da série leituras

DO QUE EU FALO QUANDO EU FALO DE CORRIDA
Por Haruki Murakami

aspas[…] muita gente parece compartilhar a opinião de que escrever é uma atividade insalubre, de que os romancistas são de certa forma uns degenerados que precisam levar uma vida desregrada a fim de escrever. Há uma visão amplamente difundida de que adotando um estilo de vida não salutar o escritor consegue se despir do mundo profano e atingir um tipo de pureza que tenha valor artístico. A ideia tomou forma durante um longo tempo. O cinema e a tevê perpetuaram essa figura estereotipada — ou, para encarar de um modo positivo, mítica — do artista.

Basicamente eu concordo com a opinião de que escrever romances seja um estilo de vida pouco saudável. Quando paramos para escrever um romance, quando usamos a escrita para criar uma história, queiramos ou não, um tipo de toxina que jaz nas profundezas de toda a humanidade sobe à superfície. Todo escritor precisa ficar cara a cara com essa toxina e, consciente do perigo envolvido, descobrir um jeito de lidar com ela, pois de outro modo nenhuma atividade criativa no sentido real pode ter lugar. Encare com toda positividade que quiser, mas, definitivamente, não é saudável.

Então, antes de tudo, a atividade artística compreende elementos insalubres e antissociais. Admito. É por isso que entre escritores e outros artistas há muitos cuja vida real é decadente ou que fingem ser antissociais. Posso aceitar isso. Ou melhor, não necessariamente negar o fenômeno. Mas aqueles dentre nós que alimentam a esperança de ter uma longa carreira como escritores profissionais precisam desenvolver um sistema autoimune próprio, capaz de resistir à toxina perigosa que reside dentro de nós. Fazendo isso, podemos dispor eficientemente de toxinas ainda mais fortes. Em outras palavras, podemos criar narrativas ainda mais poderosas para lidar com elas.

Mas é preciso um bocado de energia para criar um sistema imune e mantê-lo funcionando por um longo período. Você precisa encontrar essa energia em algum lugar, e onde mais encontrá-la senão em nosso ser físico mais básico?

Como suspeito que seja o caso com muita gente que vive da escrita, enquanto escrevo penso em todo tipo de coisa. Não necessariamente ponho no papel o que estou pensando; é só que, enquanto escrevo, penso sobre as coisas. Enquanto escrevo, ordeno meus pensamentos. E reescrever e revisar conduz meus pensamentos por caminhos ainda mais profundos. Por mais que escreva, contudo, nunca chego a uma conclusão. E por mais que eu reescreva, nunca atinjo um destino. Mesmo após décadas escrevendo, a mesma coisa permanece verdadeira. Tudo que faço é apresentar umas poucas hipóteses ou parafrasear o assunto. Ou encontrar uma analogia entre a estrutura do problema e alguma outra coisa.

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