#do baú: os blogs e as batatas da perna [ou carta aberta a bernadette lyra]

Vitória, 10 de abril de 2006

Querida Bernadette,
Como tantos, sou sua fã, tanto que – dá licença de eu usar uma expressão sua? – até me doem as batatas da perna. Por isso, e outros istos, depois de ler aquela sua crônica e apesar do medo de soar mais abusada e mais pretensiosa do que gostaria, resolvi iniciar aqui a campanha “Queremos Bernadette Lyra na blogosfera”.

Tenho cá as minhas questões também e, como parece que andamos dadas a confissões neste outono, confesso que não sou muito de tecnologia. De celular entendo pouco, só atender, ligar, mandar os torpedos que a operadora faz por um precinho camarada e, bendita invenção da humanidade, identificar quem liga antes de atender – ou, apenas nos casos extremos, juro, não atender.

De computador sei ainda menos, escrever estes textos, e-mail, MSN, filme que não passa nos cinemas daqui, música que não tenho em disco, e acabou. Sou, afinal, daquela amante à moda antiga, do tipo que ainda quer jornal, revista e livro em papel, papel de verdade, com orelha, tinta soltando e cheiro de mofo. Acho que nem todos têm espírito dotado da capacidade matemática necessária pras coisas de tecnologia. Eu certamente que não tenho.

Mas o blog não, menina, sabe que ele até me inspira?

Comecei com aquele pé atrás que você pode imaginar, depois de passar por estas fases todas, a de achar espalhafatoso demais ter um diário na Internet, a de pensar que os comentários naquela linguagem besta de menino que fugiu da escola eram o que de pior pudesse haver no mundo das letras, a de passar horas conversando com amigos que tinham já seus endereços devidamente registrados, atualizados, divulgados e comentados; e eu nada.

Não entendia a razão de tanta comoção. Uma noite, depois do show de uma banda querida e de uma única dose no bar de sempre, resolvi, como dizem, ver qual era. Escolhi nome, formato, endereço e cor, assim mesmo, como se escolhe o nome do filho, o formato do bolo, o endereço do primeiro encontro ou a cor do cabelo depois de curto [Cereja, meu Wellaton favorito], e escrevi, desembestada, o primeiro post da minha vida.

Então eu tinha um blog – e olha que a palavra blog dá também um pouco nos meus nervos, sabe? – e ali cabia de tudo um pouco, da corrida-caucus do Alice no País das Maravilhas que li em edição de bolso ao dia em que faltou água e parecia o fim do mundo; do astro da música pop que saiu do armário, liberou geral, ao meu desgosto com as letras maiúsculas; do kit insônia feito de livro pra ler de noite, abajur, rádio, garrafa de água, bloco com lapiseira e remédio de dor de cabeça na manhã seguinte aos sentimentos, quase todos.

Até declaração de amor teve uma vez, acredita?, e o cretino nem comentou.

Verdade que tem dias em que penso em apagar tudo, gastar tempo e palavras com outras intimidades, cuidar da pilha que acumula páginas e poeira na estante do quarto, de Goethe, Clarice, Hemingway e Carmélia, Drummond, Bukowski, Neruda e Cortazar, ou nada disso, passar horas olhando a vida, o tempo, o vento, as escolhas e as interrogações, dependurar no telefone para pôr as fofocas em dia, ouvir a voz macia de Ella ou aquele roquezinho antigo que traz a saudade de brinde; aquela coisa de ter mais o que fazer, sabe?

Mas logo desisto. Penso na minha amiga que passa por ali todos os dias e diz que quase nunca sabe o que dizer, desconcertada com alguma coisa que não sei bem. Penso nos que moram longe e talvez nem saibam a falta que fazem. Penso naquele nome de seis letras e um ponto que apareceu por lá, e de novo e outra vez, virou amigo, trouxe outros amigos e foram todos entrando, muitíssimo bem-vindos.

Penso na menina – Nina – que nunca vi, e gosto como se tivesse visto. Penso nele, silencioso, e nos outros, poucos, mas fiéis e adoráveis, e aposto que você teria muitos mais e igualmente fiéis e adoráveis leitores para as suas ideias, as suas prosas e os seus versos, as choramingas, inclusive. Porque, devo dizer, estas coisas surpreendem a gente. Faz um blog, vai.

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