o sétimo dia [ou obrigada, senhor sacks]

Oliver Sacks partiu, conforme havia anunciado que faria. Seis meses atrás, o neurologista e escritor de olhos frágeis e mente brilhante explicou que em breve morreria por causa de um câncer múltiplo contra o qual os médicos não podiam fazer mais nada. Suas metas para os meses que restavam eram viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que pudesse, aprofundar amizades, dizer adeus aos que amava, escrever mais, viajar se tivesse forças para tanto, alcançar novos níveis de entendimento e discernimento, ter um pouco de diversão e cometer algumas tolices.

[Espero profundamente que ele tenha conseguido].

O otimismo inspirador do médico míope que brindou a literatura com visões poéticas a respeito do cérebro caiu como uma luva nos dias que se seguiram, embalando o caos com a paz de um tempo fora do tempo, como ele mesmo costumava dizer, sobre os dias que seus antepassados guardavam, por ordem da religião judaica.

Seus pais tinham imensa reverência ao quarto mandamento dos judeus – “Lembrarás e respeitarás o dia do shabat” – e o sétimo dia, segundo as memórias do escritor de olhos frágeis e mente brilhante, era completamente diferente do resto da semana. Trabalhar não podia, nem usar o telefone, acender as luzes, ligar o fogão. A família reunida para a primeira refeição agradecia pela comida e caminhava até a sinagoga. Depois, o destino era a casa de uma tia, vinho tinto, pão de mel e gelatina de beterraba.

Com a chegada dos 18 anos de idade, os hábitos religiosos ficaram para trás. Oliver Sacks mudou de cidade, concluiu os estudos em Medicina, rendeu-se ao uso de anfetaminas e sofreu para assumir que gostava de meninos. Os vazios herdados de cada uma das ações anteriores e uns outros passaram a ser lentamente preenchidos com o trabalho obstinado em um hospital para doentes crônicos em Nova York.

Fascinado pelas biografias de seus pacientes, o escritor de olhos frágeis e mente brilhante viveu as décadas seguintes contando as histórias ouvidas no consultório. Em dezembro de 2014, terminou a própria autobiografia. Poucos dias depois de entregar o livro à editora, o médico míope que brindou a literatura com visões poéticas a respeito do cérebro descobriu o câncer contra o qual os médicos não podiam fazer mais nada.

Escreveu também a respeito, e sobre sua tentativa de acertar as contas com o mundo:

– Sinto uma súbita nitidez de foco e de perspectiva. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso me concentrar em mim, no meu trabalho, nos meus amigos. Não vou mais assistir ao noticiário na televisão toda noite. Não darei mais atenção à política ou ao aquecimento global. Isso não é indiferença, mas distanciamento – eu ainda me preocupo muito com o Oriente Médio, aquecimento global, o crescimento da desigualdade, mas esses assuntos não me cabem mais. Eles pertencem ao futuro.

Enquanto o corpo ficava cada vez mais enfraquecido pelo câncer, seus pensamentos andavam, nas palavras dele, mais e mais centrados no que significava viver uma vida boa e conquistar o sentimento de estar em paz comigo mesmo. As lembranças voltavam ao shabat da infância, o dia do descanso que em breve seriam todos os dias.

O resto foi aquele: o sujeito nascido em 1933 decidiu ajeitar o andamento, diminuir o ritmo, reduzir o quanto possível o caminho entre nós e o que nos faz realmente felizes. Oliver Sacks optou por fazer com os meses que restavam o que talvez devêssemos praticar um pouco todos os dias, independentemente do relógio da existência, dos desígnios divinos, dos acidentes de percurso ou dos males do corpo: apostar no essencial, entender o que nos move, estar próximo do que nos emociona, escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém.