das coisas que circulam ao lado do coronavírus

Perdi a conta dos dias em que estou de quarentena. Por aqui, como provavelmente para muitos de vocês, tensão, melancolia, medo do futuro, um certo cansaço e algumas saudades dividem espaço com as obrigações diárias e as pequenas alegrias do cotidiano. Apesar do que pesa, sou privilegiada. Posso trabalhar em casa e tenho companhia, internet, esgoto, supermercado e farmácias (umas 10) a poucos passos de caminhada. 

De um lado, de mãos dadas com um vírus invisível, circulam notícias pouco otimistas sobre a saúde do mundo diante do coronavírus. Circulam perspectivas nada animadoras para a economia. Circulam os assustadores números da pandemia e informações falsas disseminadas por almas malvadas que acham graça do terror. Circula a falta de responsabilidade de determinados homens, na esfera pública e nos círculos privados.

Do outro lado, a solidariedade e a criatividade com que muitos escolheram lidar com a crise aquecem o coração da gente. Falo da música aconchegante que vem das lives, da linda iniciativa do ator de nariz adunco e cachos no cabelo, das vezes em que levamos comida para os vizinhos que vivem no vão da ponte. Falo das pequenas ações para estimular os negócios locais e das máscaras feitas à mão por costureiras voluntárias. 

Falo das mensagens que chegam quando a gente mais precisa, do bilhete oferecendo ajuda para os idosos do prédio, de tanta coisa que felizmente nem cabe aqui.

[Viva!]

Ouvi dizerem que, daqui em diante, a vida será marcada pela pandemia e pelo que fizemos ou deixamos de fazer durante o período. Há quem defenda que saíremos melhores do caos instaurado pela peste. Gostaria de ter convicção parecida, mas não sei. Sairemos do coronavírus mais amenos, mais serenos, menos treteiros, menos consumistas e mais generosos? 

Depois da pandemia, seremos, de fato, mais capazes de conviver em paz com nossos botões? Saberemos então diferenciar o essencial do que sobra? Chegaremos, enfim, a entender a importância de estar aberto à diversidade, de batalhar pela igualdade, de refutar o racismo, o machismo, a LGBTfobia e outros tipos de preconceito?

Tomara. Pois tolerância, humildade, justiça, equilíbrio, valorizar a diversidade, estimular os pequenos negócios, perseguir a empatia, respeitar o que nos é estranho seriam boas heranças para levarmos da temporada atual e da ressaca financeira que provavelmente ainda virá. 

Talvez seja este o plano divino. Talvez seja este o Weltgeist de que a colega falava, o espírito do mundo que Hegel dizia marcar ou transformar o Zeitgeist, o espírito do tempo. Mas isso é papo para outra hora. 

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