uma história de carnaval e depois

Da primeira vez que se viram era sábado de carnaval, cores, pequenos pecados, chuva, suor, cerveja, toda a música do mundo reduzida a três hits ruins, as fantasias fora do armário e a imaginação no poder.

[Delícia].

Ele andava às voltas com as mudanças, óculos novos, outro endereço, um projeto inteiro a construir pela frente e uma pedra robusta em cima do passado. Exibia um modo suave, gingado e devagar, como se dançasse ao som de um compasso imaginário que misturava Marvin Gaye com Cartola, The Shine of Dried Electric Leaves com a música feita nas calçadas da Havana ou nas esquinas de Porto Rico, Chet Baker com algo que não sei bem se Elza Soares ou Marina de la Riva, Jorge Ben com Julieta Venegas e uma pitada a mais de malandragem.

Ela também tentava enterrar algumas memórias, colocar sossego no lugar das turbulências, voltar a ver o mundo com os olhos da delicadeza, retomar a capacidade de compreensão das diferenças que, talvez, estivesse perdida perto dali. Com o filme daquela noite tinha reaprendido que as melhores escolhas são aquelas movidas pelo amor, como talvez sejam a maioria absoluta das escolhas,e que as marcas do vivemos – de grande e de pequeno, de feliz e de trágico, de bonito e de feio, da viagem pela Europa ao pastel da feira de sábado, dos adeuses às descobertas – interferem decisivamente nas respostas que damos às perguntas da vida.

Respondiam às perguntas da vida com as próprias marcas, os adeuses e as descobertas. Cada um trilhava seu caminho, sem a menor desconfiança do que teriam nos meses seguintes, quantas canções, quantos sorrisos, quantas madrugadas, quantos silêncios e palavras inventadas, quantos braços de um em volta do corpo do outro, e se havia – e quem é que sabe? – dissonâncias, desencontros, incômodos, ausências, dúvidas e distâncias à espera daquela história que começava sem que ninguém percebesse, nem eles.

Tinham em comum a prática dos começos despercebidos, ele mergulhado nas obrigações urgentes, nos prazeres imediatos e num modo próprio de agir e pensar, ela desfeita e descrente diante de uma aposta malsucedida, e cada vez mais interessada na simplicidade das coisas, os dois meio alheios à festa que se fazia nos quatro cantos do país, menos no canto deles. Não sabiam – e quem é que sabe? – que haveria outras tantas noites igualmente alheias ao que passava do lado de fora, assentadas dentro do mundo silencioso que construíram desde o instante em que ele pediu desculpas por um deslize que nem vinha ao caso e ela se encantou pelo balanço dele, em pleno sábado de carnaval.

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