo, em minúsculas: 

“o que se passa todos os dias e que volta todos os dias
o banal o cotidiano o óbvio o comum o ordinário
o infraordinário
o barulho de fundo o hábito
— como perceber todas essas coisas?
como abordar e descrever aquilo que de fato
preenche a nossa vida?”

A pandemia ceifou pelo menos 400 mil vidas até agora. Interrompeu projetos, ampliou distâncias, colocou a morte diariamente no nosso campo de visão, levou gente querida de muitos de nós, colocou muitos modelos em xeque. Mas também nos mostrou que, de fato, há vida escondida no que é banal, habitual, ordinário. E, na despercebida potência do cotidiano, no enorme significado dos objetos à nossa volta e na força do que fazemos enquanto esperamos, quem sabe está uma saída para dias melhores.