a peste da insônia

Ilustração do livro Cem Anos de Solidão

Apesar das incertezas e perdas produzidas pela pandemia, uma ou outra estrela bailarina têm nascido deste imenso caos que se instalou desde a chegada do coronavírus. Quero sugerir uma delas para vocês: o curta-metragem “La Peste del Insomnio”, que podemos traduzir como “A Peste da Insônia” e assistir gratuitamente  no site www.fundaciongabo.org e no YouTube

No filme de 15 minutos, 30 atores latino-americanos lêem trechos do mágico romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, descrevendo uma quarentena parecida com a que estamos atravessando – uns com mais juízo, outros com menos. 

Os trechos nos contam a respeito de uma epidemia que assolou Macondo, a aldeia do livro publicado em 1967. A Peste da Insônia fez um, depois dois, depois todos os habitantes da cidade perderem completamente o sono. E, embora o patriarca José Arcadio Buendía acreditasse que a doença era bem-vinda, porque faria a vida render mais, a epidemia escondia uma consequência terrível. Os dias e noites em claro evoluíam para o esquecimento, sumiam com as lembranças, o nome e a noção das coisas, a consciência do ser.

Ironicamente, Gabo perdeu-se da própria memória pouco antes de morrer, às vésperas de um feriado santo, aos 87 anos. Na época, parou de falar ao telefone, porque não reconhecia os interlocutores pela voz. Quando não sabia com quem conversava, fazia perguntas genéricas como “o que tem feito?”para tentar reencontrar o rumo. Coisas mais antigas, segundo consta, continuaram intactas na cabeça mirabolante do menino pálido, subnutrido e atormentado pelos piolhos que se tornou um dos maiores escritores do mundo.

Gabo morreu em 2014, dois anos depois de perder a memória. “Cem Anos de Solidão” permanece como um dos livros mais importantes da vida de muitos de nós. A Peste da Insônia encontrou a cura. Como Melquíades, o cigano corpulento, de barba rude e mãos de pardal que levou o gelo e outras invenções a Macondo, “La Peste del Insomnio” é uma pequena dose de imaginação e esperança, um pequeno alento em meio a tantas más notícias.

krespinha, e o vento levou e o racismo que quase não se vê

Quase 5 milhões de escravos negros cruzaram o Oceano Atlântico entre 1500 e 1850. Passamos 388 dos 520 anos da nossa História escravizando oficialmente os que vinham da África e seus filhos. Nos outros 132 anos, vimos a prática abolida no papel seguir impregnando o pensamento, a educação, as instituições e as estruturas deste país abençoado por Deus e bonito por natureza, mas extremamente preconceituoso.

Avançamos um pouco, mesmo que ainda falte muito. Ampliamos o debate sobre a importância da diversidade nas organizações, embora ainda haja um bocado a ser feito. Protestamos contra mortes movidas pela cor da pele. Vimos leis mudarem. 

Muitos de nós reconhecemos que o racismo não é um problema apenas dos negros. Entendemos que nós, brancos e misturados, precisamos nos posicionar a respeito dele, olhá-lo a partir da justiça, da empatia e da compreensão com o povo preto e seus ancestrais.

Mesmo assim, a despeito de tudo, ainda hoje, somos obrigados a conviver com retrocessos inacreditáveis como as mortes de Miguel Santana da Silva, João Pedro Mattos, George Floyd e tantos outros. Mesmo assim, a despeito de tudo, ainda hoje, comentários e postagens racistas inundam o ambiente digital todos os dias. 

Mesmo assim, a despeito de tudo, ainda hoje, somos acordados numa quarta-feira de 2020 com o relançamento de uma esponja para limpeza pesada que remete, jocosamente, ao cabelo crespo e à mulher negra. 

Criticar a Bombril por trazer de volta ao mercado um produto dos anos 1950, sem levar em consideração seu racismo escancarado, não é mimimi nem falta de empatia. A esponja que “remove sujeiras e gorduras de um jeito rápido e eficaz, sem esforço”, conforme descrição no site oficial da marca (logo depois retirada do ar), é o passado esmurrando a porta para assombrar aqueles que ainda sofrem com a herança escravocrata e a desigualdade racial. 

Felizmente, três ou quatro dias antes, demos um pequeno passo adiante. Depois de um contundente apelo publicado no jornal Los Angeles Times pelo diretor e roteirista do filme “12 Anos de Escravidão”, o clássico “E o Vento Levou” foi retirado temporariamente do catálogo da distribuidora Warner. Uma mensagem será colocada antes do filme, de modo a explicar o cenário histórico em que ele foi feito e o contexto ali exibido. 

“E o Vento Levou” relata com pompa, circunstância e nostalgia a escravidão no sul dos Estados Unidos e a guerra travada para que ela fosse mantida. Um autêntico representante da era de ouro de Hollywood. Quatro horas de romance, aventura, tragédia, humor, frases antológicas, um ícone na trilha sonora. Dez vezes premiado no Oscar. E uma perspectiva racista, muito racista, em seu ponto de vista favorável à escravidão.

Não custa lembrar: racismo estrutural é um conjunto de práticas históricas, culturais, políticas e institucionais que privilegiam um grupo racial e desfavorecem outro. De tão agarrado na cultura, na polícia, na política e na economia, há quem diga que ele nem existe. Mas ele está aqui, ali, em qualquer lugar, e se revela na ausência de negros em espaços de poder, de saber e de fazer. 

O racismo estrutural tem relação direta com a escolha da Bombril e se encontra na raiz das mortes de Miguel, João Pedro, George Floyd e tantos outros. Ele está aqui, ali, em qualquer lugar, impregnando o pensamento, a educação, as instituições e as estruturas deste país abençoado por Deus e bonito por natureza, mas extremamente preconceituoso. 

os homens e a roupa suja

Há um modo de operação anterior à pandemia que acabou potencializado durante o isolamento imposto pelo coronavírus. Uma obrigação invisível que vai além da desigual divisão de tarefas domésticas entre homens e mulheres. Uma atividade silenciosa, despercebida, que tem um enorme peso físico e emocional sobre muitas de nós: o planejamento, a organização e a tomada de decisões em casa e sobre a casa.

Os relatos se repetem e se parecem. Muitas mulheres estão exaustas da carga mental de organizar, planejar e decidir. Além da execução em si, do home office e da própria angústia do momento, é preciso pensar no que fazer. Como distrair as crianças? E o dever de casa? Cadê a senha do Zoom? Supermercado segunda ou quinta? O que comer no jantar, delivery ou de qual produtor local? Quando faremos faxina? O que e por quê a coisa toda, o tempo inteiro? 

A sobrecarga do confinamento já tem até nome. É o efeito do cesto de roupa suja de que fala Brigid Schulte, diretora de um programa de políticas públicas ligadas a trabalho, questões de gênero e vida familiar, nos Estados Unidos, chamado Better Life Lab.

A pesquisadora e sua equipe entrevistaram um grupo de parceiros de mulheres que trabalham no setor de saúde e, por isso, tiveram que se isolar dos familiares para evitar um possível contágio. Assim, os homens assumiram totalmente os cuidados em casa. 

De acordo com a pesquisa, o cesto de roupa suja é um elemento que se repete nas conversas com todos os homens. “Muitos me disseram entre risos que antes achavam que a roupa dobrada ia parar magicamente em suas gavetas. Eles nem pensavam nesse trabalho invisível. Agora, estão conscientes de que eram suas mulheres que faziam isso e que, também, o cesto se enche o tempo todo”, explica Brigid.

Ainda não dá para dizer que o despertar desse pequeno grupo vai mudar os padrões da divisão de trabalho ou reduzir a sobrecarga mental feminina. A boa notícia, pelo menos para nós mulheres, é que alguns homens sairão do confinamento mais conscientes a respeito do trabalho que dá manter o cesto, e todo o resto, em ordem.

o dia em que machado de assis encontrou george floyd

Protesto contra a morte de George Floyd. Foto de Guillaume Issaly

Um alento vem de longe nestes dias de sonhos, planos, perspectivas, projetos e 300 mil vidas ceifados pela pandemia. É Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho, um sujeito que nos conforta com suas palavras desde 1861 e que volta à baila para nos lembrar, uma vez mais, do que é oposto à ignorância, ao peso, à brutalidade e ao desencanto. 

Na terça-feira 2 de junho, uma nova tradução de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” para o inglês chegou aos Estados Unidos. Os exemplares se esgotaram em menos de 24 horas. Coincidência ou não, era o oitavo dia dos protestos desencadeados pelo assassinato de George Floyd, um ex-segurança negro como Machado de Assis, seu pai e seus avós.

Floyd, como se sabe, foi asfixiado por um policial branco por causa de uma nota falsa de 20 dólares. Sua frase final se transformou em um dos gritos de guerra das manifestações que começaram com os norte-americanos e se espalharam pelo mundo: “Não consigo respirar”. 

Machado de Assis, filho de ex-escravos alforriados, teve melhor sorte, se assim se pode dizer. Mas enfrentou durante toda a vida o racismo, a herança escravocrata e a ambiguidade de criticar a burguesia ao mesmo tempo em que ascendia para dentro dela. 

“Memórias Póstumas” foi lançado em 1881, sete anos antes da abolição da escravatura. No romance, o finado Brás Cubas, filho de uma típica família da elite carioca no século XIX, decide escrever sua autobiografia a partir do túmulo. O morto nos conta sua saga com ironia e acidez, dedicando o volume póstumo ao verme que primeiro roeu as frias carnes de seu cadáver.

O protagonista revê a infância de menino rico, mimado e endiabrado, a paixão por uma prostituta que durou 15 meses e 11 contos de réis, e também a própria morte. A causa: pneumonia, adquirida enquanto ele trabalhava obsessivamente na criação do emplastro Brás Cubas, um medicamento sem comprovação científica que se pretendia destinado a aliviar a melancolia da humanidade. 

[Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência].

Ao revisitar a própria trajetória, o defunto Brás Cubas retrata também a escravidão, as desigualdades sociais, a chegada dos valores liberais ao país e a tentativa de modernização de uma elite enraizada no atraso. “Memórias Póstumas” – palavras do autor – é um livro que, por mais risonho que pareça, guarda um sentimento amargo e áspero. Não deixa de ser curioso que ele volte a ser notícia exatamente agora.

mulheres invisíveis

Fernanda Montenegro em cena do filme “A Vida Invisível”

Por diversas razões, “A Vida Invisível” é um filme de partir o coração. Porque duas irmãs se perdem de vista, separadas pelas circunstâncias da vida e pelo machismo da família. Porque ambas são silenciadas em seus maiores desejos. Porque determinados acordos escondem um doloroso e desigual domínio de uma parte sobre a outra. Porque, como Guida e Eurídice Gusmão, há muitas mulheres que apenas ficam. 

A história se passa na década de 1950, mas podia ser hoje, na noite passada ou agorinha mesmo, enquanto o isolamento social exigido pela pandemia do coronavírus amplia os registros de violência contra a mulher, as separações e as diferenças entre ricos e pobres. 

Filhas de um conservador casal português, Guida e Eurídice Gusmão são como água e vinho. Eurídice é uma jovem tímida, realista e retraída que deseja ser pianista profissional. Guida é expansiva, sonhadora e extrovertida, e tem como meta encontrar um amor de verdade e, no caminho, se divertir um pouco. 

A ingenuidade delicada da dupla contrasta com a rispidez do pai, com a omissão da mãe e com o destino que as espera. Guida foge com um marinheiro grego, viaja, casa, separa e engravida, nesta ordem. Expulsa de casa por causa da gravidez sem marido, enfrenta a dura realidade da vida operária para criar o filho. 

Sua invisibilidade vem da condição de mulher social e economicamente vulnerável. A de Eurídice está dentro de casa, no marido aparentemente cortez que personifica a violência sexual e psicológica vista como normal em muitas famílias, especialmente naquela época, mas ainda hoje. 

Uma ou outra delicadeza se impõem no duro cotidiano das irmãs: a música, a amizade como espaço de resistência e transformação, as cartas que Guida destina a Eurídice sem saber se realmente foram entregues. 

Ao narrar a história de duas irmãs silenciadas pelo patriarcado e pela opressão social, em uma longa caminhada interior que elas percorrem sempre no mesmo lugar, o filme de Karim Ainouz homenageia, de algum modo, todas as mulheres invisíveis do mundo.