estamos mesmo preparados para a sociedade da empatia?

Ilustração O Vizinho Gentil, de Fernando Cobelo

A ideia de empatia está por todo lado nestes dias de isolamento social imposto pelo coronavírus. Na maioria das campanhas publicitárias, na profusão de lives, nas postagens, diários de bordo, happy hours virtuais e projeções para o futuro, por todo lado há registros de que sairemos da pandemia mais compreensivos, solidários e afeitos ao que é coletivo.

Mas será que estamos mesmo preparados para nos colocar no lugar do outro?

Empatia pressupõe um significativo grau de generosidade diante das coisas. Para praticá-la como manda o figurino, precisamos deixar o umbigo de lado, ouvir verdadeiramente, valorizar a diversidade, batalhar pela igualdade, refutar os preconceitos, brigar com as nossas próprias antipatias para tentar, sinceramente, compreender o que vem de fora.

Estaremos mesmo prontos para olhar mais do que exibir?

A pandemia expôs com tudo o quanto somos vulneráveis. O mesmo século que viu a tecnologia atingir níveis incríveis de inteligência e interação não conseguiu reagir com rapidez à proliferação de um vírus que mata indiscriminadamente. Temos máquinas quase perfeitas, mas não a vacina que neste momento nos salvaria. Temos canais virtuais para diferentes gostos, mas não comida e esgoto para todos.

Voltamos às formas de prevenção mais básicas. Lavar as mãos com água e sabão e evitar contato físico com outras pessoas é o que pode nos salvar. Se você tem a opção de ficar em casa, fique, para proteger a si e aos mais vulneráveis, dizem as autoridades com o mínimo de discernimento. Mas por quem realmente estamos trancados em casa? Estamos confinados também pelos mais vulneráveis ou apenas por nós mesmos?

Se os vizinhos do bairro ao lado não estão bem, porque faltam os ingredientes mais elementares para que vivam com dignidade, como obter paz e equilíbrio durante a quarentena e depois dela? Como dormir bem, cuidar da pele, praticar meditação, fazer cursos online, aprender a produzir o próprio pão, se não temos paz e equilíbrio com os nossos botões e com os que nos são mais próximos?

Não sairemos mais empáticos deste período se não estivermos agora, neste momento, right now, incomodados com as desigualdades que a pandemia escancarou. Não sairemos mais empáticos do isolamento se não estivermos agora, neste momento, right now, aprendendo a conviver com o que nos é estranho, resolvendo rusgas ao invés de criar desavenças, investindo no que nos une e não no que afasta. Agora, neste momento, right now.

carta aberta ao padre kelder brandão

Prezado Padre Kelder,

Tomo a liberdade de escrever esta carta aberta depois de ler seu artigo, alguns dias atrás, a respeito dos impactos do coronavírus na periferia do Espírito Santo. Não o conheço pessoalmente, apenas por meio das atividades públicas que o senhor desempenha e do que me conta uma amiga querida que temos em comum. Devo dizer que seu texto e o olhar que pude sentir a partir dele fortaleceram minha admiração e meu respeito. 

Obrigada por compartilhar sua visão das coisas neste momento de tensão, medo do futuro e melancolia, mas também de solidariedade, empatia e esperança em dias melhores.

É preciso falar insistentemente sobre a dureza da vida dos mais pobres. É preciso jogar luzes incansáveis sobre a violência e a forma como ela dizima jovens pretos e pobres. É preciso abrir os olhos de todos sobre o quanto isto também diz respeito a nós, que somos privilegiados pela cor da pele, pelo endereço da casa, pelo simples fato de termos esgoto, comida, oportunidades e possibilidades.

Minha missão por aqui geralmente é escrever sobre a importância da diversidade nas organizações e o modo como o racismo, o machismo e todos os outros tipos de preconceito emperram a nossa evolução como comunidade, como sociedade e como humanidade. 

Ultimamente, diante do cenário que nos foi posto por um vírus invisível e devastador, minhas reflexões passaram a incluir, também, a pandemia e seus efeitos emocionais, sociais e econômicos.

Como o senhor bem escreveu, o coronavírus atinge a todos, indiscriminadamente, mas as condições com que cada um enfrenta a doença são muito diferentes. Afinal, não dá pra dizer que os pacientes do Albert Einstein navegam no mesmo barco daqueles que não têm dinheiro para o sabão e o pão, para usar a expressão que o senhor sabiamente anotou. 

Espero que esta carta aberta o encontre bem de saúde e ainda disposto a batalhar pelos mais fracos. Sua força e generosidade são essenciais em tempos de paz; o que dizer, então, do quanto são importantes em tempos de guerra?

das coisas que circulam ao lado do coronavírus

Perdi a conta dos dias em que estou de quarentena. Por aqui, como provavelmente para muitos de vocês, tensão, melancolia, medo do futuro, um certo cansaço e algumas saudades dividem espaço com as obrigações diárias e as pequenas alegrias do cotidiano. Apesar do que pesa, sou privilegiada. Posso trabalhar em casa e tenho companhia, internet, esgoto, supermercado e farmácias (umas 10) a poucos passos de caminhada. 

De um lado, de mãos dadas com um vírus invisível, circulam notícias pouco otimistas sobre a saúde do mundo diante do coronavírus. Circulam perspectivas nada animadoras para a economia. Circulam os assustadores números da pandemia e informações falsas disseminadas por almas malvadas que acham graça do terror. Circula a falta de responsabilidade de determinados homens, na esfera pública e nos círculos privados.

Do outro lado, a solidariedade e a criatividade com que muitos escolheram lidar com a crise aquecem o coração da gente. Falo da música aconchegante que vem das lives, da linda iniciativa do ator de nariz adunco e cachos no cabelo, das vezes em que levamos comida para os vizinhos que vivem no vão da ponte. Falo das pequenas ações para estimular os negócios locais e das máscaras feitas à mão por costureiras voluntárias. 

Falo das mensagens que chegam quando a gente mais precisa, do bilhete oferecendo ajuda para os idosos do prédio, de tanta coisa que felizmente nem cabe aqui.

[Viva!]

Ouvi dizerem que, daqui em diante, a vida será marcada pela pandemia e pelo que fizemos ou deixamos de fazer durante o período. Há quem defenda que saíremos melhores do caos instaurado pela peste. Gostaria de ter convicção parecida, mas não sei. Sairemos do coronavírus mais amenos, mais serenos, menos treteiros, menos consumistas e mais generosos? 

Depois da pandemia, seremos, de fato, mais capazes de conviver em paz com nossos botões? Saberemos então diferenciar o essencial do que sobra? Chegaremos, enfim, a entender a importância de estar aberto à diversidade, de batalhar pela igualdade, de refutar o racismo, o machismo, a LGBTfobia e outros tipos de preconceito?

Tomara. Pois tolerância, humildade, justiça, equilíbrio, valorizar a diversidade, estimular os pequenos negócios, perseguir a empatia, respeitar o que nos é estranho seriam boas heranças para levarmos da temporada atual e da ressaca financeira que provavelmente ainda virá. 

Talvez seja este o plano divino. Talvez seja este o Weltgeist de que a colega falava, o espírito do mundo que Hegel dizia marcar ou transformar o Zeitgeist, o espírito do tempo. Mas isso é papo para outra hora. 

quando um homem interrompe uma mulher

Há um movimento curioso no isolamento forçado pela escalada mundial do coronavírus. Como a maioria das conversas têm sido mediadas pela tecnologia, encontramos atrás da tela do celular, do computador ou do tablet o disfarce perfeito para este mal moderno, onipresente e onisciente, que é a nossa imensa dificuldade de ouvir o outro.

A saída da comentarista Gabriela Prioli do programa Grande Debate, da CNN brasileira, apenas 15 dias depois da estreia, evidenciou o quanto a falta de educação ainda impera no tête-à-tête. Falta de educação, no caso, temperada com generosa pitada de machismo. 

Mestre em direito penal pela Universidade de São Paulo e professora na pós-graduação da Universidade Mackenzie, Prioli ascendeu como flecha no recém-inaugurado canal de notícias. Mas, apesar das credenciais de respeito e da ótima desenvoltura diante das câmeras, a comentarista esbarrou no péssimo hábito dos parceiros de bancada de interromper suas falas, tantas vezes e de modo tão agressivo que ela preferiu pedir para sair.

A prática tem nome: manterrupting. Colagem das palavras homem + interrupção em inglês, a expressão é usada quando um homem interrompe uma mulher, num debate, em reuniões de trabalho, na mesa de bar, no ambiente acadêmico ou em conversas entre amigos, tentando desqualificar sua posição sem deixá-la nem mesmo completar o raciocínio.

Seu primo próximo é o mansplaining, quando um homem explica coisas óbvias para uma mulher, como se ela não fosse intelectualmente capaz de entender sem a ajuda masculina. 

O termo foi popularizado pela escritora norte-americana Rebecca Solnit em “Os Homens Explicam Tudo para Mim”, livro em que ela conta o caso do homem que tentou explicar PARA ELA o trabalho que ELA MESMA havia escrito. Parece piada, né? Não é.