da série leituras: não mexam no cabelo dele

NÃO MEXAM NO CABELO DELE
Uma carta ao presidente dos Estados Unidos escrita por três fãs diante da convocação do cantor Elvis Presley para servir ao Exército norte-americano na Segunda Guerra Mundial

Noxon, Mont, 1958

aspas Prezado presidente Eisenhower,

Minhas amigas e eu estamos escrevendo de Montana, nós achamos que já é ruim o suficiente mandar Elvis Presley para o Exército, mas se cortarem as costeletas dele nós simplesmente vamos morrer! O senhor não sabe o que sentimos por ele, eu realmente não entendo por que o senhor tinha de mandá-lo para o Exército, mas nos imploramos, por favor, por favor, não corte o cabelo dele como o dos outros recrutas, ah, por favor, por favor! Se fizer isso nós vamos morrer!

Adoradoras de Elvis Presley
Linda Kelly
Sherry Bane
Mickie Mattson

Presley
Presley
ESSE É O NOSSO GRITO
P-R-E-S-L-E-Y

pequeno dicionário para o ano que começou

A
Afetos
Alongar
Alegria

B
Bicicleta
Balanço
Bonsai

C
Cartas Extraordinárias, o livro
Cozinhaterapia
Crônicas & Canções, sempre

D
Descartar os excessos
Decoração
Dialética, o poema

E
Equilíbrio
Estude seu viver, observe sua deriva
Esperança [“é o que nos resta em tempos difíceis”]

F
Filtro 40
Foco

G
Gastronomia sentimental
Grafite de boa ponta
Gim com água tônica

H
Haruki Murakami
Hidroginástica
Horta caseira

I
Ítalo Calvino
Inspiração
Iodo e amendoim não pode

J
Jazz
Jards Macalé, sobre as coisas passando [eu quero é passar com elas eu quero]
Jornalismo

K
Kind of Blue, o disco

L
Leveza, sempre que possível
Livro novo, quem sabe
Legumes orgânicos

M
Movimento
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo
Madrugadas

N
Navegar
Na rua, na chuva, na fazenda
Nina Simone

O
O dia fora do tempo
O que for essencial, cada vez mais
Organização

P
Pão caseiro
Peixes no aquário
Paciência e perseverança

Q
Queijo de feira
Quitanda
Quase um Segundo quase esgotado

R
Reformar a casa
Respirar profundo
Reciclar o lixo, reaproveitar as sobras

S
Suavidade
Samba
Sábado [para aumentar a vitrola]

T
Textos novos
Tempo
Then you can star to make it better

U
Universidade
Utopias possíveis
Umbigo não é o centro do mundo

V
Vento sul
Vitória, a cidade
Vestido, sempre que possível

W
Wi-Fi
www
Wave [porque fundamental é mesmo o amor]

X
Xampu com cheiro bom

Y
Yin-Yang
Yoga
Yes, we can

Z
Zen
Zelo
Zarpar quando for preciso

obrigada, 2015 | seja bem-vindo, 2016

Foi um ano duro, certamente. A economia, a política, os humores e o corpo apresentaram sinais de desgaste que espero sejam suavizados nesta nova temporada. Tomei nota sobre o que escreveu o professor: “Estude seu viver, observe sua deriva”, o que nos coloca para andar, o que acorda a nossa imaginação, o que estimula a nossa energia. Escrevi um pequeno dicionário para o ano que começava, A de alimentos orgânicos, água e alongamento, B de bicicleta, chás e crônicas, diversão e discos, escrever, foco, gim com água tônica, Here Comes the Sun, inspirações, jazz e jornalismo, Kind of Blue, leveza sempre que possível [nem sempre foi], movimento, Nina Simone, óculos, paciência e perseverança, queijo sem lactose, respirar profundo, sol e sossego, tom maior, utopias possíveis, Vitória, Waffle, xampu com cheiro bom, Yin-Yang e zarpar quando fosse preciso. Por certa indisciplina, deixei mais do que devia dele para trás.

Aprendi que grandes realizações exigem atenção aos pequenos começos. Entendi que as convenções, ao contrário, produzem condenados, como a pressa que esquece a natureza do tempo, a ambição que ignora os limites do espaço, a vaidade dos que valorizam o umbigo, o espelho e o poder no lugar do que convém. Vi um pouco mais ainda sobre a vaidade dos homens e senti ainda mais forte minha convicção de que melhor que o poder é a potência, melhor que o acúmulo é a permanência, melhor que o exagero é o equilíbrio, melhor que a posse é o sentido. Ouvi outra vez menos música do que gostaria. Li Cartas Extraordinárias – e E.B. White tem toda a razão: esperança é o que nos resta em tempos difíceis.

Cozinhei como terapia. Optei sempre que possível pelos alimentos orgânicos, reaproveitei as sobras das panelas e separei o lixo seco do úmido, em pequenas tentativas diárias de fazer algo pela sobrevivência do planeta. Segui firme com a acupuntura, mas nem tanto com a bicicleta. Comprei um bonsai, plantei couve, limão e rabanetes, colhi cogumelos e romãs em miniatura. Fui menos grata do que deveria. Torci com o coração inteiro para que aquele otimismo fosse tão logo também meu, que tenho tido mais trabalho por fazer que fé em certos tipos de homens e mulheres, mais dúvidas que disposição para ginástica, mais medo de determinados vivos que da maioria dos mortos. Desejei igualmente que aquela frase de cinema se tornasse a cada dia mais minha, de todos nós:

– Quanto maior me faço, mais simplifico minha vida.

Obrigada, 2015.
Seja bem-vindo, 2016.