das corrupções de todo dia

Sempre que possível caminho pelo bairro onde moro ou pelas redondezas do trabalho. Gosto de perceber o modo como a cidade se movimenta, ver as cores que se formam conforme as horas correm, compreender os encontros ou – exatamente o oposto – notar a maneira como deixamos escapar sentimentos, projetos e pessoas quando as distâncias passam a ser longas demais.

Outro dia, poucos antes da braveza em verde e amarelo que tomou conta o país, resolvi contar: em menos de dois quilômetros, quatro motoristas estacionaram sobre a faixa de pedestres, dois cruzaram por ela apesar dos que aguardávamos para atravessar, uma jovem de corpo esguio e passos largos jogou seu lixo na calçada, uma mãe incentivou o filho pequeno a fazer o mesmo no jardim do parque e um homem de meia idade saudou um ciclista com buzina e palavrões. Na volta para casa, peguei um táxi, pensando naquilo tudo enquanto o taxista acessava o Facebook pelo celular grudado no painel do carro.

[Pois é].

Sou a favor dos protestos contra o que incomoda, aborrece ou indigna, desde que os participantes, para um lado ou para o outro, de fato compreendam o contexto das manifestações e suas consequências, tratem as diferenças com respeito e acreditem nas bandeiras que carregam. Sou contra a corrupção, indiscutivelmente. Mas acho, para além do que temos assistido, que está na hora de combatermos também as pequenas contravenções de todo dia.

Por que aceitamos e às vezes até cometemos desvios no trânsito, no trabalho ou na praça? Por que não protestamos, igualmente, contra as pequenas corrupções cotidianas? Por que ainda há tanta gente que fura fila, paga propina, atrasa religiosamente os compromissos, mente para os amigos, investe em desestruturar uma família ou sacaneia o colega de trabalho? Ofender quem pensa diferente faz parte do pacote? O que cada um de nós realiza, efetivamente, na construção diária do país de riso e glória de que nos falava o mestre Drummond?

[Um mundo enfim ordenado, uma pátria sem fronteiras, uma terra sem bandeiras, sem igrejas nem quarteis, sem dor, sem febre, sem outro, um jeito só de viver].

Temos todos os nossos desgastes, íntimos e intransferíveis, feitos das ausências alheias, das saudades, do frio que não termina nunca, de um amor não correspondido, de arrependimento ou vontade de dizer o que não se pode, vazio ou falta de sentido, da Lei de Murphy ou da Teoria dos Seis Graus de Separação, do sufoco cotidiano, da profissão ou do casamento, do vizinho barulhento, do computador com vírus, do açúcar que o médico mandou cortar, do trânsito engarrafado, do sono acumulado ou da tensão de um dia inteiro de trabalho.

Mas há, de fato, cansaços que deviam ser igualmente combatidos: a violência nas ruas, pedir atestado médico sem estar doente, aceitar o trabalho infantil, trair, contribuir com a poluição e o desperdício de água, o analfabetismo, o atraso, o desrespeito no trânsito, o preconceito, o racismo, a competição desleal, o lucro a qualquer preço, aquele jeitinho para quase tudo que aprendemos que faz parte.

A verdade é que não faz.

Protestar contra o sistema, a política ou a corrupção, na maior parte das vezes, é mais fácil que mudar em nós mesmos comportamentos nocivos. Mas o fato é que atitudes individuais externas às regras da boa convivência e do bem coletivo também fazem mal, e muito, à vida pública e ao país que nos abriga.

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outono

Apesar dos protestos alheios, sempre adorei os dias de calor, abrir a janela felicíssima com o quente que vinha de fora, aproveitar os minutos que sobravam do almoço plantada debaixo do sol como uma planta que precisasse da fotossíntese para seguir, olhar atrás do vidro a profusão de vermelhos e amarelos e cinzas e verdes do entardecer, pensar no quanto faz bem viver embalada pela ideia de que, no verão, a vida pesa menos. Mas o outono, oficialmente inaugurado aos 20 dias do mês de março, tem seu lugar; é certo que tem – e significados interessantes.

Para maias, astecas, chineses, hindus e japoneses, outono é tempo das mudanças. Segundo a canção, é a chuva chovendo, a conversa ribeira das águas de março; é o fim da canseira. De acordo com o olhar de dois anos atrás, e ainda hoje, é uma temporada de transformações, de colher e ver as folhas que caem, amarelas.

Conforme a Física, é a época em que a luz solar incide perpendicularmente sobre o Equador, as temperaturas estão mais amenas, os dois hemisférios ficam igualmente iluminados, dias e noites têm duração semelhante e o ar, menos umidade. Pelos cálculos do Instituto Nacional de Tempo, Clima e Transformações, a previsão é outra: mudanças bruscas no céu e formação de nevoeiros que terão se dissipado até o fim da temporada.

[Ufa].

Outono é tempo de projeto novo, fôlego novo, caminho novo; e cuidar dos afetos de sempre e plantar as sementes à espera de semeadura, cada uma com exigências muitíssimo particulares, terras com alto teor de matéria orgânica e água uma vez por dia para as mudas da Habanero Red, um pouco de calcário no canteiro da Chapéu de Bispo, as violetas que parecem sufocadas quando fechamos as cortinas, o verde plástico das samambaias, dependuradas e firmes como poucas coisas no mundo conseguem ser ao mesmo tempo, casca de ovo e borra de café para adubar as acerolas e um pouco de conversa, que no final das contas não deve fazer mal.

É tempo de leitura nova e descobrir, pelas páginas que se seguem, as dores do homem que, quando menino, usava calças curtas e pensava que a vida era uma fita em série e, crescido já, de calças compridas, continuou pensando do mesmo modo, de maneira que, quando uma coisa triste tinha de acontecer, acontecia mesmo.

– É o diabo.

Enquanto o verão remete a leveza, simplicidade e movimento, o outono lembra faxina, arrumação, reencontrar o foco, planejar outro caminho, voltar a sorrir também com o espírito, e não apenas com os dentes. Se um abriga chegadas e reencontros [e também algumas idas, e às vezes nem dá tempo de dizer adeus], o outro guarda a decisão, difícil, mas certeira, de deixar, transformar, virar a página.

Se franceses, paquistaneses, chineses e holandeses eram capazes de viver com gramáticas e relações em que nunca houve a dor da ausência, por que não a gente? Saudade, afinal, faz parte da lista das palavras [é a sétima] mais difíceis de traduzir do mundo – só perde para ilunga [alguém disposto a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez”, no idioma africano Tshiluba], shlimazi [“alguém cronicamente azarado”, em ídiche] e outras quatro que não lembro mais.

Outono é tempo de alimentar a paciência, investir nos afetos mais serenos, manter a casa arrumada, a mesa, as estantes, os armários e as lembranças, aprender receitas novas, o ponto certo, alecrim e molho de café.

[Delícia].

Enquanto o verão se embalava com um cardápio à base de legumes, chocolate e Coca Cola e a rima segundo a qual não precisa sofrer para saber o que é melhor para você, no outono os sons têm um tom a menos e as receitas, um condimento a mais. Se um abria espaço para música alta e caipirinha, o outro costuma ser de novos ares, desfazer do apego, do medo e do aconchego, jogar fora os papéis que não servem, e também certas histórias e as faltas, lavar a alma com a chuva que cai em profusão, exatamente como a canção diz que faz.