desde o fim até o começo

Finais de ano são um desafio em si mesmos. O tempo encurta. O barulho aumenta. O clima esquenta. O ritmo acelera. A respiração segue a cadência do mundo e pesa. Mesmo que a experiência de períodos anteriores garanta que em breve as coisas se acalmam, o equilíbrio construído a duras penas nos meses que ficam para trás ameaça ruir. A lista de tarefas, exatamente como o preço do feijão, o gás, a luz, o telefone e o operário, não cabe no poema – porque o poema, senhores, está fechado, e não há vagas.

As exigências são inúmeras: dar conta das promessas que não saíram do papel, comprar os presentes do Natal, escolher as vestes do Ano Novo, preparar o cardápio da ceia, buscar os parentes que chegam de longe, acertar as contas, ajeitar a casa, limpar os papéis, a faxina no armário, a festa da firma, o amigo secreto, aquilo tudo.

Por puro pragmatismo, caminhamos rumo a resultados imediatos para questões urgentes, como se fôssemos bombeiros que correm contra o relógio para salvar uma casa em chamas, obrigação, utilidade, cozinha, entrega, família, compra, pedaço, cobrança, criatividade, força, prato, olho, faxina, planejamento, analgésico, compromisso, reunião, prazo de entrega, encontro, banco, jantar, exame, encanador, um caminhão de tarefas à espera de resoluções, a vida inteira. O que sobra à contemplação é quase nada.

Felizmente, os começos de ano são o justo oposto, porque guardam em si uma dose extra de esperança no futuro e uma extraordinária disposição para recolocar as coisas na perspectiva da generosidade com o mundo, com os outros e com nós mesmos.

Separados do peso por um pequeno espaço de tempo e tomados pela insustentável leveza do sol, os primeiros dias da nova temporada parecem feitos sob medida para a empreitada de pedalar sem desculpas, para a promessa de reencontrar os queridos de modo mais habitual, para os projetos que esperam na gaveta, para o cardápio à base de folhas frescas, legumes orgânicos e frutas da estação, para o calor, a simplicidade, a fé e o movimento.

“Estude seu viver, observe sua deriva”, escreve um professor que tem por missão despertar a capacidade de utilizar potenciais criativos para impulsionar as mudanças desejadas por seus aprendizes. Cada passo, cada reação e cada nova forma de pensar surgida entre uma e outra lição são fundamentais, ele anota; o que nos coloca para andar, o que acorda a nossa imaginação, o que estimula a nossa energia.

Talvez por isto, tão logo janeiro se aproxime, reservo uma noite calma, escolho as canções, tomo um lápis de boa ponta, os projetos, as metas e os sonhos e realizo o ritual igualmente silencioso de passar a limpo a agenda do ano, preenchendo o novo volume com aniversariantes e telefones de emergência, compromissos e desejos.

Costuma ser exatamente deste modo, como uma ciência poeticamente exata, na medida da esperança: em que médico voltar e quando, as contas a vencer, os contatos que preciso retomar, rever anotações, olhar para trás, avaliar projetos, reorganizar desejos, analisar feitos, tomar nota frescas do que for preciso e apagar o resto, com todo o desapego do mundo. Terminada a liturgia, estou pronta para seguir em frente.

Anúncios

carta aberta a milson henriques

postar-milson
Ilustração: Clara Nahas

Querido Milson,

Escrevo esta carta logo depois de um telefonema seu. É domingo. O futebol na televisão denuncia a deliciosa supremacia do prosaico: comida na mesa, bolo no forno, cheiro de café fresco, as flores ajeitadas nas garrafas de cores variadas, os jornais do dia espalhados pelo sofá, o livro da vez imediatamente posto ao lado.

Falamos da vida, das tarefas, dos projetos, dos afetos e dos desafetos. Falamos do medo, do futuro e do alívio pelo cabelo que não caiu com as sessões de quimioterapia. Falamos da maldade e do egoísmo, da política e da vaidade, da arte e da memória. Falamos de janeiro, da Noruega, do filme por vir e do modo como determinados porvires alimentam o corpo inteiro com a melhor das esperanças.

Falamos dos dias em que falta coragem.

Esqueço por um instante que há um ateu do outro lado da linha; anarquista, humanista e ateu, poeta esquerdo melancólico e pecador convicto. Esqueço, Milson, do tempo, dos perigos da vida, do sumiço dos óculos da Carmélia, do futebol que denunciava a deliciosa supremacia do prosaico.

Emendo, em pensamento, que temos um santo em comum, um poeta como você, canhoto do corpo e gauche da alma, que por culpa da lua e do conhaque põe a gente comovido como o diabo.

Celebro por termos Drummond em comum. Quero contar de quando, como você, abandonei a geladeira naquela cidade cinza e voltei para o sol – trouxe apenas os imãs da Betty Boop, uma caneca de chá e um ano a mais na bagagem. Deixo para a próxima, o telefonema seguinte, uma visita quem sabe, um café talvez.

Tomo nota mentalmente do seu gosto pela palavra ocaso, sua atração pelo começo e pelo fim, largada e chegada, infância e velhice, a criança que ainda não sentiu a dor da perda, nunca leu o santo Drummond que cultuamos em comum, nunca ouviu Tom Jobim, Chet Baker, nunca chorou ouvindo o Adágio de Albinoni, e o idoso que cobriu todas as mágoas e dores com a areia grossa da amargura.

Acredito que você não se importe com o aberto desta carta, publicada antes de ser entregue, enviada assim, a descoberto. Vivemos como na canção, entre o escancaro e o contido, quietos no canto da gente, mas expostos no que tornamos público em livros, crônicas soltas e estes escritos [meu caso] e em livros, escritos de jornal, desenhos, quadrinhos, declarações, saraus, poemas, peças e filmes [no seu].

Torço, com o coração inteiro, para que seu otimismo seja tão logo também meu, que tenho tido mais trabalho por fazer que fé em certos tipos de homens e mulheres, mais dúvidas que disposição para ginástica, mais medo de determinados vivos que da maioria dos mortos. Torço, igualmente, para que em breve estejam restaurados os glóbulos brancos de seu sangue e a minha fé na humanidade. Torço, por fim, para que janeiro bata logo em nossas portas e aquele trecho certeiro, perdido numa outra revista, seja a cada dia mais meu, seu, de todos nós:

– Quanto maior me faço, mais simplifico minha vida.

Com todo o meu afeto,
Ana