há de haver um jeito qualquer, uma hora

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temporada da fossa

Para Miguel Marvilla

Estávamos sentados no chão da sala, porque não havia sofá naquela época, quando ele contou da temporada da fossa naquela praia do Sul, depois de ter levado um pé vocês sabem onde da mulher que povoava seus versos, roubava seu sossego, escolhia suas camisas de botão e torrava seu cartão de crédito.

Disse que passava as noites ouvindo Roberto Carlos e Chico Buarque e chorando, os dois verbos quase sempre conjugados ao mesmo tempo, chorar seis lágrimas e ouvir Detalhes, chorar o nariz inteiro e ouvir Olhos nos Olhos, chorar as dores dos dois cotovelos e ouvir Outra Vez, chorar três lástimas e ouvir Retrato em Branco e Preto, chorar a maior fossa do mundo e ouvir Muito Romântico.

[Mas acontece que eu não posso me deixar
Levar por um papo que já não deu, não deu
Acho que nada restou pra guardar ou lembrar
Do muito ou pouco que houve entre você e eu…]

Sentado no bar de frente para a praia de areia fina e água fria, chorava a seco, porque há anos não bebia mais, álcool era artigo proibido em sua dieta. Negava portanto os melodramas tradicionais com seus personagens profundamente abatidos pela desilusão e extremamente alterados pela vodca ou gim, pelo conhaque ou pelo rótulo que estivesse ao alcance na prateleira. Sofria a seco, coitado, jurando que, dali em diante, amaria de maneira estoica, poupando o estômago de mais uma história de indefinições, impertinências e inconstâncias, poupando o coração já cansado de novos sobressaltos, poupando a literatura de mais um poema sem variação sobre o mesmo tema.

Mas sabíamos, tanto eu quanto ele, que era mentira, que haveria outros amores de perder o rumo e o sono. Sabíamos que entraria de cabeça, tronco e membros na vida da próxima mulher que conseguisse derrubar sua aparente indiferença, que sorriria de volta diante de um encontro inesperado, que arriscaria de novo diante da primeira oportunidade, estas coisas da vida que a gente aprende quando menos espera e anota, pra não esquecer, exatamente como aquela ótima frase dita numa noite de boa vista e boa companhia.

– A gente passa a vida inteira construindo um dia de sorte.

Lembrávamos do que dizia o velho mestre, que evitava ouvir tangos porque um tango em certos momentos podia ser fatal, ensinando com sua literatura que as recordações que entram pelo ouvido eram terríveis. Os tangos então se evitava; os tangos sim, mas não o resto, não chorar seis lágrimas e ouvir Detalhes, não chorar o nariz inteiro e ouvir Olhos nos Olhos, chorar as dores dos dois cotovelos e ouvir Outra Vez, chorar três lástimas e ouvir Retrato em Preto e Branco, na maior fossa do mundo.

Sabíamos, sentados no chão da sala, porque não havia sofá naquela época, que nem o Chico nem aquela canção do Roberto nem os padres da praia do Sul conseguiriam demovê-lo da ideia de sentir com todo o coração até o fim daquela temporada de fossa, e então outra vez cair de amores.

do muito que fica quando as coisas acabam

A verdade é que as coisas acabam, os amores, as esperas, as noites felizes, os doces da caixa, as histórias, os livros, o Domec e as dores. As esperanças acabam, e as revoltas, as reformas e as revoluções. O dinheiro de vez em quando acaba, e também os créditos, as crenças e as razões para querer um sujeito que não quer de volta.

As viagens um dia acabam, Rio de Janeiro, Havana, Paris, São Tomé das Letras, Marataízes, Ribeirão Preto, las tardecitas de Buenos Aires, Londres cinza cerveja parede vermelha comida tailandesa e o boteco dos brasileiros na escola de estudos econômicos, qualquer lugar de ônibus, trem, carro ou de avião e a gente depois chegando em casa, desfazendo as malas, voltando diferente pra vida que levava antes.

A verdade é que até as canções acabam.

[Pois já não vales nada
És página virada
Descartada do meu folhetim]

O inverno acaba e o calor [oba] acorda o corpo inteiro de manhã, os olhos cansados de ontem à noite, as plantas da varanda, as músicas de antes de dormir, os pensamentos desconexos, as descobertas inesperadas, as obrigações apressadas, louça pra lavar, lixo pra jogar fora, contas pra pagar, poeira pra tirar, aula de pilates, revista e jornal, amor, trabalho e uma sexta-feira inteira de sono atrasado, risco, família, sentido, promessa, gratidão, bicicleta na praia. Até as histórias de amor acabam, e todo o resto que cabe no sol. O tempo acaba, e às vezes também a imaginação. A verdade é que até a vida acaba.

Mas a memória é poderosa, enche os vazios e ameniza o presente quando nem cachaça nem aspirina nem morfina fazem o buraco parecer menor. A memória faz as pessoas conhecerem o verdadeiro valor dos momentos. Daí, vai ver, a gente entende no dia seguinte a importância daquele abraço, no mês seguinte percebe o quanto gostou daquela noite, na estação seguinte assimila as palavras do último outono, vive de novo e com outro olhar as mesmíssimas coisas, com outro peso, ou sem peso.

Um dia as faltas incomodam menos e a gente vive melhor.

da série leituras

POÉTICA
Manuel Bandeira

aspasEstou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação