dylan e os recomeços

bob-dylan-2016-nobelUm texto antigo, por ocasião do anúncio de que Bob Dylan venceu o Prêmio Nobel de Literatura neste dia de vento frio.

Aquele homem foi um caso típico na minha vida. Antes até de sua música, estive interessada no que dizia, no que fazia, no que não dizia, no que não fazia, nas inúmeras reinvenções de si mesmo. Há uns seis ou sete anos, passei as noites de uma semana inteira lendo uma das suas biografias desautorizadas e ouvindo sem parar canções que nem sempre entendia, e ainda hoje. Tempos depois me encantei com “I’m not There”, o filme que Todd Haynes fez sobre Bob Dylan ou com Bob Dylan ou para Bob Dylan.

[Não sei direito].

Gosto das inúmeras reinvenções de Dylan, porque ensinam que é preciso e possível, mesmo que no momento não pareça. Gosto das contradições dele, talvez porque aproximem o gênio do homem, e “I’m not There” tem um monte delas. Seis personagens representam os vários Dylans que existem dentro do estranho Dylan: Jude Quinn (Cate Blanchett), Billy the Kid (Richard Gere), Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin), Jack Rollins (Christian Bale), Robbie (Heath Ledger) e Arthur Rimbaud (Ben Whishaw).

Quinn é a cara dele, de cabelo emaranhado e olhar perdido no tempo. Ele, Rollins e Robbie encarnam o tormento do artista. Rimbaud, angustiado igual, defende diante de um tribunal opressor que a criação deve ser evitada. Por quê? Porque, fatalmente, haverá interpretações dissonantes e um processo eterno de falta de relação entre aquilo que o artista imagina e a maneira como o público vê o que resulta desta imaginação.

Guthrie homenageia o guru do músico, ativista social sobre quem ele diz que “podia escutar suas canções e de fato aprender a viver”, como alguns de nós aprendemos a viver com Chico, com John, com o Tom ou com o tango – e alguém disse certa vez que devemos ter, todos, alguém com quem aprender coisas, no trabalho e na vida. O de Dylan canta os vagabundos, cruza o país de carona, vive de bebida e sonho.

“I’m not There” é um filme de ficção, mas podia ser uma conversa daquela madrugada ou a própria vida, feita de andanças, mudanças, recomeços, regressos e reinvenções. Como as muitas de Dylan nas últimas quatro décadas. Como as que nos encontram em determinados momentos, esperadas ou não. Como a curiosa história do escocês de séculos atrás chamado Thomas Carlyle, que compartilho antes de encerrar o expediente.

O sujeito, durante anos, trabalhou intensamente num amplo registro da Revolução Francesa. Era pobre e contava com a ajuda, em livros e dinheiro, do filósofo John Stuart Mill. Quando acabou o extenso primeiro volume, emprestou o manuscrito a Mill. Por uma dessas coisas que ninguém explica, o texto pegou fogo, acidentalmente. Carlyle não acreditava em Deus; não podia, portanto, reclamar da tragédia com Ele. Então sentou, respirou fundo e começou do zero, palavra por palavra, linha por linha, página por página.

Talvez tenha entendido que a resposta, meu amigo, sopra com o vento.