a lição de oliver sacks

De repente as imensas possibilidades do que não houve viram prioridade absoluta e um desejo súbito de viver de modo mais intenso, livre ou romântico começa a dar as ordens. Uma viagem para a Tailândia, um salto de paraquedas, dizer que ama e ler James Joyce passam a ser as tarefas mais urgentes do mundo, ou então descartar os excessos, levar um amigo excêntrico no jantar da firma, trocar a segurança de um emprego bem remunerado pela satisfação de fazer o que gosta, assar um bicho exótico.

A verdade é que a proximidade da morte quase sempre desperta para a beleza da vida.

Perdoar as maldades alheias, pedir desculpas sinceras e reencontrar as crenças mais profundas passam a ser as tarefas mais urgentes de todas, ou então dar a volta ao mundo, assistir aos filmes mudos de Charles Chaplin, casar em Las Vegas, vender os vestidos todos, menos dois, doar os livros e os cadernos de receita, cruzar a faixa de pedestres de Abbey Road, indiferente aos carros, com a única e nobre missão de posar para a foto.

Com o sujeito de olhos frágeis e mente brilhante parece ter sido exatamente assim. Há alguns dias, Oliver Sacks, o neurologista míope que brindou a literatura e a ciência com visões poéticas a respeito do cérebro, tornou público que morrerá em breve por causa de um câncer múltiplo contra o qual os médicos não podem fazer mais nada.

Suas metas – palavras dele – para os meses que restam são viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que puder, aprofundar as amizades, dizer adeus aos que ama, escrever mais, viajar se tiver forças para tanto, alcançar novos níveis de entendimento e discernimento; haverá também tempo para um pouco de diversão e algumas tolices.

A tentativa de acertar as contas com o mundo, ele anota, exige audácia e franqueza:

– Sinto uma súbita nitidez de foco e de perspectiva. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso me concentrar em mim, no meu trabalho, nos meus amigos. Não vou mais assistir ao noticiário na televisão toda noite. Não darei mais atenção à política ou ao aquecimento global. Isso não é indiferença, mas distanciamento – eu ainda me preocupo muito com o Oriente Médio, aquecimento global, o crescimento da desigualdade, mas esses assuntos não me cabem mais. Eles pertencem ao futuro.

Sacudido pela doença terminal, o sujeito nascido em 1933 que nada 1.600 metros por dia decidiu fazer com os meses que restam o que talvez a gente devesse praticar um pouco todos os dias, independentemente do relógio da existência, dos desígnios divinos, dos acidentes de percurso ou dos males do corpo: ajeitar o andamento, diminuir o ritmo, reduzir o quanto possível o caminho entre nós e o que nos faz realmente felizes, seguir as verdadeiras intenções, apesar das decepções, dissimulações e expectativas desfeitas.

Tomado por metástases incontroláveis, o homem extremamente imoderado no que diz respeito a qualquer uma de suas paixões optou por fazer o que talvez a gente devesse praticar um pouco todos os dias: apostar no essencial, entender o que nos move, estar próximo do que nos emociona, investir no que importa e dispensar o resto, como o goleiro na hora do pênalti, a bordadeira no momento do arremate ou as crianças que naquela tarde brincavam alheias a quase tudo.

[O essencial, no final das contas, tem a ver com ter foco, escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém].

Morrer não dói, defende o poeta do poema maduro como o sol na garganta do futuro. O que dói é o medo de morrer, porque a gente, que não se dá conta de que morreu, não morre nossa morte, mas a dos outros. Em sua sábia carta de despedida, Oliver Sacks assume o receio diante do fim cada vez mais próximo, mas emenda, com um otimismo inspirador:

– O sentimento que predomina em mim é a gratidão. Eu amei e fui amado; tive muito e dei muito em troca; eu li, e viajei, e pensei, e escrevi. Eu tive com o mundo o relacionamento especial que os escritores e leitores têm com ele. Acima de tudo, tenho sido um animal pensante neste lindo planeta, e isso em si mesmo é uma aventura e um enorme privilégio.

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