carta para quando felipe souber ler

Querido afilhado,

Este ano infelizmente não pude comprar um presente para o seu aniversário. As coisas estão ligeiramente difíceis – você vai entender quando estiver um pouco mais crescido. A economia anda ressentida, as pessoas andam sem rumo. A política então nem se fala: crise de um lado, desesperança de outro, e os sujeitos em quem um dia confiamos para cuidar do nosso país gastam o tempo deles e o nosso dinheiro tomando conta apenas dos interesses deles mesmos.

Confiança, você vai saber também, é um sentimento incrível. Não se perca dela, mesmo quando as coisas apertarem. Você vai aprender um dia que a palavra confiança vem do latim con fides, com fé, e espero que a sua fé esteja fortalecida, em Deus, na Física, na música, no tempo e nas pessoas, apesar dos medos, das decepções, das expectativas desfeitas e das provas em contrário.

Quando as coisas apertarem, lembre-se também dos tempos de criança, quando seu riso fácil enchia os nossos domingos de alegria.

Sei o quanto a sua chegada foi esperada. Desejo que você cresça forte, feliz e saudável, que tenha no Pedro um irmão tão maravilhoso quanto seu pai é para mim, que encontre uma linda parceira, como sua mãe é para nós. Desejo que aprenda coisas novas todos os dias e que tenha a simplicidade e a leveza como companheiras.

Peço também que você saiba ser justo, porque o que dá a verdadeira dimensão de um ser humano não é o quanto ele é grande, rico ou poderoso, mas principalmente o quanto ele é justo. Torço para que você supere com tranquilidade as dificuldades [e que de preferência elas sejam bem poucas]. Torço para que você entenda também o quanto elas nos ajudam a crescer, mesmo que na hora não pareça.

Espero que o preconceito passe longe dos seus olhos, que a intolerância não tenha morada no seu coração, que a maldade esteja distante do seu espírito. O mundo nem sempre é bom, mas muitas vezes [ufa!] há gente de boa índole e boas intenções para nos estimular a amar, construir, compreender, criar e perdoar. Reme com eles a favor de um mundo mais equilibrado, menos violento, mais tolerante, menos mesquinho. Faça a sua parte, mesmo que modestamente.

Com todo o amor da sua madrinha,

Ana Laura

o que aprendi ao ler aquele livro

Que muitas vezes a contradição é o caminho mais claro para a verdade.

Que, frequentemente, é preciso lembrar da alegria embutida no ato de dançar.

Que, nos casos de amor verdadeiro, a regra é clara: a cada um [ou dois] cabe encontrar o jeito mais acertado de escrever a sua história, a despeito do que os outros vivem, pensam ou dizem.

Que há um bocado de beleza em ser leal ao mesmo tempo em que se é livre, apesar de toda a dificuldade de se ser leal e livre ao mesmo tempo.

Que a música cura [disto eu já sabia], mesmo que para certos músicos não seja permitido curar a si mesmos.

Que um novo cenário traz novos ruídos, exatamente como disse Rimbaud.

Que o sujeito que contou seu segredo na página cento e nove tinha toda razão, e era um segredo bem simples:

“Se você bater no muro, não pare”.