um olhar sobre a felicidade

Nem sempre é fácil. O ritmo alucinado e alucinante da vida nos induz a acumular bagagens, competir com os semelhantes, desprezar os diferentes, ouvir pouco, falar muito, correr por correr, quase sempre sem pensar no que verdadeiramente nos move. Temos visto e vivido dias e respectivas noites repletos de tretas para os mais variados gostos, desencontros, angústia, sombras, solidão, falta aguda de perspectivas animadoras.

Nem sempre é fácil. O modo como muitos de nós estamos vivendo afasta mais do que aproxima, destaca as discordâncias mais do que os elos, fortalece o ego em oposição à partilha, naturaliza o preconceito, amplifica a intolerância, estimula a violência.

Definitivamente, nem sempre é fácil.

Mas um sujeito de rosto banal, óculos de aros finos, nariz adunco e sorriso contido chamado Tal Ben-Shahar parece ter vislumbrado um caminho. Na primeira vez que ele ministrou seu curso na Universidade de Harvard, Estados Unidos, em 2008, oito alunos se inscreveram. Dez anos depois, o número era ligeiramente maior: passavam de 1.000 os interessados naquele que se tornaria o curso mais conhecido da faculdade mais celebrada do mundo.

Felicidade, não Direito, Medicina ou Engenharia, era o programa que os estudantes buscavam com o professor israelense de rosto banal e óculos de aros finos.

O que realmente interfere no quanto somos felizes, ele ensina, é o tempo que passamos, por inteiro, com pessoas, em lugares e em atividades que são importantes para nós. Além disso, entender o estresse e o fracasso como partes do que também somos ajuda muito, e é um aprendizado e tanto. Para evitar o desânimo, a frustração e a tristeza, precisamos vivenciar todas as emoções, sejam elas boas ou justo o oposto, como a raiva, o arrependimento e a decepção. Caso contrário, ele aposta, elas se intensificam.

Sentimentos dolorosos não são de todo mau, defende o professor israelense de nariz adunco e sorriso contido. Eles significam que estamos vivos e que, salvo engano e uma ou outra exceção, não somos psicopatas.

[Ufa].

Há, evidentemente, um componente genético na felicidade nossa de cada dia. Mas a maior parte dela, garante Ben-Shahar, depende da forma como decidimos encarar as quedas, interpretar as derrotas e fazer escolhas, das grandes às menores.

Há também as condições materiais, e é certo que elas importam, porque temos contas a pagar, supermercado, remédio controlado, o conserto da bicicleta, os impostos todos, as prestações combinadas, a pia que precisa ser trocada, o condomínio implacável no quinto dia do mês, a vida real repleta de boletos, extratos e faturas impiedosos a bater na porta.

O que fazer, então, quando as contas não fecham? Como ser feliz em meio a tantas obrigações e diante dos tropeços? Como ter tranquilidade e alegria apesar do que pesa? Como caminhar rumo a um futuro próspero a despeito do que falta? Como seguir em frente depois de uma grande decepção ou de um tombo daqueles?

Resumindo a ópera, a resposta ensinada em Harvard aponta para equilíbrio e propósito, para o tempo passado com aqueles que são importantes para nós, a capacidade de entender o fracasso como parte do que somos e a força interior que herdamos dos momentos difíceis.

Nem sempre é fácil [não mesmo], mas quem disse que seria?

da série começos inesquecíveis: moby dick, 1851

aspasMe chamem de Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. Sempre que me pego ficando amargo, mandíbula tensa; sempre que em minha alma se faz um novembro chuvoso e cinzento; sempre que me vejo detendo involuntariamente o passo diante de agências funerárias e seguindo a cauda de todo cortejo fúnebre que encontro; e especialmente sempre que minha hipocondria leva a melhor sobre mim de tal forma que só um forte princípio moral me impede de sair à rua e, deliberadamente e com método, aplicar murros na cara dos passantes – nesses momentos, sei que está na hora de me fazer ao mar o mais depressa possível.

Moby Dick
Herman Melville
1851

considerações poéticas sobre a terra vista de cima

TimPeake

Durante os 186 dias que passou numa missão espacial, o astronauta britânico Tim Peake completou exatas 2.720 voltas ao redor da Terra. Ao olhar o universo do alto, a uma velocidade de mais ou menos 30 mil quilômetros por hora, o homem do espaço ficou impressionado com a beleza frágil do nosso planeta e com a pequena espessura da atmosfera, uma fina camada que sustenta um milhão de formas de vida, ou mais.

É impossível olhar para a Terra a partir do espaço e não ficar aturdido, ele diz.

De dia – palavras dele também – quase não se notam ocupações humanas. À noite, a história é outra. Ao ver do espaço as luzes das cidades, das estradas e das estruturas construídas pelo homem, dá para traçar o padrão das migrações, dos assentamentos e até da exploração dos recursos naturais, como aquela feita pelos barcos de pesca da Tailândia ou a promovida pelas máquinas de extração de petróleo no Oriente Médio.

Peake fotografou o que enxergava. Registrou a madrugada iluminada de Dubai, o pôr do sol no Pacífico, os tons de azul das Bahamas, a beleza tortuosa do Alasca. Guardou as formas do canal do Panamá, os contornos de Ipanema e Copacabana, a Ponte Rio-Niterói e a Baía de Guanabara. Catalogou o Himalaia e seus picos nevados, as areias do deserto do Saara, as pirâmides do Egito. Sentiu através da câmera a floresta amazônica e o correr de seu rio.

As conclusões não poderiam ser mais poéticas: de cima, ao que tudo indica, nada separa lugares distintos além das divisões produzidas pela mãe natureza, ao longo de 4,5 bilhões de anos. Em vez disso, o planeta que aqui embaixo vemos completamente repartido se revela um imenso quebra-cabeça geológico, com características que se repetem por continentes inteiros, harmonicamente.

O mundo visto do alto não é fragmentado como o conhecemos por aqui. Vistas de outra perspectiva, as fronteiras literais ou simbólicas criadas pela mão do homem são, no espaço, reduzidas a quase nada. Vistas de outra perspectiva, as batalhas que importam parecem ser não aquelas movidas pela ganância, pela má política e pela falta de cuidado com os semelhantes, suas casas e o meio ambiente.

Vistas de outra perspectiva, as transformações mais relevantes são como deviam ser as minhas, as suas, as de todos nós: aquelas esculpidas especialmente pela força da natureza e pela passagem do tempo, aquelas que realmente importam.