vida noturna

Foto de Jordon Conner

Em uma passagem do livro Diários de Bicicleta (2009), David Byrne reflete sobre como seria se a História da humanidade fosse contada por meio da vida noturna. Um século depois do outro explicados não pelas guerras, acordos, derrotas, vitórias, recuos e transformações, mas pelo modo como se dão as manifestações e celebrações madrugada adentro. 

O líder da banda Talking Heads é um entusiasta de boas causas, entre elas a música brasileira, a boemia e a sensação de liberdade que acompanha o hábito de pedalar.

Seu livro apresenta a visão de um sujeito que tem a bike como principal meio de transporte desde os anos 1980. Uma janela mágica que o deixa observar o funcionamento das coisas, o ritmo da vida, a arquitetura do mundo e geografia das cidades.

A tese é a seguinte: o que acontecia nos cabarés da República de Weimar, na década de 1920, prenunciava a Segunda Guerra, assim como o punk rock foi um reflexo sombrio da Era Reagan e seu explosivo duo conservadorismo-militarização. Da mesma forma, o fervo que se via nas icônicas casas noturnas Studio 54 e o CBGB refletia a profunda desilusão que se abateu sobre Nova York nos anos 1970, numa espécie de avesso da crise que quase levou a cidade a um colapso. 

Para Byrne, a vida noturna pode oferecer uma visão mais profunda de certos períodos históricos e políticos do que os registros oficiais. A partir desta perspectiva, ele diz, pode ser que conseguíssemos entender o presente ou o futuro olhando para as pistas de dança, a cena cultural ou as mesas de bar. 

Se Byrne tiver razão, e eu não duvido que tenha, as maneiras que temos encontrado coletivamente para lidar com o isolamento necessário ao combate do coronavírus servem como pequenas pistas para o cenário que se desenha para o mundo pós pandemia. 

Vida noturna não há [são exigências do momento], mas um sentimento coletivo de cooperação e uma profunda nostalgia de quando podíamos antecipar golpes e revoluções, avanços e recuos, crises e revezes no tempo passado entre canções, conversas ao pé do ouvido, amigos, amores, desafetos e algumas doses de gim. 

aldir blanc e a esperança equilibrista

Aldir Blanc, em cena do documentário “Aldir Blanc – Dois pra Lá, Dois Pra Cá”

Quando morreu Gabriel García Márquez, em abril de 2014, foi como se morresse um parente próximo, um avô querido, um professor remoto na arte de lutar fisicamente com cada palavra [e é quase sempre a palavra que vence]. A partida de Aldir Blanc, neste comecinho de maio, trouxe sentimento parecido, apesar dos seis anos e 8.236 quilômetros que separam uma passagem da outra, no tempo e no mapa.

Aldir Blanc fez parte da minha história antes mesmo que eu pudesse me dar conta. Entre as lembranças de criança mais antigas que tenho, estão as rodas de violão em família, em que os adultos se dividiam em dois grupos de vozes para reproduzir o diálogo entre dois velhos amigos que se reencontravam em um bar.

Eu não sabia quase nada da vida, do mundo e dos dilemas da existência. Tinha pouca ideia do fim dos amores e do estrago dos rancores. Desconhecia por inteiro o que os adultos divididos em dois grupos nas rodas de violão em família queriam dizer naquele verso a respeito do apreço não ter preço.

Hoje sei.

Anos depois, mais crescida, passei a prestar atenção nos arranjos melódicos das palavras, na diversidade de verbos, substantivos e advérbios que havia, e suas combinações. 

Por outras vias, cheguei novamente a Aldir Blanc e à coleção de mais de 500 composições dele. Uma obra poética enorme em muitos sentidos, que um antigo colega de jornal escreveu, com toda razão, fundia contrários – humor e fossa, devaneio e realidade, lirismo e grossura, a aldeia e o mundo. 

Aldir Blanc, um psiquiatra com a alma repleta de boemia, cantou a saudade, a política, o amor, ruas e risos, o descompasso e o contraste. Um punhado de escancaros e contidos, sustenidos e bemóis, sinais e desenganos, saudades e carnavais, Catavento e Girassol. O tempo, na transversal.

Partiu neste comecinho de maio um sujeito com quem tivemos a honra de aprender que a esperança é a equilibrista que sabe que o show de todo artista tem que continuar.