aldir blanc e a esperança equilibrista

Aldir Blanc, em cena do documentário “Aldir Blanc – Dois pra Lá, Dois Pra Cá”

Quando morreu Gabriel García Márquez, em abril de 2014, foi como se morresse um parente próximo, um avô querido, um professor remoto na arte de lutar fisicamente com cada palavra [e é quase sempre a palavra que vence]. A partida de Aldir Blanc, neste comecinho de maio, trouxe sentimento parecido, apesar dos seis anos e 8.236 quilômetros que separam uma passagem da outra, no tempo e no mapa.

Aldir Blanc fez parte da minha história antes mesmo que eu pudesse me dar conta. Entre as lembranças de criança mais antigas que tenho, estão as rodas de violão em família, em que os adultos se dividiam em dois grupos de vozes para reproduzir o diálogo entre dois velhos amigos que se reencontravam em um bar.

Eu não sabia quase nada da vida, do mundo e dos dilemas da existência. Tinha pouca ideia do fim dos amores e do estrago dos rancores. Desconhecia por inteiro o que os adultos divididos em dois grupos nas rodas de violão em família queriam dizer naquele verso a respeito do apreço não ter preço.

Hoje sei.

Anos depois, mais crescida, passei a prestar atenção nos arranjos melódicos das palavras, na diversidade de verbos, substantivos e advérbios que havia, e suas combinações. 

Por outras vias, cheguei novamente a Aldir Blanc e à coleção de mais de 500 composições dele. Uma obra poética enorme em muitos sentidos, que um antigo colega de jornal escreveu, com toda razão, fundia contrários – humor e fossa, devaneio e realidade, lirismo e grossura, a aldeia e o mundo. 

Aldir Blanc, um psiquiatra com a alma repleta de boemia, cantou a saudade, a política, o amor, ruas e risos, o descompasso e o contraste. Um punhado de escancaros e contidos, sustenidos e bemóis, sinais e desenganos, saudades e carnavais, Catavento e Girassol. O tempo, na transversal.

Partiu neste comecinho de maio um sujeito com quem tivemos a honra de aprender que a esperança é a equilibrista que sabe que o show de todo artista tem que continuar.

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