desculpa, morgan freeman [ou porque precisamos de um dia da consciência negra]

Sempre que esta época chega, ano após ano, religiosamente, alguém decide desenterrar o vídeo em que o ator norte-americano Morgan Freeman diz que o dia em que pararmos de nos preocupar com consciência negra, amarela ou branca e nos preocuparmos com a consciência humana, o racismo desaparece.

Apesar das raízes de Freeman e da cor da sua pele (ou talvez por isso mesmo), a fala costuma servir de munição para os que criticam a existência do Dia da Consciência Negra. O que a citação e suas repetições revelam, no entanto, é justo o oposto: que ainda precisamos muito de lugares, figuras públicas e datas dedicados a questões sobre o racismo e a contribuição da cultura afro para a sociedade brasileira, ontem e hoje.

O dia escolhido – 20 de novembro – coincide com o da morte, em 1695, de Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência negra no Brasil e um dos maiores líderes das causas dos descendentes de africanos por aqui. A data difere das celebrações do 13 de Maio porque muitos questionam a legitimidade das comemorações em torno da Abolição da Escravatura. O que se diz, em resumo e com todo sentido, é que a lei abolicionista atendia muito mais a interesses econômicos da elite do que aos escravos, que tiveram zero de estrutura para começar a vida em liberdade.

Longe de ser vitimista, racista ao contrário ou divisionista, como dizem os críticos, o 20 de Novembro existe para levantar questões infelizmente ainda muito atuais.

Por que o salário de um gerente de vendas branco bate os R$ 110 mil enquanto o de um negro, na mesma função, não chega a R$ 48 mil (dados publicados na última semana)? Por que pretos em cargo público ganham R$ 3 mil a menos do que brancos? Por que, ao noticiar este dado, o jornal dá protagonismo aos últimos (“Brancos ganham até R$ 3 mil a mais do que pessoas pretas”) e não o contrário (“Pretos ganham até R$ 3 mil a menos do que brancos”)?

Como justificar que a taxa de assassinatos entre os pretos é quase cinco vezes maior do que entre brancos? Como dizer que somos iguais e que o que importa é a consciência humana numa sociedade que oferece chances tão menores aos negros?

É histórico o débito que temos com o povo preto. Nosso desafio é olhar para essa causa com envolvimento, solidariedade e máximo respeito. Não falar sobre racismo não faz o racismo desaparecer. Um dia dedicado a debatê-lo, a valorizar a igualdade racial e a estimular a desconstrução de um século inteiro de preconceitos é o mínimo que podemos fazer.

📰 Texto originalmente publicado em A Gazeta no dia 23 de novembro de 2019.

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