carta aberta a ruth manus [ou das coisas em caixa alta]

Prezada Ruth,

Oficialmente não nos conhecemos, mas volto de um longo e tortuoso inverno para dizer que sei exatamente como você se sente. Tenho sido também uma lamentável devedora de mim mesma, e minha lista de pendências guarda imensas semelhanças com a sua: faturas que não emiti, documentos que não revisei, e-mails que não respondi, ligações que não retornei, tarefas cotidianas que não cumpri, com ligeiras adaptações aqui e ali.

Suspeito que há muitos mais em situação parecida com a nossa.

A cabeça acelerada mantém o resto do corpo desperto. O estômago dói. Os ombros pesam o peso do mundo inteiro, irradiando a dor que corre nas veias. A ingratidão daquela noite anterior ainda entristece, e muito. A lógica é implacável e cruel: não importa o que a gente fez de bom; importa apenas aquilo que ficou faltando.

Às vezes o ar, de fato, rareia. A angústia, tão bem descrita por você no desabafo publicado no jornal de uns meses antes, diz exatamente o que muitos de nós andamos sentindo, que somos pouco, que fazemos pouco, que concretizamos pouco. Pior: que lidamos mal com os limites e a finitude da nossa capacidade.

As questões que você coloca também me acompanham. Como administrar uma culpa deste tamanho? Como ser mais compreensivo com as nossas falhas e acreditar que, a despeito de todas as dificuldades, somos a melhor versão do que dá para ser?

Você tem toda razão, Ruth. Temos sido extremamente duros com nós mesmos, e de fato é como se as ausências gritassem dentro da nossa cabeça, escritas em caixa alta.

Hoje trabalhei muito. MAS NÃO FUI À ACADEMIA. Hoje fui à academia. MAS COMI AQUELAS PORCARIAS NO ALMOÇO. Hoje eu comi bem. MAS NÃO ENTREGUEI O RELATÓRIO. Hoje eu terminei o relatório. MAS NÃO LIGUEI PARA A MINHA AVÓ. Hoje eu falei com a minha avó. MAS NÃO RESOLVI AQUELAS COISAS DO BANCO. Hoje eu fui ao banco. MAS ACABEI TRABALHANDO POUCO. Hoje trabalhei muito. MAS DORMI POUCO. Hoje dormi bem. MAS ACORDEI TARDE.

É hora de parar. Reservar as letras de caixa alta para as conquistas, até as menores, as tarefas cumpridas, o encontro que terminou bem, a receita bem-sucedida na cozinha, a noite em que pedalamos depois de tudo, o olhar afetuoso de quem sabe valorizar os esforços alheios, mesmo os de menor resultado. É hora de parar. Reservar as letras grandes para as vitórias, até as menores, a tarde em que o equilíbrio se manteve apesar de tudo, a disciplina que deu resultado, a canção que conseguimos tocar inteira, apesar do excesso de sustenidos e bemóis.

É hora de parar. CHEGA DE GRITAR O QUE NÃO FIZEMOS. A vida pode até não dar trégua, mas nós precisamos dar.

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