refazenda

Foi um ano difícil. Para mim, para muitos dos meus queridos, para o futuro do país e até para os otimistas, terminou um período extenuante, que exigiu doses extras de entusiasmo e esperança. O que é preciso lembrar, em tempos assim, até que as coisas uma vez mais se acalmem: que pequenos hábitos repletos de sentido são uma ótima saída para atravessar dias de desesperança.

Reinventar o cotidiano, escrever, pedalar, caminhar pela feira à procura de frutas frescas, cozinhar o que houver à mão, organizar as gavetas, escolher as leituras seguintes, regar as plantas disciplinadamente, estar com os afetos mais fundos simplesmente porque sim… Mais do que nunca, em tempos assim, é preciso rever o elo muitas vezes perdido entre nós e nós mesmos.

Reinventar a si mesmo, varrer as folhas que o outono deixou para trás, por em prática as receitas herdadas da velha avó, sorver a arte, respirar diante da maldade alheia e dos equívocos, ouvir como Tamina, a personagem ligeiramente invisível do romance a respeito da insustentável leveza do ser… Em tempos assim, mais do que nunca, é preciso rever o elo perdido entre nós e nós mesmos.

As durezas foram muitas. Desencontros, desencantos, dívidas, decepções com gente que a gente considerava um bocado, expectativas desfeitas e escolhas duvidosas atropelam o caminho que queríamos fosse de levezas, compreensões e suavidades.

Às vezes o corpo adoece. A coluna enverga. A cabeça dói, o nariz entope, os olhos denunciam o desconforto que vai dentro. Os intestinos travam, o estômago arde, o fígado embrulha inteiro. Meio bilhão de neurônios e mais de 30 neurotransmissores voam em queda livre, como fossem intestinos, estômago, fígado e adjacências, de fato, o segundo cérebro de que falavam os pensadores orientais.

Num esforço contrário, o espírito pede calma. O exercício tem de ser constante, despertar a lembrança dos tempos de paz, reacender a memória dos lugares de harmonia, voltar à natureza das coisas puras, trilhar uma vez mais o caminho do essencial, de estar próximo do que nos emociona e dispensar o resto, seguir as verdadeiras intenções, a ideia central, a razão principal, o mais alto grau de importância, apesar das decepções, das dissimulações e das expectativas desfeitas.

[O essencial, no fim das contas, tem a ver com ter foco, escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém].

Por difícil que seja – e cada um de nós é que sabe de si e dos seus nós -, seguir um pouco adiante, devagar e constantemente, a despeito das dores, das perdas, das dificuldades e dos profundos desapontamentos, continua sendo o caminho mais indicado para os dias em que, como hoje, a vida pede refazenda.

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