como aderir ao “novo normal” ou quem sabe escapar dele

Vitória (ES), meados de maio, 2020, outono-inverno. O isolamento social exigido pela pandemia do coronavírus continua, apesar dos comportamentos e recomendações que navegam perigosamente pelo caminho contrário. Em meio às notícias em profusão, mortes distantes, perdas próximas e piadas de gosto duvidoso, uma expressão chama minha atenção: o “novo normal”. 

A combinação parece ter ganhado força nos últimos meses, quando percebemos que a pandemia não apenas havia se instalado para durar, como também nos obrigaria a mudar antigos hábitos e certas formas de fazer as coisas. 

Ainda não sabemos como vamos sair desta fase, mas é certo que sairemos diferentes, dizem que mais empáticos, quem sabe mais conscientes, um pouco menos consumistas talvez, possivelmente mais solitários. Sairemos do isolamento mais solidários e menos apegados às convenções que vimos cair por terra enquanto estávamos trancafiados em casa? Sairemos mais silenciosos ou, pelo contrário, mais falantes do que nunca?

Afinal, o que devemos fazer para aderir ao “novo normal” – ou quem sabe escapar dele?

Pode ser que o contexto nos ajude a entender, um pouco que seja. O “novo normal” é uma expressão cunhada pelo economista norte-americano Mohamed El-Erian em maio de 2009, 11 anos atrás, portanto. Sua inspiração foi o cenário global pós crise de 2008, considerada a mais grave desde a Grande Depressão de 1929. Segundo ele, o novo normal traduzia a ideia de que, após 2008, o mercado passou a ter características bem diferentes das que até então apresentava.

Corta para a pandemia que chacoalhou o mundo do pior jeito possível, com quase 5 milhões de infectados em seis meses, 320 mil mortos no mundo, 20 mil no Brasil, até a noite de 20 de maio e em curva ascendente. Visto que a Terra não é plana, rodamos um pouco e nos deparamos, novamente, com o “novo normal”. Ou, mais exatamente, o novo “novo normal”.

Mais uma vez, pode ser que o contexto nos ajude a entender, um pouco que seja. 

O novo “novo normal” significa tornar comuns atitudes que antes nos eram estranhas. Andar de máscara na rua, por exemplo. Trabalhar em casa. Cumprimentar com o cotovelo. Sorrir com os olhos. Comprar dos pequenos negócios locais. Comer em casa, limpar as sacolas do supermercado, logística para sair, ritual de desinfecção na volta, happy hour virtual, sapatos na entrada, saudades na estante, certezas na gaveta. 

O novo “novo normal” como um modelo de vida que vamos descobrindo aos poucos, a duras penas. Com menos poluição, mas menos emoção também. Com mais equilíbrio no consumo, mas menos dinheiro também. Com mais amigos desempregados e a maioria das possibilidades perdidas na pandemia. Com a pele melhor, mas cheia de desesperança. Com um pouco de esperança também, mas medo do futuro, do espirro, de quase tudo. Com a impressão de que o tempo parou, mas a vida corre lá fora, à espera de reinvenção.

vida noturna

Foto de Jordon Conner

Em uma passagem do livro Diários de Bicicleta (2009), David Byrne reflete sobre como seria se a História da humanidade fosse contada por meio da vida noturna. Um século depois do outro explicados não pelas guerras, acordos, derrotas, vitórias, recuos e transformações, mas pelo modo como se dão as manifestações e celebrações madrugada adentro. 

O líder da banda Talking Heads é um entusiasta de boas causas, entre elas a música brasileira, a boemia e a sensação de liberdade que acompanha o hábito de pedalar.

Seu livro apresenta a visão de um sujeito que tem a bike como principal meio de transporte desde os anos 1980. Uma janela mágica que o deixa observar o funcionamento das coisas, o ritmo da vida, a arquitetura do mundo e geografia das cidades.

A tese é a seguinte: o que acontecia nos cabarés da República de Weimar, na década de 1920, prenunciava a Segunda Guerra, assim como o punk rock foi um reflexo sombrio da Era Reagan e seu explosivo duo conservadorismo-militarização. Da mesma forma, o fervo que se via nas icônicas casas noturnas Studio 54 e o CBGB refletia a profunda desilusão que se abateu sobre Nova York nos anos 1970, numa espécie de avesso da crise que quase levou a cidade a um colapso. 

Para Byrne, a vida noturna pode oferecer uma visão mais profunda de certos períodos históricos e políticos do que os registros oficiais. A partir desta perspectiva, ele diz, pode ser que conseguíssemos entender o presente ou o futuro olhando para as pistas de dança, a cena cultural ou as mesas de bar. 

Se Byrne tiver razão, e eu não duvido que tenha, as maneiras que temos encontrado coletivamente para lidar com o isolamento necessário ao combate do coronavírus servem como pequenas pistas para o cenário que se desenha para o mundo pós pandemia. 

Vida noturna não há [são exigências do momento], mas um sentimento coletivo de cooperação e uma profunda nostalgia de quando podíamos antecipar golpes e revoluções, avanços e recuos, crises e revezes no tempo passado entre canções, conversas ao pé do ouvido, amigos, amores, desafetos e algumas doses de gim. 

aldir blanc e a esperança equilibrista

Aldir Blanc, em cena do documentário “Aldir Blanc – Dois pra Lá, Dois Pra Cá”

Quando morreu Gabriel García Márquez, em abril de 2014, foi como se morresse um parente próximo, um avô querido, um professor remoto na arte de lutar fisicamente com cada palavra [e é quase sempre a palavra que vence]. A partida de Aldir Blanc, neste comecinho de maio, trouxe sentimento parecido, apesar dos seis anos e 8.236 quilômetros que separam uma passagem da outra, no tempo e no mapa.

Aldir Blanc fez parte da minha história antes mesmo que eu pudesse me dar conta. Entre as lembranças de criança mais antigas que tenho, estão as rodas de violão em família, em que os adultos se dividiam em dois grupos de vozes para reproduzir o diálogo entre dois velhos amigos que se reencontravam em um bar.

Eu não sabia quase nada da vida, do mundo e dos dilemas da existência. Tinha pouca ideia do fim dos amores e do estrago dos rancores. Desconhecia por inteiro o que os adultos divididos em dois grupos nas rodas de violão em família queriam dizer naquele verso a respeito do apreço não ter preço.

Hoje sei.

Anos depois, mais crescida, passei a prestar atenção nos arranjos melódicos das palavras, na diversidade de verbos, substantivos e advérbios que havia, e suas combinações. 

Por outras vias, cheguei novamente a Aldir Blanc e à coleção de mais de 500 composições dele. Uma obra poética enorme em muitos sentidos, que um antigo colega de jornal escreveu, com toda razão, fundia contrários – humor e fossa, devaneio e realidade, lirismo e grossura, a aldeia e o mundo. 

Aldir Blanc, um psiquiatra com a alma repleta de boemia, cantou a saudade, a política, o amor, ruas e risos, o descompasso e o contraste. Um punhado de escancaros e contidos, sustenidos e bemóis, sinais e desenganos, saudades e carnavais, Catavento e Girassol. O tempo, na transversal.

Partiu neste comecinho de maio um sujeito com quem tivemos a honra de aprender que a esperança é a equilibrista que sabe que o show de todo artista tem que continuar.

palavras mais buscadas na internet dizem muito sobre o isolamento

Foto de Josh Calabrese | Instagram @joshcala

É um exercício interessante olhar para as palavras mais buscadas na internet nestes tempos de isolamento social. Se, como era de se esperar, a procura por expressões ligadas ao coronavírus disparou, também cresceram consultas curiosas que dizem um pouco a respeito de como estamos atravessando os tempestuosos dias de pandemia.

São palavras e expressões que não têm relação direta com “covid-19”, “quarentena”, “coronavírus”, “sintomas coronavírus”, “álcool em gel” ou “posso pegar coronavírus duas vezes”. Mas, pelas bordas, explicam um bocado sobre como temos nos relacionado com as consequências, as mudanças, as perdas e as privações impostas pela doença.

A combinação “como fazer pão”, por exemplo, integra a lista das mais procuradas do período. Movidos quem sabe pelo bem-estar incomparável trazido pelo cheirinho de pão quente ou vai ver pelo desejo de transformação nascido do isolamento social, passamos a testar receitas, fabricar o próprio fermento, sovar, esperar crescer e assar pão em casa.

Assim, não deixa de ser simbólico que uma atividade que remete à concentração, autocontrole, simplicidade, afeto e paciência, ganhe tantos adeptos durante o caos. 

Do mesmo modo, chama atenção que, no último mês, o número de visualizações de vídeos de meditação no YouTube tenha apresentado uma alta de 35% quando comparado ao mesmo período de 2019. 

A palavra “empatia”, sobre a qual falávamos na semana passada, também ampliou sua presença nas ferramentas de busca e tendências da internet. A procura no Google – 140% maiores do que no mês passado – reforçam o que temos visto na publicidade, na profusão de lives, nas postagens, diários de bordo, happy hours virtuais e projeções para o futuro. A ideia de empatia está mesmo por todo lado durante a quarentena do coronavírus.

(Espero que estejamos mesmo preparados para nos colocar no lugar do outro).

Enquanto eu escrevia este texto, a procura por “covas abertas no cemitério” tiveram um boom repentino. No mesmo dia, o campeão de buscas era “whindersson separou”, reafirmando o que corre à boca miúda: que, nestes tempos de isolamento, não está fácil pra ninguém.