drauzio varella e um abraço contra o preconceito

Preciso dividir uma angústia com vocês, uma agonia real, uma gastura daquelas. Sei que vai ser polêmico, mas, olha, tem sido difícil não pensar nisto: quando as Bolsas e o dólar voltarem a patamares aceitáveis, quando o coronavírus deixar de ser uma pandemia, depois que o pibinho crescer um pouco, depois de tudo, gente, em que lugar vamos estar como Humanidade? Como quando onde por que chegamos ao ponto de nutrir tanta raiva por causa de um abraço?

Os fatos são conhecidos pela maioria de nós. No início de março, o médico Drauzio Varella fez seu quadro no Fantástico sobre as mulheres trans que cumprem pena em alas masculinas de presídios. Uma das entrevistadas, Suzy Oliveira Santos, contou ao especialista que não recebia visitas nem correspondências há oito anos. A reação dele foi dizer “solidão, né, minha filha” e abraçar a moça.

Dias depois, a bomba. A abraçada estava presa por causa de um crime bárbaro contra uma criança, um crime para o qual dificilmente haverá perdão, mas que ela tem pago, diariamente, seguindo as regras da Justiça. O tribunal da internet entrou em ação e passou a crucificar tanto a entrevistada quanto o entrevistador. 

Doutor Drauzio veio a público dizer que é médico, não juiz. Pediu desculpas à família da criança estuprada e assassinada por Suzy e reforçou que seu papel é tratar pacientes sem julgamentos. Por isso, explicou, ele nunca pergunta aos presos sobre o crime que cometeram, apenas faz o que pode para cuidar deles. 

Com a experiência de quem lida há mais de 40 anos com pacientes com câncer e aids e há cerca de 30 com homens e mulheres encarcerados, Drauzio Varella é o médico mais popular do país. Em 1999, ele lançou o best-seller Estação Carandiru, que retrata seu dia a dia como médico voluntário no superlotado complexo penitenciário do Carandiru, onde 111 presos foram mortos pela polícia em 1992 e que acabaria implodido em 2002.

A trans também escreveu um bilhete diante da repercussão negativa da notícia, publicado no Instagram de sua advogada: “Eu sei que errei e muito. Nenhum momento tentei passar por inocente e, desde aquele dia, me arrependi verdadeiramente e hoje estou aqui pagando por tudo que eu cometi”. 

Algumas questões se colocam, em que pesem a enormidade do crime de Suzy Santos e a imensurável dor da família da vítima. Se a presidiária não fosse transexual, a reação dos brasileiros seria a mesma? No país que mais mata transgêneros no mundo, qual a chance do preconceito ser maior com um LGBTQI+ que cometeu um crime do que com um heterossexual na mesma situação?

Afinal, o Brasil matou ao menos 868 travestis e transexuais nos últimos oito anos, segundo dados da Transgender Europe (TGEu), mais que o triplo de assassinatos registrados no México, segundo colocado no ranking. O tempo médio de vida de um brasileiro transgênero é de apenas 35 anos, enquanto a expectativa de vida da população em geral é de 75,5 anos, de acordo com o IBGE. 

Transgêneros são pessoas que se percebem de um gênero diferente do que lhes foi atribuído no nascimento. Suas batalhas são enormes: lutar para ter uma identidade com a qual se identificam, escapar das estatísticas da violência, acessar serviços de saúde e educação, lidar com a hostilidade nos espaços públicos e com a rejeição familiar. Nenhuma delas justifica o crime bárbaro que Suzy cometeu. Mas nem isso nem qualquer um de nós deve tirar dela o direito a um abraço.

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