pequena crônica sobre toda gente

Gente do mal atrapalha os planos da gente, altera a nossa rota, bagunça os nossos afetos, põe em xeque o gosto por coisas que, em outros tempos, tinham sabor de bolo quentinho de chocolate. Gente do mal desnorteia a inspiração da gente, aniquila a nossa fé no movimento, abala a esperança que temos em dias melhores e madrugadas.

Gente do mal transforma o riso em pontas cobertas de poeira e ferrugem, detona o equilíbrio que vai dentro, bloqueia a energia que corre nas veias. Gente do mal é capaz de jogar projetos, anseios e desejos de uma vida inteira num buraco escuro e fundo. Gente do mal não leva em conta a dedicação, despreza o esforço e tem pouquíssima consideração com o trabalho e a história da gente. Gente do mal finge que se importa, mas ai ai ai. Gente do mal um dia morre na gente.

Às vezes até as nossas pacientes economias entram na roda torta dessa gente maldosa que, vez ou outra, esbarra no caminho da gente. Gente do mal não tem freio, simplesmente.

Graças aos deuses e deusas, gente do bem é justo o oposto. Gente do bem não rouba da gente – nem tempo nem dinheiro nem a fé no movimento nem a esperança em dias melhores. Gente do bem não finge afeição, não estimula a desavença, não alimenta a discórdia nem solta da mão da gente.

Gente do bem ajuda a gente a lembrar de onde veio e contribui na construção de endereços, sequências e desfechos, nos consertos e nos recomeços. Gente do bem diz o que é preciso dizer, a despeito da timidez, do embaraço ou de possíveis constrangimentos. Gente do bem vibra com a alegria da gente.

Às vezes até as nossas causas mais secretas entram na pauta dessa gente amável que, vez ou outra, esbarra no caminho da gente. Gente do bem colore a estrada da gente e valoriza cada segundo de dedicação e lealdade. Gente do bem é como na canção.

[Quando os teus olhos cansarem dos meus olhos, não é preciso haver falsidade entre nós].

Graças aos deuses e deusas, gente do bem combate a violência com argumento, verdade e brandura. Gente do bem salva dias, noites e madrugadas de falta de sentido, dias, noites e madrugadas em que a maldade alheia bate na porta da gente, dias, noites e madrugadas de injustiça, desequilíbrio ou uma ausência daquelas.

Gente do bem mora de pantufas no coração da gente.

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