14 coisas que aprendi em 2014

1. A paz não é tarefa fácil, mas respirar fundo, apostar no poder da serenidade e acreditar que a saída quase sempre aponta para o que for simples ajuda a, quase sempre, transformar peso em força, exemplo em inspiração, limão em limonada.

2. Atitudes e palavras gentis demonstram força, não o seu oposto. Confiança, respeito e admiração são sentimentos incrivelmente mais poderosos do que medo, obediência e subserviência. Precisamos não apenas de lógica, de logística, inteligência, organização e eficiência, mas também de sensibilidade e afeto para compreender as transformações do mundo. Devemos não apenas trabalhar duro, mas igualmente investir em encontros com aqueles que pensam menos na posse e mais no sentido, menos no acúmulo e mais na permanência, menos no exagero e mais no equilíbrio, menos no poder e mais na potência.

3. A humildade talvez seja parente próxima da beleza, ou então da simplicidade, aquela que o implacável imperador encontrou, depois de duas décadas de conquistas e crueldades, em uma pequena horta na sua terra natal. Certo dia, diante da sugestão de que retornasse ao poder, o ex-imperador teria dito:
– Se você visse meus lindos repolhos, não me pediria uma coisa dessas.

4. Cartografia é uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa.

5. Depois de um tempo e a certa distância, até o rancor vira outra coisa e a verdade feita de saudade, ciúme, cansaço, ansiedade e apego abre espaço para a percepção de que rupturas são indispensáveis, de que coragem e criatividade fazem melhor ao mundo que conformismo. Em outro momento ou de um lugar diferente, uma angústia sufocante não passa de nada, o pior ressentimento não passa de uma lembrança vaga, um monstro gigante não passa de um ciuminho bobo, uma paixão incurável não passa de um amontoado de memórias. Em outro momento ou de um lugar diferente, os pesos pesam menos e, depois de algumas horas de sono, dá até pra reconhecer o tamanho do passo que pareceu pequeno, mas quem sabe tenha sido imenso. Depois de um período e a certa distância, as coisas mudam, ou então muda o olhar que colocamos sobre elas.

6. Adianta bem pouco acumular mil experiências se a mente não descansa.

7. Emoção mal digerida é como comida pesada: faz mal ao estômago, sobrecarrega o fígado, atravanca o intestino. Se, conforme determina a medicina tradicional chinesa, a barriga for o centro do homem, os sentimentos negativos, preocupação excessiva e pensamentos obsessivos alteram profundamente o funcionamento de certos órgãos, deixando o corpo todo em total desarmonia.

[Ai].

8. Mia Couto tem toda razão. Cozinhar é um modo de amar os outros.

9. Eugenio Mussak também sabe o que diz: o que dá a verdadeira dimensão de um lugar, seja uma casa, uma cidade ou um planeta, não é o quanto que ele é grande, mas o quanto que ele é justo.

10. Desde remotos anos antes de Cristo, a civilização Maia tinha tinha por hábito medir a passagem dos dias e respectivas noites, registrar o movimento dos astros, demarcar as celebrações religiosas, as vitórias militares, a fundação das cidades e as colheitas, além de erguer nas pedras inscrições que contribuíssem para a memória das gerações futuras. Os ciclos se repetiam de 13 em 13 luas de 28 dias cada, somando 364 dias, com início em 26 de julho e fim no 24 de julho seguinte. O dia 25 não pertencia nem a um ano nem ao outro, e os maias o chamavam de O Dia Fora do Tempo. Durante estas 24 horas, as tarefas eram meditar a respeito da vida, agradecer pelo resultado das semeaduras anteriores, cancelar dívidas materiais ou metafísicas, dedicar-se às artes, elevar o estado de consciência e respirar com toda a liberdade do mundo. Nelas se concentrava a energia para o período que em breve começaria, bem ou mal, alegre ou triste, leve ou pesado, de acordo com o que fosse – bom ou mau, alegre ou triste, leve ou pesado – o Dia Fora do Tempo.

Taí, gostei.

11. A dica 11 do livro de autoajuda é, como a de número 171 em 2013, inacreditavelmente eficiente, apesar de livro de autoajuda ser aquela coisa: “Quando estiver de bom humor, sente-se à sua escrivaninha e faça uma lista de atividades, comidas, lugares, pessoas e situações que o fazem se sentir bem”.

12. As dicas 26, 27 e 28 de um outro exemplar também funcionam:
Descarte as coisas que não usa mais | Descarte os hábitos e sentimentos que você ainda usa, mas que são nocivos ao seu bem estar | Poupe ao menos 20% de seu ganhos

13. Dançar é um santo remédio. O que diz a canção faz bem igual: “Cuide tudo o que for verdadeiro. Deixe tudo o que não for passar”.

14. O vento sul guarda a melancolia dos domingos de inverno, mas também a leveza do descanso e a imensa possibilidade dos recomeços, limpar o céu com sua força, inspirar palavras com a tristeza que prenuncia, dispersar os maus presságios que insistem apesar da fé, como fosse não apenas o movimento do ar em relação à superfície terrestre com variações de velocidade e direção, mas também um pequeno teco de esperança, uma canção em tom maior, um abraço com o braço mais firme de todos, a crônica otimista do instante que passa:

“Não há muita pressa, mas é preciso aprender a continuar. É preciso plantar uma rosa, cumprir promessa, escrever o poema que um dia pediram de mim, numa mesa de bar. É preciso voltar a crer, e você, Maria, nunca mais vai dizer que já não é mais tempo de esperar. Nunca senti que a vida exigisse tanta esperança de mim, como exige agora. Deve haver sempre a espera, enchendo todas as mãos, todos os olhos, todos os silêncios. Não deve faltar jamais a esperança, Maria: ela precisa estar também no sonho, no gesto, em todas as palavras e em todas as canções”.
Carmélia Maria de Souza

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