leitura para adiar o fim do mundo

Na margem esquerda do Rio Doce, em Minas Gerais, vivem os índios Krenak, uma tribo que luta para sobreviver desde a chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500. Na margem direita há uma serra chamada Takukrak. De manhã, só de olhar em sua direção, dá para saber se o dia vai ser bom ou se é melhor ficar quieto: ou a montanha amanhece com cara de quem não está para conversa ou acorda esplêndida, indicando que os vizinhos podem fazer festa, dançar, pescar, o que quiserem.

A história da montanha com personalidade própria é contada por Ailton Krenak no livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, uma pequena e potente defesa de que apenas a diversidade e uma profunda conexão com a natureza podem trazer um novo significado à existência e salvar a humanidade do abismo.

Krenak é o líder indígena que, em 1987, na Assembleia Constituinte, pintou o rosto com a tinta preta do jenipapo para protestar contra retrocessos na luta dos povos primitivos do Brasil. Seu gesto foi um dos pontos altos da campanha de mais de 300 etnias pelo direito de existir e influenciou a inclusão de um capítulo na Constituição sobre os direitos dos índios.

Para ele, naquela época como agora, a distância entre os homens e a natureza nega a pluralidade das formas de existência. O caminho contrário passa pelo reordenamento dos espaços, pelo respeito às diferenças, por novos modos de relacionamento com a terra e por outro tipo de compreensão sobre as coisas que realmente importam.

Afinal, como sustentar a ideia de humanidade diante da violência de colonizadores contra nativos, de uma certa verdade única (ou concepção de verdade) contra qualquer divergência? Como justificar que somos um só povo diante de tantos homens e mulheres sem os acessos mínimos para o exercício de ser? Como bancar a ideia de que somos humanos diante da intolerância que tem dado as cartas?

O nosso tempo produz ausências no sentido de viver em sociedade e no próprio sentido da experiência da vida, Krenak nos diz. As faltas, ele defende, geram uma enorme intolerância com relação a quem ainda é capaz de experimentar – palavras do pensador indígena – o prazer de estar vivo, de dançar e de cantar.

Seres que cantam, que dançam e que têm a visão mágica do mundo, por sua vez, alimentam nossa esperança, ele prossegue. Adiar o fim do mundo, o sábio índio escreve, é exatamente para podermos contar e ouvir mais uma história.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 21 de dezembro de 2019.

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