sobre o coração e coisas do tipo número 2

Outra vez olhei em volta e o mundo inteiro parecia estar com o coração partido. O assunto das madrugadas eram de novo os adeuses, as ausências e as saudades, embora as madrugadas em si fossem um pouco diferentes e o riso estivesse de novo nos olhos da minha amiga que não combina com a dor. As histórias eram outras, com personagens diversos e cenários mais ou menos trocados, mas o músico cantava ainda o ponto final dele e, do mesmo modo, havia aquela canção lindíssima das noites mal dormidas, calor cobertas aquece direito nada mundo afastar frio braço peito volta.

[Pois o corpo está acostumado].

Havia mais cores, menos tensão, menos amargura, menos sobrecarga sobre os ombros ligeiramente tortos. Chovia menos, dentro e fora, embora as minhocas ainda trabalhassem a todo vapor, silenciosas e contínuas como os piores fantasmas, íntimas como o poema das seis ou treze coisas que Manoel de Barros aprendeu sozinho, a gravata do urubu, as quatro teorias de árvore, a palavra parede, as rachaduras e os vermes, Seu França o violeiro, as cigarras, o escuro, as casas habitadas por morcegos, as ruínas, aquilo tudo.

As escolhas também se haviam tornado mais leves e menos dependentes [embora ainda] do músculo involuntário que mora entre os pulmões e bate também no peito dos anelídeos, dos artrópodes, dos moluscos, dos cordados e dos desafinados. A busca seguia a de ser como a maioria dos budistas, boa parte dos desapegos e as crianças , sem bagagem, sem dor de cabeça, sem excesso de tarefas, sem gangorra, sem sufoco, sem a amargura do tempo, sem o medo do futuro, sem a guerra ou a tragédia que é ter dor de cotovelo.

[Dói do cóccix até o pescoço].

Mesmo assim, quando olhei em volta, o mundo parecia outra vez estar com o coração partido, embora fossem outras as histórias e diversos os personagens. Quis dizer o que havia aprendido com a ciência, que o coração é um órgão oco que bombeia o sangue de forma que circule pelo corpo todo, um percurso que, nos seres humanos, demora cerca de 50 segundos em repouso. Daí, impulsionado por uma pressão razoável, o sangue percorre braço, boca, nariz, peito, batatas da perna, cérebro, mão, joelho, o cantinho da unha, fígado, pulmão e estômago, ida e volta, levando o oxigênio e os nutrientes às células que sustentam as atividades do organismo, e pronto.

Quis dizer também o que havia aprendido com o tempo, que o coração é um órgão cheio que organiza ações e reações, opções e decisões, caminhos e desvios, um hábito que, nos seres humanos, dura cerca de uma vida inteira. Daí, durante este tempo, determina escolhas, seleciona encontros, recorta sentimentos, amor, amigo, desgosto, expectativa, espera, insistências, desistências, reticências, feliz ou nem, inesquecível ou aquele abril inteiro que era melhor apagar, chegadas e partidas alimentando o movimento que sustenta as atividades do espírito.

Quis dizer da ciência, do tempo, das ausências, da canção, das cores, dos ombros e da chuva, das minhocas e das seis ou treze coisas que Manoel de Barros aprendeu sozinho, quando olhei em volta e o mundo parecia outra vez estar com o coração partido. Quis dizer do movimento que sustenta as atividades do espírito, da ida e volta que alimenta as atividades do corpo, da mudança que logo estaria no lugar daquele desassossego.

Quis dizer do aprendizado difícil, mas muitísssimo útil, a respeito das chegadas e das partidas – e até dos dias em que não dá tempo de dizer adeus. Quando olhei em volta e o mundo inteiro parecia estar com o coração partido, embora fossem outras as histórias e diversos os personagens, quis dizer que sempre passa, mesmo que na hora não pareça.

da série leituras

DO QUE EU FALO QUANDO EU FALO DE CORRIDA
Por Haruki Murakami

aspas[…] muita gente parece compartilhar a opinião de que escrever é uma atividade insalubre, de que os romancistas são de certa forma uns degenerados que precisam levar uma vida desregrada a fim de escrever. Há uma visão amplamente difundida de que adotando um estilo de vida não salutar o escritor consegue se despir do mundo profano e atingir um tipo de pureza que tenha valor artístico. A ideia tomou forma durante um longo tempo. O cinema e a tevê perpetuaram essa figura estereotipada — ou, para encarar de um modo positivo, mítica — do artista.

Basicamente eu concordo com a opinião de que escrever romances seja um estilo de vida pouco saudável. Quando paramos para escrever um romance, quando usamos a escrita para criar uma história, queiramos ou não, um tipo de toxina que jaz nas profundezas de toda a humanidade sobe à superfície. Todo escritor precisa ficar cara a cara com essa toxina e, consciente do perigo envolvido, descobrir um jeito de lidar com ela, pois de outro modo nenhuma atividade criativa no sentido real pode ter lugar. Encare com toda positividade que quiser, mas, definitivamente, não é saudável.

Então, antes de tudo, a atividade artística compreende elementos insalubres e antissociais. Admito. É por isso que entre escritores e outros artistas há muitos cuja vida real é decadente ou que fingem ser antissociais. Posso aceitar isso. Ou melhor, não necessariamente negar o fenômeno. Mas aqueles dentre nós que alimentam a esperança de ter uma longa carreira como escritores profissionais precisam desenvolver um sistema autoimune próprio, capaz de resistir à toxina perigosa que reside dentro de nós. Fazendo isso, podemos dispor eficientemente de toxinas ainda mais fortes. Em outras palavras, podemos criar narrativas ainda mais poderosas para lidar com elas.

Mas é preciso um bocado de energia para criar um sistema imune e mantê-lo funcionando por um longo período. Você precisa encontrar essa energia em algum lugar, e onde mais encontrá-la senão em nosso ser físico mais básico?

Como suspeito que seja o caso com muita gente que vive da escrita, enquanto escrevo penso em todo tipo de coisa. Não necessariamente ponho no papel o que estou pensando; é só que, enquanto escrevo, penso sobre as coisas. Enquanto escrevo, ordeno meus pensamentos. E reescrever e revisar conduz meus pensamentos por caminhos ainda mais profundos. Por mais que escreva, contudo, nunca chego a uma conclusão. E por mais que eu reescreva, nunca atinjo um destino. Mesmo após décadas escrevendo, a mesma coisa permanece verdadeira. Tudo que faço é apresentar umas poucas hipóteses ou parafrasear o assunto. Ou encontrar uma analogia entre a estrutura do problema e alguma outra coisa.

a lição de oliver sacks

De repente as imensas possibilidades do que não houve viram prioridade absoluta e um desejo súbito de viver de modo mais intenso, livre ou romântico começa a dar as ordens. Uma viagem para a Tailândia, um salto de paraquedas, dizer que ama e ler James Joyce passam a ser as tarefas mais urgentes do mundo, ou então descartar os excessos, levar um amigo excêntrico no jantar da firma, trocar a segurança de um emprego bem remunerado pela satisfação de fazer o que gosta, assar um bicho exótico.

A verdade é que a proximidade da morte quase sempre desperta para a beleza da vida.

Perdoar as maldades alheias, pedir desculpas sinceras e reencontrar as crenças mais profundas passam a ser as tarefas mais urgentes de todas, ou então dar a volta ao mundo, assistir aos filmes mudos de Charles Chaplin, casar em Las Vegas, vender os vestidos todos, menos dois, doar os livros e os cadernos de receita, cruzar a faixa de pedestres de Abbey Road, indiferente aos carros, com a única e nobre missão de posar para a foto.

Com o sujeito de olhos frágeis e mente brilhante parece ter sido exatamente assim. Há alguns dias, Oliver Sacks, o neurologista míope que brindou a literatura e a ciência com visões poéticas a respeito do cérebro, tornou público que morrerá em breve por causa de um câncer múltiplo contra o qual os médicos não podem fazer mais nada.

Suas metas – palavras dele – para os meses que restam são viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que puder, aprofundar as amizades, dizer adeus aos que ama, escrever mais, viajar se tiver forças para tanto, alcançar novos níveis de entendimento e discernimento; haverá também tempo para um pouco de diversão e algumas tolices.

A tentativa de acertar as contas com o mundo, ele anota, exige audácia e franqueza:

– Sinto uma súbita nitidez de foco e de perspectiva. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso me concentrar em mim, no meu trabalho, nos meus amigos. Não vou mais assistir ao noticiário na televisão toda noite. Não darei mais atenção à política ou ao aquecimento global. Isso não é indiferença, mas distanciamento – eu ainda me preocupo muito com o Oriente Médio, aquecimento global, o crescimento da desigualdade, mas esses assuntos não me cabem mais. Eles pertencem ao futuro.

Sacudido pela doença terminal, o sujeito nascido em 1933 que nada 1.600 metros por dia decidiu fazer com os meses que restam o que talvez a gente devesse praticar um pouco todos os dias, independentemente do relógio da existência, dos desígnios divinos, dos acidentes de percurso ou dos males do corpo: ajeitar o andamento, diminuir o ritmo, reduzir o quanto possível o caminho entre nós e o que nos faz realmente felizes, seguir as verdadeiras intenções, apesar das decepções, dissimulações e expectativas desfeitas.

Tomado por metástases incontroláveis, o homem extremamente imoderado no que diz respeito a qualquer uma de suas paixões optou por fazer o que talvez a gente devesse praticar um pouco todos os dias: apostar no essencial, entender o que nos move, estar próximo do que nos emociona, investir no que importa e dispensar o resto, como o goleiro na hora do pênalti, a bordadeira no momento do arremate ou as crianças que naquela tarde brincavam alheias a quase tudo.

[O essencial, no final das contas, tem a ver com ter foco, escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém].

Morrer não dói, defende o poeta do poema maduro como o sol na garganta do futuro. O que dói é o medo de morrer, porque a gente, que não se dá conta de que morreu, não morre nossa morte, mas a dos outros. Em sua sábia carta de despedida, Oliver Sacks assume o receio diante do fim cada vez mais próximo, mas emenda, com um otimismo inspirador:

– O sentimento que predomina em mim é a gratidão. Eu amei e fui amado; tive muito e dei muito em troca; eu li, e viajei, e pensei, e escrevi. Eu tive com o mundo o relacionamento especial que os escritores e leitores têm com ele. Acima de tudo, tenho sido um animal pensante neste lindo planeta, e isso em si mesmo é uma aventura e um enorme privilégio.