carta aberta a milson henriques

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Ilustração: Clara Nahas

Querido Milson,

Escrevo esta carta logo depois de um telefonema seu. É domingo. O futebol na televisão denuncia a deliciosa supremacia do prosaico: comida na mesa, bolo no forno, cheiro de café fresco, as flores ajeitadas nas garrafas de cores variadas, os jornais do dia espalhados pelo sofá, o livro da vez imediatamente posto ao lado.

Falamos da vida, das tarefas, dos projetos, dos afetos e dos desafetos. Falamos do medo, do futuro e do alívio pelo cabelo que não caiu com as sessões de quimioterapia. Falamos da maldade e do egoísmo, da política e da vaidade, da arte e da memória. Falamos de janeiro, da Noruega, do filme por vir e do modo como determinados porvires alimentam o corpo inteiro com a melhor das esperanças.

Falamos dos dias em que falta coragem.

Esqueço por um instante que há um ateu do outro lado da linha; anarquista, humanista e ateu, poeta esquerdo melancólico e pecador convicto. Esqueço, Milson, do tempo, dos perigos da vida, do sumiço dos óculos da Carmélia, do futebol que denunciava a deliciosa supremacia do prosaico.

Emendo, em pensamento, que temos um santo em comum, um poeta como você, canhoto do corpo e gauche da alma, que por culpa da lua e do conhaque põe a gente comovido como o diabo.

Celebro por termos Drummond em comum. Quero contar de quando, como você, abandonei a geladeira naquela cidade cinza e voltei para o sol – trouxe apenas os imãs da Betty Boop, uma caneca de chá e um ano a mais na bagagem. Deixo para a próxima, o telefonema seguinte, uma visita quem sabe, um café talvez.

Tomo nota mentalmente do seu gosto pela palavra ocaso, sua atração pelo começo e pelo fim, largada e chegada, infância e velhice, a criança que ainda não sentiu a dor da perda, nunca leu o santo Drummond que cultuamos em comum, nunca ouviu Tom Jobim, Chet Baker, nunca chorou ouvindo o Adágio de Albinoni, e o idoso que cobriu todas as mágoas e dores com a areia grossa da amargura.

Acredito que você não se importe com o aberto desta carta, publicada antes de ser entregue, enviada assim, a descoberto. Vivemos como na canção, entre o escancaro e o contido, quietos no canto da gente, mas expostos no que tornamos público em livros, crônicas soltas e estes escritos [meu caso] e em livros, escritos de jornal, desenhos, quadrinhos, declarações, saraus, poemas, peças e filmes [no seu].

Torço, com o coração inteiro, para que seu otimismo seja tão logo também meu, que tenho tido mais trabalho por fazer que fé em certos tipos de homens e mulheres, mais dúvidas que disposição para ginástica, mais medo de determinados vivos que da maioria dos mortos. Torço, igualmente, para que em breve estejam restaurados os glóbulos brancos de seu sangue e a minha fé na humanidade. Torço, por fim, para que janeiro bata logo em nossas portas e aquele trecho certeiro, perdido numa outra revista, seja a cada dia mais meu, seu, de todos nós:

– Quanto maior me faço, mais simplifico minha vida.

Com todo o meu afeto,
Ana

 

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