sobre começos e chegadas

Ilustração: Clara Nahas
Ilustração: Clara Nahas
Houve um sábio de quem se ouvia que grandes realizações exigem atenção aos pequenos começos. Seu estado de espírito era leve como as melhores noites, certos encontros, canções em tom maior e o amor que basta em si mesmo, imenso e manso. Era leve como a ideia de que não se deve julgar cada dia pelas colheitas, mas pelas sementes, leve como os sábados de sol, leve como o sol em qualquer dia.

Das convenções ele dizia justo o oposto: que produzem condenados, como a pressa que esquece a natureza do tempo, a ambição que ignora os limites do espaço, a vaidade dos que valorizam o umbigo, o espelho e o poder no lugar do que convém.

O sábio de quem se ouvia que grandes realizações exigem atenção aos pequenos começos defendia também a vasta possibilidade dos vazios. Diante do nada, seríamos capazes de superar ausências, inventar histórias novas para velhas perdas, ocupar dias difíceis com algum sentido, escrever uma crônica arrebatadora nas folhas brancas da existência, fazer de novo de um outro modo, talvez. Para o sábio de espírito leve como a ideia de que não se deve julgar cada dia pelas colheitas, mas pelas sementes, o vazio era o começo de tudo.

Começos são, de fato, uma pequena arte. Qualquer caminho, por duro que seja, costuma apresentar obstáculos menores quando se tem eficiência nos primeiros passos, harmonia nas ações iniciais, equilíbrio nos movimentos de estreia, planejamento sereno ou o coração inteiro aberto, tomado de certezas.

Ao contrário das partidas, que deixam um peso a menos ou criam um rombo que não se mede, chegadas quase sempre pressupõem expectativas, misturar ingredientes rumo à receita perfeita, mudar os ares do coração, anotar na agenda tarefas que não havia, mudar de casa, de emprego, de estado civil, começar, enfim, pela primeira ou pela enésima vez, com toda dedicação quanto seja possível.

Chegadas lembram a importância de andar devagar, ajudam a abreviar certas faltas, suavizam determinadas inquietações. Ao contrário das partidas, quando o que se apresenta é a ausência, movimentos iniciais em direção a outro ponto pedem fé na transformação, entender o próprio tempo, suavizar antes do julgamento, esperar um pouco além do previsto, com toda calma possível dentro.

Como no Dia Fora do Tempo da civilização maia, em que as tarefas eram meditar a respeito da vida, agradecer as semeaduras anteriores, cancelar dívidas materiais ou metafísicas e elevar o estado de consciência para depois seguir, os pequenos começos de que o sábio dizia estimulam o pensamento e a ação. Como também nos primeiros de janeiro, em que as tarefas são rever o passado e tomar notas do futuro, eles acendem em nós a esperança em dias melhores, e respectivas noites.

Ao contrário das partidas, que no mais das vezes enfraquecem o peito, movimentos iniciais nos dão oportunidades de firmar os músculos, respirar profundo, investir em capacidades que antes não experimentávamos, voltar com passos firmes ao ponto em que nos perdemos de nós mesmos. Porque – alguns de vocês sabem – finais acontecem, mas bonita mesmo é a palavra começo, um beijo demorado, a conversa de uma madrugada inteira, uma viagem ou o primeiro parágrafo daquele livro em que, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

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