o dia em que machado de assis encontrou george floyd

Protesto contra a morte de George Floyd. Foto de Guillaume Issaly

Um alento vem de longe nestes dias de sonhos, planos, perspectivas, projetos e 300 mil vidas ceifados pela pandemia. É Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho, um sujeito que nos conforta com suas palavras desde 1861 e que volta à baila para nos lembrar, uma vez mais, do que é oposto à ignorância, ao peso, à brutalidade e ao desencanto. 

Na terça-feira 2 de junho, uma nova tradução de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” para o inglês chegou aos Estados Unidos. Os exemplares se esgotaram em menos de 24 horas. Coincidência ou não, era o oitavo dia dos protestos desencadeados pelo assassinato de George Floyd, um ex-segurança negro como Machado de Assis, seu pai e seus avós.

Floyd, como se sabe, foi asfixiado por um policial branco por causa de uma nota falsa de 20 dólares. Sua frase final se transformou em um dos gritos de guerra das manifestações que começaram com os norte-americanos e se espalharam pelo mundo: “Não consigo respirar”. 

Machado de Assis, filho de ex-escravos alforriados, teve melhor sorte, se assim se pode dizer. Mas enfrentou durante toda a vida o racismo, a herança escravocrata e a ambiguidade de criticar a burguesia ao mesmo tempo em que ascendia para dentro dela. 

“Memórias Póstumas” foi lançado em 1881, sete anos antes da abolição da escravatura. No romance, o finado Brás Cubas, filho de uma típica família da elite carioca no século XIX, decide escrever sua autobiografia a partir do túmulo. O morto nos conta sua saga com ironia e acidez, dedicando o volume póstumo ao verme que primeiro roeu as frias carnes de seu cadáver.

O protagonista revê a infância de menino rico, mimado e endiabrado, a paixão por uma prostituta que durou 15 meses e 11 contos de réis, e também a própria morte. A causa: pneumonia, adquirida enquanto ele trabalhava obsessivamente na criação do emplastro Brás Cubas, um medicamento sem comprovação científica que se pretendia destinado a aliviar a melancolia da humanidade. 

[Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência].

Ao revisitar a própria trajetória, o defunto Brás Cubas retrata também a escravidão, as desigualdades sociais, a chegada dos valores liberais ao país e a tentativa de modernização de uma elite enraizada no atraso. “Memórias Póstumas” – palavras do autor – é um livro que, por mais risonho que pareça, guarda um sentimento amargo e áspero. Não deixa de ser curioso que ele volte a ser notícia exatamente agora.

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