pequeno dicionário para o ano que começou

A
Agradecer, apesar das dificuldades ou por causa delas
Alongar os músculos, todos os dias, todos os meses, todos os anos
Amar com zelo, lealdade e desapego, apesar das provas e dos tropeços

B
Blog, ano 15: que seja fértil como os melhores solos
Bicicleta: que sejam agradáveis, estáveis e seguros os caminhos
Brasil: que as coisas terminem bem

C
Cuidar da vida [mais da própria, menos da dos outros]
Cuidar do corpo, todos os dias, todos os meses, todos os anos
Cuidar dos sonhos

D
Destemer, apesar do desconhecido
Dançar, apesar das dores
Decidir, apesar do medo, exatamente como a escritora sugeriu que fosse

[Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir].

E
Evitar a fadiga
Encontrar a saída
Escolher o que compensa, dispensar o resto e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém

F
Faça amor, não faça chapinha
Faça amor, não faça guerra
Faça amor, não faça merda

[Palavrões, no geral, também é melhor evitar]

G
Guarde as críticas mais ácidas para depois
Guarde um pouco de energia [mas não toda] para amanhã
Guarde as melhores lembranças para sempre

H
Há de ser mais claro
Há de ser mais simples
Há de ser mais tranquilo

I
Inspirar
Inspirar
Inspirar

J
Justiça, espero que você de fato exista

K
Kit Kat para os dias amargos
Kind of Blue para as madrugadas
Keep calm, sempre que for o caso

L
Lealdade aos seus
Liberdade a si mesmo
Laços no lugar de nós

M
Mínimas, semínimas, fusas e semifusas
Mãos à obra
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo [mantra]

N
Nina Simone em 1964 [Don’t Let me Be Misunderstood]
Nina Simone em 1965 [Feeling Good]
Nina Simone em 1966 [Lilac Wine]

[Pus meu coração nessa receita].

O
O que disse o romancista: “O que nos muda também nos aumenta”
O que disse o compositor: “Palavras dizem sim, os fatos dizem não…”
O que disse o poeta: “Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir”.

[Hei de aprender com ele a partir de uma vez – sem medo, sem remorso, sem saudade].

P
Pernas para que te quero
Perdão para seguir em frente
Plumas, para que a leveza seja lei

Q
Que parte de mim que eu desconheço é que me guia?

R
Respirar
Respirar
Respirar

[E recomeçar, sempre que necessário].

S
Ser humilde
Ser justo
Ser constante

T
Tom maior, sempre que possível
Telescópio, o peixe que me acalma
Tchau e ponto final

U
Um desejo para os tempos que virão: harmonia, sabedoria e alegria
Um dia de cada vez, os pensamentos a seu tempo
Upgrades

V
Vesícula eu não tenho mais
Vitrola ainda tenho
Vestidos felizmente também

W
White, E.B., como em anos anteriores: “Esperança é o que nos resta nos tempos difíceis”.

X
Xícaras de chá e o ritual que elas encerram

Y
Yin e Yang, em nome do equilíbrio das coisas

Z
Zerar as dívidas, reais e metafísicas
Zelar pelos afetos mais fundos
Zarpar quando for preciso, como antes.

agradecer

Alguém já disse, com toda razão, que a gratidão transforma o caos em ordem, a negação em aceitação, a confusão em clareza. O oposto é um perigo. Quando estamos tomados de insatisfação, sentimos que nossas escolhas não acrescentam, nossos empregos não satisfazem, nossas roupas não cabem, nossa casa não acolhe, o sal não tempera, os amigos não ligam ou então são outros os desagrados.

Em meio ao turbilhão de faltas, esquecemos dos braços, pernas, pés e mãos que funcionam bem, do teto que nos acolhe, da possibilidade de enxergar, das pequenas vitórias, das canções e dos afetos, de gente próxima com quem realmente podemos contar, do amor em estado puro a despeito das dificuldades. Em meio ao turbilhão de faltas, esquecemos do que nos é essencial e que nos serve, bem ou mal, dia e noite, faça chuva ou faça sol.

[O essencial é entender o que nos move, estar próximo do que nos emociona, investir no que importa e dispensar o resto. O essencial é aquela história: escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém].

Não deve ter sido coincidência. Às vésperas do Natal, uma época em que tradicionalmente somos [ou deveríamos ser] tomados pelo hábito de dizer obrigado, fui internada às pressas para uma cirurgia de emergência na vesícula. A dor era imensa, a maior que lembro ter sentido. A operação não foi das mais simples, mas saí de lá quase inteira.

Dois dias depois, recebi alta e, apesar da recuperação dolorida e do susto, por todo o lado havia motivos para dizer obrigado. Eu estava viva, antes de mais nada. Caminhava com dificuldade, mas caminhava. A família inteira estava sintonizada, os de perto e os de longe, e as alianças permaneciam firmes e fortes. Felizmente tínhamos condições de comprar os medicamentos prescritos pelo médico, a dieta completa, o conforto todo.

Quando fomos para casa, Melodia esperava na porta. Os enormes olhos amarelos do meu gato de estimação contrastavam com seu pêlo preto brilhante. O balanço do rabo indicava felicidade. Os discos acumulados ao longo da caminhada e os livros cuidadosamente enfileirados nas prateleiras estavam exatamente do jeito que eu havia deixado.

Era bom voltar.

Quando olhei em torno, lembrei daqueles dias em que tradicionalmente somos [ou deveríamos ser] tomados pelo hábito de agradecer, apesar de todo o peso que o ano acumula. Dezembro havia começado com chuva. Meu estado de espírito não andava muito diferente. Eu precisava serenar a pele, organizar a casa e, mais urgente que tudo, cuidar para que meus pensamentos voltassem a ser leves. O coração batia pesado. Apesar disso, eu sabia: precisava pensar profundamente no lado bom da vida.

O tempo, uma vez mais, desempenhava com maestria seu papel de santo remédio, e eu não tinha escolha mais indicada a fazer do que simplesmente agradecer.