meu carnaval com rosa montero, marie curie e a ridícula ideia de nunca mais te ver

Passei o carnaval na luxuosa companhia de “A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver”, da escritora e jornalista espanhola Rosa Montero. O livro promove o encontro de duas histórias reais, vividas por duas mulheres fortes, separadas no tempo por 100 anos, mas unidas na desmedida dor de perder seus respectivos companheiros.

De um lado, Rosa Montero nos conta da morte do cientista Pierre Curie, partindo de fragmentos do diário de sua esposa, Marie Curie, primeira mulher na História a receber um prêmio Nobel e a única a receber dois. Do outro, nos revela os sentimentos por trás da perda de seu próprio marido, Pablo Lizcano, em 2009, vítima de um câncer fulminante após 21 anos de união.

Madame Curie foi a fascinante figura que descobriu e mediu a radioatividade, um elemento da Natureza capaz de curar tumores tanto quanto de dizimar multidões. Em 1903, levou o Nobel de Física, em parceria com o marido. Em 1911, ganhou sozinha o de Química. Havia ficado viúva em 1906. Quase não sorria e comia pouquíssimo. Sua magreza excessiva contrastava com a determinação em quebrar barreiras no masculino mundo da ciência. 

Rosa Montero é a autora de um maravilhoso ensaio sobre a imaginação publicado em 2003 e espirituosamente intitulado “A Louca da Casa”. Começou a escrever depois de ter sofrido de tuberculose e, em 1979, publicou seu primeiro romance, “Crônica del Desamor”. De lá para cá, foram cerca de 30 títulos e centenas de artigos para jornais de todo o mundo. Em 1978, ganhou o Prêmio Mundial de Entrevistas e, até hoje, a técnica que ela utiliza como entrevistadora é estudada em universidades espanholas e latino-americanas de jornalismo. 

Ao ler o diário em que Marie Curie registrou seu luto, a escritora percebeu não apenas uma enorme admiração, mas também muitos pontos em comum com o que estava vivendo desde a morte do marido – “uma solidão tão grande que não cabia na palavra solidão, uma total desconexão do mundo”. 

Então, decidiu mergulhar na vida dos Curie. A partir daí, construiu uma série de reflexões não sobre a morte, mas sobre a vida, a liberdade e, principalmente, sobre a força feminina em reconstruir as coisas depois do caos.   

Muitas e muitas vezes, questões particulares, de tão específicas, acabam sendo universais. Fingir dureza para impor respeito em ambientes masculinos, por exemplo, é uma postura que inúmeras entre nós mulheres conhecemos na prática, apesar das conquistas feministas dos últimos anos e dos avanços no debate sobre igualdade entre os gêneros. 

Ao aproximar as vivências e a fragilidade temporária das duas diante de uma perda tão intensa, “A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver” nos lembra sobre a importância de encontrarmos referências que nos representem e sobre o quão forte elas podem ser para mulheres em processos de reconstrução. Afinal, como bem escreve a autora espanhola, depois de baques profundos, a gente não se recupera nunca: se reinventa.

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