de palavras e de coisas

Café é uma palavra que eu gosto de graça, quatro letras, um acento, açúcar, adoçante ou nem, gosto, textura e cheiro a serviço da energia, do calor e dos encontros. Encontro é uma palavra que eu gosto à toa, no corredor, quando a gente menos espera, no balcão ou então logo ali, na mesa do canto, na madrugada silenciosa ou no finzinho da tarde, amanhã, agora, qualquer hora, depois do expediente ou nos dias de folga.

[Delícia].

Folga é uma palavra que eu gosto de graça, a palavra e a coisa em si, sair cedo pra ver o mundo com o dia claro, andar a pé até a praia, desafinar debaixo do chuveiro, cuidar das lembranças, das panelas e das samambaias. De samambaias também gosto à toa, da palavra e da coisa em si. Gosto do som de dizer samambaia, do verde plástico delas, da sensação de cheio delas, dependuradas e firmes como poucas coisas no mundo conseguem ser ao mesmo tempo.

Tempo é uma palavra que eu gosto de graça, cinco letras, gramática, música, meteorologia, poesia ou o jeito que a natureza deu pra que as coisas não acontecessem todas num único instante. Instante é boa, ao contrário de medíocre, que acho feia. Prefiro ridícula, que a minha afilhada menor pronunciava ri-dí-cu-na, com N, sem ter muita ideia do que significava, do jeito mais fofo do mundo. Mundo, aliás, é outra palavra simpática, que nem coisa, que quase nunca decepciona.

Canção é uma palavra que eu gosto de graça. Ordinária é outra, comum, habitual, repete. Espera também é boa, embora as esperas sejam em si um troço dispensável. Trem é igualmente boa. Melhor ainda é a história de que os astecas, no dia exato em que chegavam ao meio da vida – eles sentiam a hora certa -, notavam uma súbita vontade de tomar um trem para algum lugar. Como os trens não tinham sido inventados, eles acabavam por guardar uma tristeza que vinha da vontade de algo que ainda não sabiam.

Gosto de compreensão, da palavra e da coisa em si, capacidade de andar junto apesar do descompasso e percepção de que aceitar às vezes funciona melhor que qualquer força. Força eu não gosto, mas acaso é uma palavra bonita demais da conta. Amigo é palavra boa e coisa melhor ainda, um olho pra ver o Roberto e o Erasmo emocionados no palco, um ombro pra ouvir lamentos, um riso pra rir quando os lamentos terminam, um par de pernas para bater e uma dose extra de disposição pra beber Absolut de baunilha, enterrar os que nos deixam cedo, puxar a orelha quando precisa, receber e dar notícia.

Notícia é uma palavra que eu gosto de graça, que nem café, encontro, folga, samambaia, tempo, mundo, troço, trem, pepperoni, balanço, liberdade, silêncio e Carlos Drummond de Andrade. Ideia também, invenção abstrata, pensamento, intenção, moda, imaginação, nascidos de uma conversa regada a margaritas, durante as insônias, na cozinha, diante dos discos, na sala, no bar ou no banheiro, paz, nudez ou semi, sossego, o lugar – alguém disse, com toda a razão – de onde saímos mais limpos, mais puros e mais dispostos.

Pureza é uma palavra que eu gosto à toa, e teu é o pronome mais bonito de todos. Saudade é boa, mas é ruim. Tagarelice é divertida. Blablablá é melhor ainda. Movimento é cool, igual café, encontro, folga, tempo, mundo, trem, balanço, ideia, razão, pureza, blablablá e o blues do homem de cabelo cinza – o dela é cor de abóbora, e abóbora é uma palavra que eu gosto de graça.

De gangorra eu não gosto. Desde pequena, a melhor hora pra mim era quando ambos estavam no meio, um se equilibrando no equilíbrio do outro. Eu não sabia, àquela altura, que para haver estabilidade era preciso ter igual distribuição de massa ao redor de um ponto de apoio. Ignorava o princípio segundo o qual a harmonia exige que a parte mais pesada esteja abaixo do ponto de equilíbrio de um determinado corpo – por isso, diz a ciência, é mais fácil atravessar um rio pendurado numa corda do que andar sobre ela.

Desconhecia ainda a matemática a respeito das distâncias, pesos e apoios que faziam dar certo a brincadeira da tábua sustentada no ponto central pelo princípio da alavanca, e nem a canção direito eu entendia.

Eu levo a vida pensando.
Pensando só em você.
O tempo passa e eu vou me acabando no balancê balancê….

Balanço é uma palavra que eu gosto de graça, quase tanto quanto encanto, o sorriso da minha amiga diante das histórias, o modo como o futebol alegra os domingos dela e os afetos preenchem as suas ausências. Vazio tem um quê de bom: por pior que seja, sempre pode ser um primeiro passo. Finais acontecem, mas bonita mesmo é a palavra começo, um beijo demorado, uma conversa de uma madrugada inteira, descobrir as preferências e os desgostos e as vírgulas da vida, uma viagem ou o primeiro parágrafo daquele livro em que, muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar a tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

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