aquele disco do nirvana

Faz muitos anos já, mas as memórias escritas por ocasião da data da morte do músico Kurt Cobain, nos primeiros dias do mês de abril, trouxeram de volta a lembrança da moça que me escreveu do Sul para dizer que vivia o Nevermind. Viver, ela dizia, significava exatamente o que o dicionário comporta: viver, do verbo pôr em prática como se não houvesse mais nada – ou pouca coisa além; existir, nutrir, ter de vida, intransitivo.

Estávamos em maio de um ano par. Eu acreditava, como de certo modo ainda hoje, que todos nós de vez em quando vivemos um pouco aquele disco. Não sabia quantos anos ela tinha, que figuras trazia tatuadas pelo corpo nem se no braço, no tornozelo ou na nuca. Não sabia o formato dos piercings que colocou por causa do disco ou de que material eram, se tinha marido, melhor amiga, trabalhava fora ou enfrentava problemas com a balança.

Soube apenas – e olhem lá que não era pouco, como o peso na alma que o cronista carregava até nos dias de assunto em falta – que ela se acalmava quando ouvia nas alturas o álbum que os críticos acreditam mudou a história do rock. Soube apenas – e não era pouco – que a solidão por trás de toda a dor elevava sua alma, até nos dias mais difíceis e respectivas noites.

Soube o que era preciso saber, exatamente da forma como a moça do Sul contava: que conheceu o Nevermind quando a filha chegou à adolescência, que quase enlouqueceu e que as consequências foram umas mais visíveis que as outras. As orelhas ganharam brincos; e o nariz e a sobrancelha. O corpo recebeu três tatuagens e ela passou a viver aquele disco, no mais amplo significado do verbo transitivo direto e às vezes indireto.

Do latim: vivere, às vezes intransitivo, até.

Soube da doçura aliada à fúria, da confusão e da calmaria, do barulho e do silêncio, tanta coisa e depois o vazio, em 12 faixas, uma depois da outra.

Soube o que era preciso saber, exatamente como na tarde quente em que ouvi o álbum de capa azul pela primeira vez. Era sábado. Tínhamos à espreita uma aventura feita um pouco daquelas canções, o sujeito que quis viver para sempre ao lado de uma mulher e noutra noite preferia estar morto, os tempos em que não souberam encontrar um caminho, ser estúpido, depois forte, depois feio, ambos felizes, ambos tristes, um feliz o outro triste ou o contrário.

Estávamos de novo em um ano par, só que setembro. Eu acreditava, como de certo modo ainda hoje, que todos nós de vez em quando vivemos um pouco aquele disco do Nirvana. Faz já alguns anos, mas o tempo não tirou o peso das memórias daquela conversa, menos ainda do disco, que um amigo diz ser cheio de verdades eternas – o herói que sai de sua cidadezinha em busca de um lugar cheio de perigos e prazeres, passa por provações, transforma-se e volta às origens com novos ensinamentos, como de certa maneira fazem todos os heróis, de Homero a Luke Skywalker.

Ele talvez tenha razão, e talvez viva também o Nevermind, o disco que o Nirvana lançou em 1991, o disco que desbancou Michael Jackson nas paradas de sucesso, o disco que soa ainda preciso, tantos anos depois.

Talvez porque sejam, estes também, tempos de decepção com a política, de vazio coletivo, de desencontro, desafeto, desconsolo e ressaca, de pílulas para aliviar a dor, de pausas para economizar o corpo, de movimentos para desviar dos desconfortos. Talvez porque sejam tempos difíceis, tempos que talvez seja melhor deixar para lá, exatamente como aquele disco que a moça do Sul me escreveu para dizer que vivia. Nevermind.

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