krespinha, e o vento levou e o racismo que quase não se vê

Quase 5 milhões de escravos negros cruzaram o Oceano Atlântico entre 1500 e 1850. Passamos 388 dos 520 anos da nossa História escravizando oficialmente os que vinham da África e seus filhos. Nos outros 132 anos, vimos a prática abolida no papel seguir impregnando o pensamento, a educação, as instituições e as estruturas deste país abençoado por Deus e bonito por natureza, mas extremamente preconceituoso.

Avançamos um pouco, mesmo que ainda falte muito. Ampliamos o debate sobre a importância da diversidade nas organizações, embora ainda haja um bocado a ser feito. Protestamos contra mortes movidas pela cor da pele. Vimos leis mudarem. 

Muitos de nós reconhecemos que o racismo não é um problema apenas dos negros. Entendemos que nós, brancos e misturados, precisamos nos posicionar a respeito dele, olhá-lo a partir da justiça, da empatia e da compreensão com o povo preto e seus ancestrais.

Mesmo assim, a despeito de tudo, ainda hoje, somos obrigados a conviver com retrocessos inacreditáveis como as mortes de Miguel Santana da Silva, João Pedro Mattos, George Floyd e tantos outros. Mesmo assim, a despeito de tudo, ainda hoje, comentários e postagens racistas inundam o ambiente digital todos os dias. 

Mesmo assim, a despeito de tudo, ainda hoje, somos acordados numa quarta-feira de 2020 com o relançamento de uma esponja para limpeza pesada que remete, jocosamente, ao cabelo crespo e à mulher negra. 

Criticar a Bombril por trazer de volta ao mercado um produto dos anos 1950, sem levar em consideração seu racismo escancarado, não é mimimi nem falta de empatia. A esponja que “remove sujeiras e gorduras de um jeito rápido e eficaz, sem esforço”, conforme descrição no site oficial da marca (logo depois retirada do ar), é o passado esmurrando a porta para assombrar aqueles que ainda sofrem com a herança escravocrata e a desigualdade racial. 

Felizmente, três ou quatro dias antes, demos um pequeno passo adiante. Depois de um contundente apelo publicado no jornal Los Angeles Times pelo diretor e roteirista do filme “12 Anos de Escravidão”, o clássico “E o Vento Levou” foi retirado temporariamente do catálogo da distribuidora Warner. Uma mensagem será colocada antes do filme, de modo a explicar o cenário histórico em que ele foi feito e o contexto ali exibido. 

“E o Vento Levou” relata com pompa, circunstância e nostalgia a escravidão no sul dos Estados Unidos e a guerra travada para que ela fosse mantida. Um autêntico representante da era de ouro de Hollywood. Quatro horas de romance, aventura, tragédia, humor, frases antológicas, um ícone na trilha sonora. Dez vezes premiado no Oscar. E uma perspectiva racista, muito racista, em seu ponto de vista favorável à escravidão.

Não custa lembrar: racismo estrutural é um conjunto de práticas históricas, culturais, políticas e institucionais que privilegiam um grupo racial e desfavorecem outro. De tão agarrado na cultura, na polícia, na política e na economia, há quem diga que ele nem existe. Mas ele está aqui, ali, em qualquer lugar, e se revela na ausência de negros em espaços de poder, de saber e de fazer. 

O racismo estrutural tem relação direta com a escolha da Bombril e se encontra na raiz das mortes de Miguel, João Pedro, George Floyd e tantos outros. Ele está aqui, ali, em qualquer lugar, impregnando o pensamento, a educação, as instituições e as estruturas deste país abençoado por Deus e bonito por natureza, mas extremamente preconceituoso. 

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