os primeiros dias da quarentena

Foto de Claire Mueller

Pandemias podem aflorar o pior e o melhor de cada um e que cabe a nós escolhermos o lado em que desejamos estar. Os primeiros dias da quarentena forçada pelo coronavírus evidenciaram as cercanias que se colocam. Fomos nos ajeitando, em uma ou outras, dependendo de quem somos, de como vivemos, para onde vamos e do que desejamos para nós e para o mundo.

Como numa guerra, nos dividimos entre despreocupados e zelosos, céticos e amedrontados, individualistas e generosos. Escolhemos o que postar e quanto comprar de papel higiênico. Escolhemos quais cuidados são possíveis dedicar a nós mesmos e aos que nos são queridos, mesmo que a distância. Escolhemos sobre defender a gravidade do momento ou minimizá-lo.

Cada escolha diz um pouco a nosso respeito e ao modo como tentamos nos virar diante do caos. 

Falo de opções, é bom deixar claro, não de obrigações e necessidades- não dos que não podem se dar ao luxo de trabalhar em casa, dos guerreiros que atuam nos hospitais, no recolhimento de lixo e outros serviços essenciais, nas farmácias, supermercados, restaurantes e entregas. Falo de opções, não de obrigações e necessidades.

Falo de quem pode escolher entre ficar em casa e sair, entre valorizar um pequeno negócio ou uma grande rede, entre abarrotar a dispensa ou abastecer a casa com o que é de fato necessário. Falo de quem pode escolher entre compartilhar notícias de fontes não comprovadas ou passar pra frente apenas as que tivemos tempo de conferir. Falo de quem, mesmo fora dos grupos de risco, age em prol dos mais suscetíveis.

Um vírus que nasceu do outro lado do mundo e em tão pouco tempo alcançou quase todas as nações tem dado recados importantes. Que a tecnologia que tanto nos polariza nasceu para encurtar distâncias, não o contrário. Que solidariedade e empatia são valores bonitos de falar, mas difíceis de pôr em prática. 

Que pandemias são sobre doenças, mas também sobre como lidamos com a escassez, as ausências e a solidão. Que a diversidade das pessoas é uma coisa maravilhosa, mas, não, não dá pra dizer que quem depende do SUS e quem se trata no Albert Einstein estão no mesmo barco porque o coronavírus não escolhe suas vítimas. 

Espero que aqueles que dizem que sairemos melhores desta história tenham razão. E, tanto quanto possível, que todos fiquem em casa.

a parte que nos cabe diante do coronavírus

Foto de Evgeni Tcherkasski

O coronavírus assusta não apenas pelos riscos impostos à saúde, mas também porque atinge o que nos une: o abraço, o encontro, o convívio de diferentes nos espaços coletivos que, por ora, estamos orientados a evitar. O imprevisível da doença também preocupa, somado à exaltação coletiva. O que fazer, então? Como atravessar a pandemia com sanidade e um mínimo de estabilidade?

Para começar, histeria não é boa companhia. Autocuidado, empatia e solidariedade, ao contrário, são. Cuide de você e de quem corre do seu lado. 

Respeite a quarentena, tanto quanto possível. Pense nos mais suscetíveis: os grupos de risco, os de menor condição financeira, os que não têm a opção de trabalhar em casa, os que precisam de ônibus para chegar ao trabalho, os que não têm casa. 

Apoie os negócios locais. Pequenas empresas são as mais ameaçadas por crises como a que estamos vivendo. A recuperação também costuma ser mais lenta e penosa para as menores do que para grandes organizações.

Dentro do possível, valorize a produção dos artistas da sua comunidade, consumindo seu trabalho em casa ou de maneira virtual. Há músicos realizando shows caseiros com transmissão ao vivo pelas redes sociais, por exemplo.

Se você comprou um ingresso para um evento que foi adiado, avalie a possibilidade de não pedir o reembolso e aguardar a remarcação da apresentação quando tudo voltar ao normal.

Há um grande evento de música a distância sendo gestado por um grupo de artistas brasileiros, inspirados pelo festival Eu Fico em Casa, em Portugal. Nos dias 24 a 27 de março, ao longo de 40 horas, mais de 60 artistas farão apresentações intimistas pela internet. Busque por @festivalficoemcasabr.

O mundo não vai acabar (ainda). Consumir de modo racional e organizado é o mais indicado, mesmo em tempos de pandemia. Estoques gigantescos não são sustentáveis e, pelo menos até agora, não são o caminho recomendado por quem entende do assunto.

Pandemias podem aflorar o pior e o melhor de cada um. Cabe a nós escolhermos o lado em que desejamos estar.

drauzio varella e um abraço contra o preconceito

Preciso dividir uma angústia com vocês, uma agonia real, uma gastura daquelas. Sei que vai ser polêmico, mas, olha, tem sido difícil não pensar nisto: quando as Bolsas e o dólar voltarem a patamares aceitáveis, quando o coronavírus deixar de ser uma pandemia, depois que o pibinho crescer um pouco, depois de tudo, gente, em que lugar vamos estar como Humanidade? Como quando onde por que chegamos ao ponto de nutrir tanta raiva por causa de um abraço?

Os fatos são conhecidos pela maioria de nós. No início de março, o médico Drauzio Varella fez seu quadro no Fantástico sobre as mulheres trans que cumprem pena em alas masculinas de presídios. Uma das entrevistadas, Suzy Oliveira Santos, contou ao especialista que não recebia visitas nem correspondências há oito anos. A reação dele foi dizer “solidão, né, minha filha” e abraçar a moça.

Dias depois, a bomba. A abraçada estava presa por causa de um crime bárbaro contra uma criança, um crime para o qual dificilmente haverá perdão, mas que ela tem pago, diariamente, seguindo as regras da Justiça. O tribunal da internet entrou em ação e passou a crucificar tanto a entrevistada quanto o entrevistador. 

Doutor Drauzio veio a público dizer que é médico, não juiz. Pediu desculpas à família da criança estuprada e assassinada por Suzy e reforçou que seu papel é tratar pacientes sem julgamentos. Por isso, explicou, ele nunca pergunta aos presos sobre o crime que cometeram, apenas faz o que pode para cuidar deles. 

Com a experiência de quem lida há mais de 40 anos com pacientes com câncer e aids e há cerca de 30 com homens e mulheres encarcerados, Drauzio Varella é o médico mais popular do país. Em 1999, ele lançou o best-seller Estação Carandiru, que retrata seu dia a dia como médico voluntário no superlotado complexo penitenciário do Carandiru, onde 111 presos foram mortos pela polícia em 1992 e que acabaria implodido em 2002.

A trans também escreveu um bilhete diante da repercussão negativa da notícia, publicado no Instagram de sua advogada: “Eu sei que errei e muito. Nenhum momento tentei passar por inocente e, desde aquele dia, me arrependi verdadeiramente e hoje estou aqui pagando por tudo que eu cometi”. 

Algumas questões se colocam, em que pesem a enormidade do crime de Suzy Santos e a imensurável dor da família da vítima. Se a presidiária não fosse transexual, a reação dos brasileiros seria a mesma? No país que mais mata transgêneros no mundo, qual a chance do preconceito ser maior com um LGBTQI+ que cometeu um crime do que com um heterossexual na mesma situação?

Afinal, o Brasil matou ao menos 868 travestis e transexuais nos últimos oito anos, segundo dados da Transgender Europe (TGEu), mais que o triplo de assassinatos registrados no México, segundo colocado no ranking. O tempo médio de vida de um brasileiro transgênero é de apenas 35 anos, enquanto a expectativa de vida da população em geral é de 75,5 anos, de acordo com o IBGE. 

Transgêneros são pessoas que se percebem de um gênero diferente do que lhes foi atribuído no nascimento. Suas batalhas são enormes: lutar para ter uma identidade com a qual se identificam, escapar das estatísticas da violência, acessar serviços de saúde e educação, lidar com a hostilidade nos espaços públicos e com a rejeição familiar. Nenhuma delas justifica o crime bárbaro que Suzy cometeu. Mas nem isso nem qualquer um de nós deve tirar dela o direito a um abraço.

sororidade e o que aprendi ao divulgar o trabalho de mulheres inspiradoras

Há uma máxima bastante conhecida segundo a qual devemos começar por nós mesmos a transformação que desejamos ver no mundo. Ano passado, nas bordas do Dia Internacional da Mulher, decidi começar por mim uma pequena mudança: fazer um exercício de sororidade e, ao longo de um mês, divulgar, propagar a elogiar nas minhas redes sociais o trabalho de mulheres inspiradas e inspiradoras.

Uma das eleitas no meu modesto empreendimento de comunicação era a cientista responsável pela criação de um robô cão-guia que alerta usuários cegos sobre a presença de obstáculos em ruas e calçadas. Outra dava aulas de ioga e meditação, como voluntária, para as detentas em uma penitenciária. 

Quatro delas faziam rap no majoritariamente masculino e machista mundo do hip hop, cantando desigualdades, resistência, respeito, violência, a vida na periferia e a força feminina. Outra incentivava a autoestima e o direito de escolha das mulheres em desenho feitos à mão, com lápis de cor e caneta nanquim sobre papel kraft. 

Uma defendia a construção de um modelo afetivo diante do fogão, recriando com ingredientes frescos o sabor, o aroma e a textura de pratos caros ao gosto comum. Outra transbordava força, fé e resistência, à frente de um grupo de quilombolas no interior do Espírito Santo. 

Uma atravessou as últimas quatro décadas com bravura, navegando tanto por épocas de ouro quanto por cenários de crise, para manter de pé uma galeria de arte. A outra, cadeirante desde os 20 anos de idade, tornou-se uma incansável divulgadora de questões ligadas à acessibilidade e à superação.

Pode parecer óbvio, mas a verdade é que, com raras exceções, fomos criadas para colaborar com os homens e competir com as mulheres. Demoramos para perceber que agindo assim reforçamos o machismo, nutrimos a desigualdade e enfraquecemos a nós mesmas. Ao divulgar durante um mês o trabalho de mulheres de dentro e fora do meu círculo de convivência, aprendi que sororidade não é apenas uma palavra da moda. Ela é, ou precisa ser, uma revolução feita de dentro para fora.

meu carnaval com rosa montero, marie curie e a ridícula ideia de nunca mais te ver

Passei o carnaval na luxuosa companhia de “A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver”, da escritora e jornalista espanhola Rosa Montero. O livro promove o encontro de duas histórias reais, vividas por duas mulheres fortes, separadas no tempo por 100 anos, mas unidas na desmedida dor de perder seus respectivos companheiros.

De um lado, Rosa Montero nos conta da morte do cientista Pierre Curie, partindo de fragmentos do diário de sua esposa, Marie Curie, primeira mulher na História a receber um prêmio Nobel e a única a receber dois. Do outro, nos revela os sentimentos por trás da perda de seu próprio marido, Pablo Lizcano, em 2009, vítima de um câncer fulminante após 21 anos de união.

Madame Curie foi a fascinante figura que descobriu e mediu a radioatividade, um elemento da Natureza capaz de curar tumores tanto quanto de dizimar multidões. Em 1903, levou o Nobel de Física, em parceria com o marido. Em 1911, ganhou sozinha o de Química. Havia ficado viúva em 1906. Quase não sorria e comia pouquíssimo. Sua magreza excessiva contrastava com a determinação em quebrar barreiras no masculino mundo da ciência. 

Rosa Montero é a autora de um maravilhoso ensaio sobre a imaginação publicado em 2003 e espirituosamente intitulado “A Louca da Casa”. Começou a escrever depois de ter sofrido de tuberculose e, em 1979, publicou seu primeiro romance, “Crônica del Desamor”. De lá para cá, foram cerca de 30 títulos e centenas de artigos para jornais de todo o mundo. Em 1978, ganhou o Prêmio Mundial de Entrevistas e, até hoje, a técnica que ela utiliza como entrevistadora é estudada em universidades espanholas e latino-americanas de jornalismo. 

Ao ler o diário em que Marie Curie registrou seu luto, a escritora percebeu não apenas uma enorme admiração, mas também muitos pontos em comum com o que estava vivendo desde a morte do marido – “uma solidão tão grande que não cabia na palavra solidão, uma total desconexão do mundo”. 

Então, decidiu mergulhar na vida dos Curie. A partir daí, construiu uma série de reflexões não sobre a morte, mas sobre a vida, a liberdade e, principalmente, sobre a força feminina em reconstruir as coisas depois do caos.   

Muitas e muitas vezes, questões particulares, de tão específicas, acabam sendo universais. Fingir dureza para impor respeito em ambientes masculinos, por exemplo, é uma postura que inúmeras entre nós mulheres conhecemos na prática, apesar das conquistas feministas dos últimos anos e dos avanços no debate sobre igualdade entre os gêneros. 

Ao aproximar as vivências e a fragilidade temporária das duas diante de uma perda tão intensa, “A Ridícula Ideia de Nunca Mais te Ver” nos lembra sobre a importância de encontrarmos referências que nos representem e sobre o quão forte elas podem ser para mulheres em processos de reconstrução. Afinal, como bem escreve a autora espanhola, depois de baques profundos, a gente não se recupera nunca: se reinventa.