da série leituras

AS CIDADES E OS SÍMBOLOS
Por Italo Calvino

aspasQuem viaja sem saber o que esperar da cidade que encontrará ao final do caminho, pergunta-se como será o palácio real, a caserna, o moinho, o teatro, o bazar. Em cada cidade do império, os edifícios são diferentes e dispostos de maneiras diversas: mas, assim que o estrangeiro chega à cidade desconhecida e lança o olhar em meio às cúpulas de pagode e claraboias e celeiros, seguindo o traçado de canais hortos depósitos de lixo, distingue quais são os palácios do príncipes, quais são os templos dos grandes sacerdotes, a taberna, a prisão, a zona. Assim – dizem alguns – confirma-se a hipótese de que cada pessoa tem em mente uma cidade feita exclusivamente de diferenças, uma cidade sem figuras e sem forma, preenchida pelas cidades particulares.

Não é o que acontece em Zoé. Em todos os pontos da cidade, alternadamente, pode-se dormir, fabricar ferramentas, cozinhar, acumular moedas de ouro, despir-se, reinar, vender, consultar oráculos. Qualquer teto em forma de pirâmide pode abrigar tanto o lazareto dos leprosos quanto as termas das odaliscas. O viajante anda de um lado para o outro e enche-se de dúvidas: incapaz de distinguir os pontos da cidade, os pontos que ele conserva distintos na mente se confundem. Chega-se à seguinte conclusão: a existência em todos os momentos é uma única, a cidade de Zoé é o lugar da existência indivisível. Mas então qual é o motivo da cidade? Qual é a linha que separa a parte de dentro da de fora, o estampido das rodas do uivo dos lobos?

uma história de carnaval e depois

Da primeira vez que se viram era sábado de carnaval, cores, pequenos pecados, chuva, suor, cerveja, toda a música do mundo reduzida a três hits ruins, as fantasias fora do armário e a imaginação no poder.

[Delícia].

Ele andava às voltas com as mudanças, óculos novos, outro endereço, um projeto inteiro a construir pela frente e uma pedra robusta em cima do passado. Exibia um modo suave, gingado e devagar, como se dançasse ao som de um compasso imaginário que misturava Marvin Gaye com Cartola, The Shine of Dried Electric Leaves com a música feita nas calçadas da Havana ou nas esquinas de Porto Rico, Chet Baker com algo que não sei bem se Elza Soares ou Marina de la Riva, Jorge Ben com Julieta Venegas e uma pitada a mais de malandragem.

Ela também tentava enterrar algumas memórias, colocar sossego no lugar das turbulências, voltar a ver o mundo com os olhos da delicadeza, retomar a capacidade de compreensão das diferenças que, talvez, estivesse perdida perto dali. Com o filme daquela noite tinha reaprendido que as melhores escolhas são aquelas movidas pelo amor, como talvez sejam a maioria absoluta das escolhas,e que as marcas do vivemos – de grande e de pequeno, de feliz e de trágico, de bonito e de feio, da viagem pela Europa ao pastel da feira de sábado, dos adeuses às descobertas – interferem decisivamente nas respostas que damos às perguntas da vida.

Respondiam às perguntas da vida com as próprias marcas, os adeuses e as descobertas. Cada um trilhava seu caminho, sem a menor desconfiança do que teriam nos meses seguintes, quantas canções, quantos sorrisos, quantas madrugadas, quantos silêncios e palavras inventadas, quantos braços de um em volta do corpo do outro, e se havia – e quem é que sabe? – dissonâncias, desencontros, incômodos, ausências, dúvidas e distâncias à espera daquela história que começava sem que ninguém percebesse, nem eles.

Tinham em comum a prática dos começos despercebidos, ele mergulhado nas obrigações urgentes, nos prazeres imediatos e num modo próprio de agir e pensar, ela desfeita e descrente diante de uma aposta malsucedida, e cada vez mais interessada na simplicidade das coisas, os dois meio alheios à festa que se fazia nos quatro cantos do país, menos no canto deles. Não sabiam – e quem é que sabe? – que haveria outras tantas noites igualmente alheias ao que passava do lado de fora, assentadas dentro do mundo silencioso que construíram desde o instante em que ele pediu desculpas por um deslize que nem vinha ao caso e ela se encantou pelo balanço dele, em pleno sábado de carnaval.

chegadas, estadas, partidas

É um mecanismo curioso este que rege as chegadas, as estadas e as partidas. As chegadas – esperadas ou repentinas – fazem dançar a dança dos dias felizes, tronco leve, sorriso escancarado, disposição para a graça de qualquer coisa, a qualquer hora, brilho no olho e um efeito semelhante ao funk do balanço que tira qualquer um da fossa.

[É o famoso 16 toneladas].

As estadas – desejadas ou incômodas – variam de zero a dez na escala Ricther, sismógrafo, magnitude local e logaritmos a serviço da descoberta de qual medida, quanto amor, quando fim ou se ainda não, porque dificuldades ou as melhores possibilidades do mundo, onde dor ou o corpo inteiro tomado de alegria, coração, pulmão e estômago inteiros cheios, de tanta felicidade, e em que quantidade cada uma dessas coisas.

As partidas – anunciadas ou surpreendentes, e até aquelas que demoram mais do que deviam – têm também as suas variações. Ou deixam na gente um alívio que não se descreve [um peso a menos, e uma vida inteira de esperança] ou criam um rombo que igualmente não se mede, o rombo de personagens solitários como a indiana de mapa astral ruim da página 189.

Se é verdade que o mundo tem coerência, chegadas, estadas e partidas obedecem à lógica da justiça de Deus e dos homens, uma depois da outra. Daí, um pouco de açúcar, um pouco de álcool, a arte do diálogo, o tempo, o ar e algumas canções ajudam a embalar os amigos novos que a gente faz quando nem imagina, a vontade de estar perto contra toda a lógica do mundo, os planos para o próximo feriado.

Em um caso, como nos outros, funciona quase sempre do mesmo jeito – menos nas exceções, que felizmente persistem até o sempre. Primeiro aquela paz de quando você não tem muitas expectativas, depois o encontro que faz o peito parecer mais vivo, frio na barriga, desejo, prazer, presença, descoberta, delícia.

A certa altura não mais prazer, não mais presença, não mais calma, pisar em ovos, tentar uma duas três mil vezes, errou, gosto amargo, dor no peito, tentativa frustrada e, depois de processos mais ou menos dolorosos e mais ou menos civilizados, desiste, joga a toalha, dobra as camisas penduradas no armário, apaga o texto, muda o contexto, acabou, até qualquer dia, em outro lugar.

Faz parte, e um pouco de açúcar, um pouco de álcool, um pouco de colo e um pouco de música ajudam a administrar a presença da amiga de infância que propõe um reencontro milhões de – quase 10 – anos depois, a ausência do sujeito que precisa achar a si mesmo do outro lado do mapa, a presença do sorriso irrecusável que aparece sem pedir licença, a ausência dos que a gente sente saudade e não sabe o que dizer, a presença repentina daquele feriado santo em que cantávamos os sertanejos por Camburi, a ausência igualmente repentina, triste e sem certeza, de algumas semanas depois.

Assim e pronto, e nem mil ensaios, mil exemplos, mil conversas, mil teorias são suficientes pra disfarçar a vertigem do seja bem-vindo à minha vida ou pra ficar de pé quando chega o momento do não quero mais a sua insensatez, hasta la vista, tira o porta-retrato, toma a chave, apaga o texto, muda o contexto, acabou.

Assim, e pronto, porque pessoas, coisas e afetos chegam, ficam e partem quase sempre de modo curioso, repentino e inexplicado, e quase nunca dá tempo de pintar as unhas ou os olhos, de pôr o vestido ideal ou dizer a coisa certa, de descobrir o gesto que melhor cabe ou organizar a recepção perfeita. Não dá tempo de nada, de ensaiar a palavra certa ou de abraçar o tanto que queria, fazer o café no ponto certo ou apresentar pros amigos que moram longe, não dá tempo de superar o medo, não dá tempo de nada. Não dá tempo de se acostumar à falta nem de ensaiar viver de outro jeito.

Às vezes não dá tempo nem de dizer adeus.